Do ecletismo musical dos Bandarra

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Os Bandarra são amadores porque não fazem da música uma profissão. São amadores mas não lhes falta uma consciência profissional. Amam o que fazem e, sendo universais a partir da ilha do Faial, tocam juntos por puro prazer.

O segundo trabalho discográfico desta banda intitula-se “Bicho do Diabo” (2012) e tem pré-produção, produção, gravação e mistura de António Bragança. Recorde-se que o primeiro disco do grupo (“Bandarra”, 2010) constituiu uma surpresa musical no contexto regional e nacional, tendo sido nomeado para a 1ª edição dos Prémios Megafone, que levou a banda até ao palco do Centro Cultural de Belém. De então para cá, os Bandarra têm feito uma série de concertos, dentro e fora dos Açores, afirmando-se musicalmente e merecido elogiosas críticas de alguma comunicação social de referência: ”Visão”, “Expresso”, “JL”, entre outros.

 “Bicho do Diabo” reúne catorze temas originais, com letras de Miguel Machete, sendo a música e os arranjos da responsabilidade dos elementos do grupo. 

Numa primeira audição, o que salta ao ouvido são as cores tímbricas com que Miguel Machete enriquece e distingue as interpretações. Não soa tudo ao mesmo como tantas vezes acontece em álbuns que procuram uma unidade. Pelo contrário: o universo musical dos Bandarra busca uma variedade, aqui residindo a sua imagem de marca, a sua identidade musical.

Sem perder de vista o legado da música tradicional portuguesa (e, dentro desta, a de expressão açoriana, com olhares à fraseologia popular das ilhas), os Bandarra apostam num ecletismo musical que vai da música popular urbana à música portuguesa, céltica e balcânica, viajando, neste e no primeiro trabalho discográfico, pelo fado, pop, rock, afro, reggae, gypsy e blues.

Neste cocktail sonoro, destaque para a boa batida, isto é, a boa onda da melodia, da harmonia e do ritmo. São cantigas muito cénicas (“A Foliona”) que questionam o real (“Mais ou menos minuto”), denunciam a pardacenta rotina (“A Feira”), interrogam os dias incertos (“Bicho do Diabo”) e são um grito contra o imobilismo e o ensimesmamento (“Zé”). E tudo isto nos é dado em doses de subtil ironia e com olhares críticos à sociedade. 

Rendo-me incondicionalmente a estes “seis mafarricos” (“Batata”, “Gira”, “Fausto”, “Chinês”, “Lau” e Pietá” – já lhes chamei trovadores e arlequins dos nossos dias) que estão a tocar cada vez melhor. E que variedade de instrumentos – até o mozartiano “glockenspiel” utilizam. O Miguel Machete está em grande forma, com a sua “acting voice” e uma imaginação transbordante. Gostei particularmente de “Não és dos nossos”, cantada com macios afagos harmónicos – belíssimo poema e belíssima canção. Notável é também a “Canção expiração” que nos fala da angústia dos bloqueios criativos. Mesmo uma música aparentemente orelhuda como “Vamos à Praia” (que para além do seu sentido semântico, é também um mando da Chamarrita) tem muito que se lhe diga em termos de composição.

O disco termina com um convite breve para que o outro visite a ilha.

Com boa captação, bons arranjos e em edição cuidada em termos gráficos, “Bicho do Diabo” é um disco extremamente variado e de ambiente enérgico. Para fruir alto e em bom som.

 

                                                                                                   

 

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