É estranho

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TI

“ Se vais escrever sobre este assunto talvez possas usar essa expressão que tens repetido tão frequentemente – é estranho” sugeriu o meu pai, quando lhe contava as minhas impressões sobre os trilhos que tinha percorrido na semana anterior na ilha da Madeira. E, de facto, é estranho.
Aquilo que me motivou a ir à ilha da Madeira foi a vontade de conhecer melhor a Floresta Laurissilva da Madeira classificada pela UNESCO como Património Mundial Natural. Esta mancha florestal ocupa cerca de 20% da ilha e encontra-se na vertente norte da mesma, nas zonas mais íngremes da região montanhosa e nos vales alcantilados do interior da ilha. Com uma vegetação luxuriante de características subtropicais e húmidas e numerosos endemismos, relativamente equilibrada no que diz respeito à presença de vegetação invasora, evoca de modo muito forte a vegetação que se considera estar associada à Era Terciária. As espécies de vegetação presentes são diferentes das existentes nos Açores mas possuem semelhanças ao nível dos géneros florísticos. As características que definem a vegetação laurissilva nos dois arquipélagos são, no entanto, as mesmas: esta formação é caracterizada pela presença de espécies de vegetação lenhosa de folha persistente, verde-escura, geralmente larga e por vezes com aspeto coriáceo. As suas especificidades permitem a perfeita adaptação às zonas de nebulosidade permanente e pouca intensidade de radiação solar onde se encontram, e conferem a esta floresta um aspeto muito curioso, já que se consegue entender aqui, de forma clara, que a vegetação laurissilva e as nuvens fazem parte de um mesmo ciclo ecossistémico. Ou seja, as nuvens são essenciais para a proteção da vegetação laurissilva da intensidade da radiação solar, e a laurissilva, com as suas folhas características, ajuda a captar os nevoeiros, originando um tipo próprio de precipitação por interceção direta da água das nuvens. Experienciar esta paisagem e entendê-la melhor procedendo aos paralelismos com a paisagem açoriana foi gratificante.
Outro motivo que me levou à Madeira foi tentar entender o modo como o recurso paisagem e a laurissilva estão a ser geridos. E aí é que é estranho. Tendo percorrido dois trilhos, a Levada do Caldeirão Verde (a cerca a de 900 metros de altitude) e a Vereda da Ponta de São Lourenço (perto do nível do mar) em ambos foi possível notar a deficiente informação sobre os riscos associados à presença de zonas de precipício ainda não protegidas, de áreas onde as proteções em cabo de aço se encontram quebradas e de zonas íngremes de piso escorregadio. Tendo em conta o elevado número de turistas, muitos sem o equipamento adequado para fazer face às situações encontradas ao longo dos percursos, a ausência de um controlo do número de turistas que se encontram simultaneamente a percorrer os trilhos e a necessidade de estes se cruzarem (já que os percursos são lineares), geram-se verdadeiras situações de risco. Tendo conversado sobre o tema com investigadores da área do turismo da Universidade da Madeira estes referiram a falta de meios para a conservação dos trilhos por parte do Instituto das Florestas e da Conservação da Natureza, que na Madeira agrega o Parque Natural da Madeira e a Direção Regional das Florestas. No entanto, o turismo de natureza pretende ser um dos ex-libris da Madeira. É estranho.
A história da minha família encontra-se ligada à das levadas construídas nos Açores e na Madeira. O nosso avô paterno era engenheiro técnico e esteve em equipas que implantaram no terreno as levadas da ilha do Faial e algumas das levadas da ilha da Madeira. No caso da ilha da Madeira ele contava que as equipas se içavam para as regiões montanhosas, e a todo o material necessário para o trabalho, por meio de cordas e aí ficavam a trabalhar toda a semana, já que as condições de inacessibilidade impediam as deslocações diárias para o Funchal. No entanto, fotografias a que tenho acesso e que datam dos anos 40 do século passado mostram que a estas estruturas para a captação de água estava muitas vezes associado um percurso lateral de cerca de 1 metro, que nessa altura servia para que os trabalhadores pudessem proceder aos trabalhos de manutenção em segurança. No dia em que percorri a Levada do Caldeirão Verde deveriam estar cerca de 400 pessoas em simultâneo a fazê-lo, e apenas no início da levada e em alguns troços se encontravam estes antigos percursos laterais. É estranho.
A indústria do turismo tem sido, no nosso país, um instrumento alavancador da economia, e as campanhas de marketing no estrangeiro têm funcionado para trazer turistas de numerosas nacionalidades, atraídos pelas paisagens, pelas condições do tempo, pela cultura e pela segurança. Contudo, não se consegue conceber uma indústria sustentável sem pessoal técnico das mais diversas valências afeto a essa indústria. É necessário que engenheiros, arquitetos e arquitetos paisagistas projetem e ajudem a implementar as estruturas de fruição da paisagem em segurança, e que exista um corpo de equipas de assistentes operacionais devidamente formado e coordenado que continuadamente proceda à manutenção dos trilhos e miradouros. É também necessário que exista um controlo de qualidade dos produtos fornecidos, em termos da segurança para os turistas, da qualidade e relevância da informação fornecida aos mesmos, e da sustentabilidade ambiental da exploração turística. Para continuarmos a desenvolver-nos, sim, mas sustentadamente.

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