E o Natal Chegando…

0
14

Ao aproximar-se mais um Natal, imagino que possivelmente ainda aparecerão os tradicionais presépios, altarinhos, árvores, algumas prendas, tudo isso em nome daquele Menino que um dia nasceu para nos salvar. E que, não sei por que cargas d´água  passou a chamar-se Pai Natal.

Calculo também que hoje, nada será igual a ontem, porque nós andamos aturdidos com a transformação do mundo, com os nossos sonhos abortados, à procura do que se foi, dos sorrisos e risos perdidos, de palavras amáveis, de compreensão, de boas notícias que não aparecem, eu sei lá! Perante isto, sentimos a nossa miséria, embora saibamos que a vida não pode ser vivida como um copo de água que se esvazia, mas como um jarro que se renova.

Como poderemos neste Natal falar às crianças naquele Menino que nasceu em paz, se nós não a sentimos! Neste momento vivemos num país que, ontem, já com olheiras, as primeiras rugas, cabelos brancos, agarrando-se ainda aos últimos cacos, conformando-se, foi escondendo das suas crianças muita frustração. Hoje, porém, já bem desperto daquele acordar sobressaltado, entendeu os quesitos a cumprir. As imposições. As regras. Os castigos. Pensões de miséria. Fome. Desemprego. Arrastos pelas noites, pelos invernos, pelas ruas da vida. Caídos de pedestais erguidos. Na maior humilhação. Diria mesmo quase nu integral.

E assim o português mais corajoso de corda na mão, não tendo encontrado ainda uma árvore disponível, alcoolizou-se. Envelheceu. Arteriosclerosou-se. Perdeu os neurónios. Começaram as confusões. E, decrépito, decidiu concordar com tudo. Assinou em cruz.

E agora, pergunto eu, que pode uma criatura nestas condições oferecer aos filhos que o rodeiam? Gritando com fome, gritando que querem o brinquedo que o filho do outro “ raios o partam” tem? Que o Menino Jesus não lhe trará prendas porque uma senhora gorda, má e feia lhe fechou as comportas da vida?

Como diria anteriormente, podem falar de Jesus, mas as palavras não serão entendidas pelas crianças. Podem dizer-lhes que Jesus nasceu numa paz romana controlada pelas legiões de Roma, pelos vigilantes da época. Que lá em Belém, baixo e íngreme, nas colinas rochosas, ao sul de Jerusalém, havia campos verdes e olivais, tais os nossos. Ficava junto ao mar morto. Nós também temos o nosso mar. Vivo. Por enquanto! Em Belém não havia supermercados, lojas de brinquedos, roupas de marca. Diremos que Ele foi feliz. Trabalhou ao lado do pai, sem que este fosse classificado explorador infantil.

Contando estas histórias e outras às crianças, estabelecendo comparações, será que elas compreenderão e acalmarão? Será que vão esquecer a fartura d´outros natais? Será que vão entender o fausto dos ricos lado a lado com a miséria dos pobres? Vão entender que o todo foi-se. Só partes. E que agora não podem chegar a lado nenhum, porque não há. A alegria que havia, voou. Já não tem porto onde ancorar. É o fim do happy  end.

Penso na quantidade de meninos, já adolescentes, que fizeram planos para chegar ao topo do seu mundo imaginário, sem pensarem em forças repressivas, onde não há barreiras. Para esses mais difícil será entender que Portugal não permite. Está fora de prazo. Revoltado. Recebendo ordens de gente implacável, exigente. E que nós outros, vamos obedecendo fielmente ( sim, somos fieis como qualquer rafeiro).

E daí, os meninos tendem a perder os sonhos. Aquele mundo sonhado animalizou-se. Não é um conceito simplista. Só restou a mente de cada qual, barrando caminho às emoções. E, como ela, a mente só procura lógica, vence, porque, lógica é tudo o que a emoção já mais pode dar.

E o Natal chegando… Oxalá os pais consigam, visualizando a hora que se atravessa , passar essa visualização aos filhos. Ensiná-los a encarar o mundo, não como ele é actualmente, mas como pode um dia voltar a ser. Incutir-lhes coragem e força para enfrentar o presente, sem sepultar preconceitos em seus cemitérios mentais.

Vamos pôr de lado o nosso ídolo ego, entrar na realidade do Natal. É hora de sermos mais compreensivos, delicados, generosos. E principalmente educados, porque educação é sinal de vida feliz. Não quantidade de informação acumulada no cérebro. É a que se desenvolve e cultiva na mente.

E o Natal chegando…O Natal do Menino que nada teve, nada exigiu, foi feliz, foi o Maior! A todos um Bom Natal!

 

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO

Por favor escreva o seu comentário!
Por favor coloque o seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!