Escalas de trabalho da paisagem

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O estudo da paisagem pode concretizar-se a diversas escalas de trabalho, desde a escala do jardim e do espaço exterior, até ao ordenamento do território. Esta diversidade de escalas é própria de objetos de estudo complexos como a paisagem, onde se inserem as sociedades humanas e os diversos usos do solo.
Tomando como exemplo a cidade da Horta, esta desenvolveu-se a partir de dois núcleos iniciais nas atuais freguesias da Conceição e das Angústias. O núcleo da Conceição surgiu devido à presença da ribeira com o mesmo nome. A maior disponibilidade de água e a presença de férteis terrenos aluvionares e mais planos ditou a fixação de população neste lugar. Na zona da atual freguesia das Angústias foi a proximidade da baia abrigada de Porto Pim e de posições mais facilmente defensáveis que surgiu como atrativo à constituição de um aglomerado populacional. Anos mais tarde os dois aglomerados vieram a unir-se naquela que atualmente é a freguesia central da cidade, a freguesia da Matriz. Foram, pois, os recursos de água e solo disponíveis, por um lado, e a presença de um porto de abrigo natural e facilmente defensável, por outro, os primeiros fatores para a criação desta cidade. A posição naturalmente abrigada dos ventos e das condições de mar que a própria baía da cidade da Horta possui fizeram o resto na sua afirmação como cidade voltada para o mar e cosmopolita.
Quando olhamos para outras cidades, como Lisboa, Paris ou Londres, por exemplo, é uma vez mais a presença de um rio, com a decorrente disponibilidade de água e de solos aluvionares férteis, conjugada com a possibilidade de defesa e a presença de condições portuárias (que eram essenciais para o comércio) que surgem como fatores para o seu surgimento inicial nestes lugares. Vários séculos se passaram depois da criação dos primeiros assentamentos urbanos que originaram as grandes cidades referidas, mas as questões da conservação da qualidade da água e do solo continuam a ser importantes. O ressurgimento das hortas urbanas, a presença de jardins e parques, essenciais para o bem-estar físico e mental das populações, e a existência de praças de convívio são sinais de desenvolvimento de cidades que se querem afirmar como paradigmas de urbanidade, entendida no seu sentido mais lato. Assim, tanto nos lugares de média como de grande dimensão é necessário que equipas técnicas possam refletir sobre a paisagem, de modo a que as zonas com melhores solos que ainda persistem sejam conservados, a qualidade da água e a diversidade da vegetação e da fauna sejam mantidas.
Quando se trabalha a uma escala de maior pormenor como é um caso de um jardim ou um outro tipo de espaço exterior as questões mais importantes são as mesmas: dentro do projeto é desejável atender à conservação da água e solo; à preservação e potenciação da vegetação e da biodiversidade; à criação de condições de conforto bioclimático e à criação de um ambiente que se pretende que seja esteticamente agradável. O ideal será encontrar um ponto de equilíbrio entre a criatividade alicerçada dos conhecimentos técnicos dos projetistas e as aspirações dos utilizadores dos espaços. Porque há um outro elemento que é fundamental, seja em jardins, praças, cidades de média dimensão ou no território encarado como um todo. E esse elemento são as pessoas. A todas, desejo um Santo e Feliz Natal.

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