Escreve-se para preencher vazios…

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TI

Escreve-se para preencher vazios,

para fazer separações contra a realidade,

contra as circunstâncias.

Mario Vargas Llosa

 

Neste ano de particular quentura chegou o Sol de Março*, um disco de Medeiros/Lucas que encerra a trilogia iniciada com Mar Aberto, álbum dedicado à aventura, sob o signo de Quixote, e continuada em Terra do Corpo, debruçado sobre o que somos, seres sociais lutando para preencher um vazio que paresse impossível de preencher. Segundo o jornal Público, o disco retempera, mas pode queimar, oferece promessa de vida, mas pode ser também causa de febres inesperadas. Vou dizer outra vez, com a devida vénia, que é muito simples: sigamos a luz de Medeiros/Lucas. Um bálsamo para o corpo e a alma.
O projecto é um encontro de gente das ilhas, mas foi com o faialense Pedro Lucas que tudo começou. Nos tempos que passou imigrado em Copenhaga, o apelo das origens levou-o a cruzar a tradição musical açoriana com linguagens musicais modernas, do rock à electrónica, nos Experimentar Na M’Incomoda, que nos deixaram um álbum homónimo (2010) e O Sagrado e o Profano (2012). O baptismo escolhido era homenagem a O Cantar Na M’Incomoda, álbum de 1998 criado sobre recolhas do cancioneiro das ilhas e gravado pelo terceirense Carlos Medeiros, cujo passado incluía grupos açorianos como os Cantinho da Terceira e colaborações com a Brigada Vitor Jara. Entretanto, Lucas aborda Carlos e o Experimentar dá lugar a dois apelidos: Medeiros/Lucas. Mergulhados nas aventuras de um Quixote transportado para alto-mar, cantaram: “Quando eu nasci neste mundo/ tive a sorte desgraçada/ de ir para aquele navio/ sem saber pouco nem nada.” Era o Fado do Marujo, a segunda canção de Mar Aberto (2015). Medeiros/Lucas partiam. Não iam sozinhos, tinham consigo o baterista e percussionista Ian Carlo Mendoza e o baixista e teclista Augusto Macedo. Pouco depois, João Pedro Porto, escritor micaelense que editou o ano passado o seu quarto romance, A Brecha, recebia um email com chamada curiosa: “Músicos procuram escritor”. Terra do Corpo, lançado em 2016 é resultado daquele contacto, são de João Pedro Porto as letras. Com novo tripulante a bordo, a viagem continuava. São música e palavras feitas corpo, um corpo que dança e esbraceja, que se zanga e se enternece, um corpo que nos pertence e a que não conseguiremos fugir. “Uma vontade de furar, de escapar à escuridão”, despede-se.
O Mar Aberto em viníl encontrei na loja do triângulo. E a moçambicana Selma Uamusse no Teatro Faialense, foi do melhor que já vi e ouvi até hoje na Horta. Os teimosos do MUMA… Bem hajam! Ainda a oiço, a Selma Uamusse, a cantar com Medeiros/Lucas:

“Cuidado com o Corpo vazio…
Cuidado com o Corpo vazio…”

Lembra-me Jane Graverol, uma pintora surrealista belga que teve um relacionamento apaixonado com Marcel Mariën, autor da ilustração de hoje, em 1954, simplesmente intitulada “Lettre a Jane Graverol”. Marcel Mariën, também belga, foi escritor surrealista, poeta, ensaísta, editor, fotógrafo, cineasta, criador de colagens e objetos incomuns. E adorava pintar nos corpos de mulheres…

 

*https://medeiroslucas.bandcamp.com/album/sol-de-mar-o

 

“Lettre à Jane Graverol”, 1954. Fotografia de Marcel Mariën.

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