Estamos a ser consumidos pelo consumo?

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A análise do problema dos consumos na sociedade atual, nomeadamente das substâncias psicoativas, não pode ser dissociada dos valores hedonistas da sociedade contemporânea, os quais visam, em última instância, o prazer e a satisfação imediata dos desejos. O consumismo encontra-se vinculado à lógica do capital e às dinâmicas do consumo, influencia o ritmo, a vida e a organização social, económica e afetiva dos indivíduos e das famílias, manipula o desejo e leva a adquirir produtos desnecessários, irrelevantes ou prejudiciais à saúde, sob a ilusão de felicidade e de bem-estar. É muito evidente também que o tipo de consumo que se tem permite criar identificações a um grupo e reforçar papéis e sentimentos de pertença ou afirmar um estatuto social. Nesse sentido, o consumo produz novas sensações, manipula a vontade, modifica o desejo e cria novas necessidades a uma velocidade estonteante. 

Etimologicamente, a palavra consumo vem do latim consumere, que significa “esgotar”, desperdiçar”, “tomar”. Tradicionalmente, os padrões de consumo constituíam um mecanismo de inclusão e ou exclusão do grupo, sobretudo entre os jovens. Atualmente, surgem novos consumos, nomeadamente de substâncias ilícitas, e estilos de vida em que os jovens participam para pertencer a um determinado grupo e construir uma identidade. Muitos desses grupos consomem substâncias psicoativas de forma compulsiva, em espaços de recreação noturna ou à porta da escola, e esse tipo de consumo busca, a maior parte das vezes, compensar a pobreza dos relacionamentos afetivos na família e o preenchimento de um vazio.
O consumo das substâncias psicoativas não pode ser dissociado dos contextos e das interações entre os indivíduos e o ambiente que os rodeia. De acordo com Bandura, um psicólogo humanista do século XX, o comportamento humano apoia-se em três sistemas de regulação. O primeiro é construído pelos acontecimentos externos que afetam e condicionam o comportamento; o segundo sobre as consequências do comportamento e o terceiro é constituído pelos processos cognitivos e os seus efeitos no comportamento futuro. Ora, a tolerância social diante dos consumos e a inexistência de punição, gera cognições de inimputabilidade que vinculam os adolescentes ao consumo de álcool e drogas e reforçam comportamentos de risco, justificados em falsas crenças.
Por fim, há que colocar uma questão: como enfrentar nas escolas a tirania alienante do consumo? Talvez devamos começar pelo reconhecimento de cada pessoa como um ser com direito ao futuro, responsável pelas suas escolhas. Para que isso aconteça, é necessário desenvolver competências de resiliência e assertividade, assim como a consciência dos riscos, para que aprenda a posicionar-se diante dos limites. A reflexão e o questionamento crítico, principalmente pela parte dos mais jovens é fundamental para os colocar a face a si mesmos e aos outros e dá-lhes ferramentas para lidar com o vazio afetivo e a inquietação existencial. Mas há que responsabilizar também as famílias, as instituições e a comunidade em geral. 

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