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Fátima, Francisco e Canonização dos Pastorinhos

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A Igreja católica que está em Portugal vive este ano de dois mil e dezassete sob o signo do primeiro centenário das Aparições em Fátima.
Todos sabemos o contexto histórico de Fátima. Houve rejeição, aceitação e aproveitamento. Fátima dápara tudo. Dá para se viver a fé, para encontrar Deus, para fazer negócio, para conseguir promoção episcopal e presbiteral, para fazer propaganda turística e cultural e, até, fazer caridade.
Fui a Fátima pela primeira vez no ano dois mil, ao encontro de seminaristas que o Santuário promovia para despertar nos futuros padres interesse pela Mensagem de Fátima.
A minha primeira impressão foi má. Chocou-me muito a envolvente ao Santuário. O negócio que ali havia e há, dá uma impressão errada de Fátima. Depois de lá ter voltado muitas vezes, nos últimos anos, uma vez a cada ano, descobri Fátima e consigo abstrair-me de tudo o que está fora dos muros do Santuário.
Fátima é um lugar privilegiado para nos encontrarmos com Deus. É ir a casa de Maria, casa da mãe, para viver em família a oração e a fé.
Para colorir este centenário temos a visita do Papa Francisco e a canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta Marto.
Para podermos viver este jubileu é necessário ter em conta um tripé inspirador. A Mensagem de Fátima, a visita do Papa Francisco e a canonização de dois dos três Pastorinhos.
Fátima tem um papel central na vida da Igreja que está em Portugal. É um centro muito importante de espiritualidade mariana e, ao mesmo tempo, um lugar privilegiado de encontro com o altíssimo. Sinto-o todas as vezes que lá vou.
Fátima não pode ser só um lugar de acolhimento de gente com fé, deve ser o lugar da fé. Para lá dirigem-se muitas pessoas para rezar e contemplar a Imagem da Senhora mais brilhante que o sol. Mas o que trazem de lá?
Reduzir Fátima a pagamento de promessa, belas celebrações e comoventes procissões de velas é sobrevalorizar a sua importância. Fátima deve ser centro de missionação e de evangelização em Portugal. De Fátima deve sair a dinâmica que a Igreja deve viver e que o Papa Francisco inspira.
A vinda do Papa a Fátima é uma ocasião para Portugal tomar contacto em primeira mão com a chamada “revolução de Francisco”. Nesta Igreja de brandos costumes, neste jardim à beira mar plantado, deverá acender-se a chama que, um pouco por todo o lado, vai surgindo.
Francisco não trará novas palavras, mas trará a sua vivência do Evangelho. Vai desafiar, como Maria fez em Caná da Galileia, os peregrinos e o povo português para a originalidade do Evangelho, para que tenham coragem de restituir à Igreja a autenticidade evangélica que lhe foi roubada por séculos.
Acredito que o Papa reforçará Fátima como mensageira da esperança e da paz, génese dum mundo mais feliz e capaz de se identificar com as periferias e os mais abandonados, como lugar donde saem pessoas capazes de olhar o futuro com esperança e alegria como aquelas pessoas que ouviram Maria dizer em Caná “ Fazei tudo o que ele vos disser”.
Creio que Francisco vem confiar a Maria a “revolução” que está a acontecer na Igreja, vem pedir à mãe para mais uma vez dizer ao Filho “Não têm vinho”.
Francisco não trará palavras novas ou ideias novas, trará simplesmente o evangelho, o mesmo que tem levado um pouco por todo o mundo. Em Fátima não se esperam declarações bombásticas ou revelações de mais segredos. É a mensagem de Jesus que Francisco trás.
A novidade de Francisco é o Evangelho, puro e duro como a primeira comunidade viveu e os apóstolos levaram por todo o lado, não como líderes emblemáticos ou políticos, mas como simples peregrinos do Reino de Deus. Esta é a mensagem que Francisco traz a Portugal e a Fátima. Então quais as expetativas? A resposta é clara. As espectativas são a do evangelho, não há outras, só as do evangelho.
Outra boa notícia é a canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta Marto. Para quem tem fé esta canonização é um momento importante. A Igreja reconhece naquelas crianças a capacidade de nos inspirarem a encontrar Deus, vê neles um exemplo a apresentar à Igreja universal para que inspire outras crianças e até adultos a buscar a santidade.
Pode parecer pouco para a sua canonização o facto de serem videntes. Ser vidente é o que menos importa neste processo, o importante é a sua capacidade de viver Deus e assumir a santidade.
Ser santo devia ser a ambição de qualquer crente. Esta procura esteve sempre presente na vida destas crianças. A simplicidade das suas ações é cativante. Não fizeram coisas grandes mas alcançaram a grandeza na sua pequenez.
O Evangelho diz-nos que se não formos como crianças, não herdaremos o Reino dos Céus. Ser como crianças não é ser infantil como muitos cristãos que se contentam em cumprir preceitos ao Domingo, é manter aquela fé pueril da catequese de hà muitos anos atrás.
Infantil é infelizmente a qualidade da fé de muitos de nós que contrasta com a maturidade daquelas crianças. A canonização dos pastorinhos de Fátima é também um apelo às famílias a reverem a forma com manifestam o amor pelos seus filhos e a forma como os educam na fé.
Há cada vez menos preocupação em manifestar a santidade aos filhos. Não é educação na fé deixar as crianças à porta das Igrejas e ir à vidinha. O que se passa na educação cristã dos baptizados é uma desresponsabilização das promessas do baptismo. Não me admira que haja muitos jovens a abandonar a Igreja. Os que saem são aqueles que não tiveram contacto com Jesus, não lhes foi possibilitado conhecer bem os caminhos de Jesus.
Não o conheceram, por isso não o podem aceitar na Sua vida. Comparem a vivência dos pastorinhos e as vivências da maior parte das nossas crianças e tirem as vossas conclusões. Quem não recebe, não pode viver.
O centenário de Fátima acontece num tempo histórico muito delicado. Guerras e mais guerras, atropelos aos direitos humanos, crise económica e financeira, decadência dos valores fundamentais, perda do sentido de Deus, decadência do sentido da vida humana e muito mais que as páginas deste jornal não seriam suficientes para escrever.
A atualização da mensagem de Fátima passa por uma resposta a todas estas questões.
É difícil fazer passar a mensagem do Evangelho neste contexto de indiferença e intolerância com o sagrado. Estamos excessivamente presos ao imanente e ao hoje dos acontecimentos, que perdemos a capacidade de ver para além daquilo que os nossos olhos alcançam. Perdemos a capacidade de sonhar, perdemos a capacidade de ver mais além. Estamos excessivamente presos ao que temos, por isso não aceitamos o que nos é prometido.
Estou convencido que o Papa Francisco é um profeta entre nós, Deus visitou o seu povo e caminha com ele. O seu povo mais uma vez prefere as trevas. “Veio para os que eram seus e os seus não o receberam” como se lê na Sagrada Escritura.
A vinda do Papa a Fátima mais que ajudar ao mediatismo do Santuário como destino de fé e turístico, vem chamar a tenção para o essencial da fé, vem ajudar o povo luso a deixar as poeiras do passado para fazerem a purificação evangélica que urge ser feita.
Quando o avião voltar a Roma as coisas vão ficar na mesma. A festa foi linda, o papa é muito bom, as coisas correram bem, os senhores bispos ficaram contentes porque o papa esteve em Portugal, o Primeiro-ministro e o Presidente da República estão satisfeitos com mais um aperto de mão, o Vaticano reclamará sucesso de mais uma viagem e todos ficaremos contentes com a mega festança. Até as televisões vão ter mais audiência.
A grande mudança que deverá acontecer não está na visita do papa, ele vem confirmar-nos na fé cumprindo o mandato que Jesus confiou a Pedro “ apascenta as minhas ovelhas” , mas as ovelhas tem que ouvir o seu pastor e isto parece que elas não estão disposta a fazer. Já vão três anos que Francisco mudou a forma de Pedro apascentar as suas ovelhas e as ovelhas continuam, a trilhar o mesmo caminho.
Há esperança no meio disto tudo porque a esperança é Jesus e ele está vivo e está no meio de nós, o Papa Francisco sabe disto e por isso as suas atitudes, as suas palavras, as suas denúncias e até os seus afetos, abraços e beijos.
Fátima e Francisco identificam-se porque os dois só têm uma preocupação: avivar nas ovelhas o evangelho, colocar nos corações Jesus, chamar a humanidade a felicidade, à justiça, ao amor, à misericórdia, ao perdão, à solidariedade, à santidade, à verdade, à liberdade.
Fátima e Francisco unem-se por um coração amoroso que olha as pessoas e lhes apresenta gestos e palavras de amor eterno.g

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