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Recordando os dias dramáticos de Maio de 1958

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Na manhã de 13 de Maio de 1958, uma atmosfera de angústia e dor pairava por toda a ilha. O Faial fora intensamente sacudido por violenta crise sísmica que, tendo começado pelas 18 horas do dia anterior, durara toda a noite, havendo-se registado cerca de 450 abalos, chegando alguns deles a ocorrerem com intervalos de apenas meio minuto. Foram horas de muito sobressalto que, para quem as viveu, nunca mais se conseguem esquecer. Esta grande crise sísmica de Maio, que imprimiu profundas alterações à erupção vulcânica dos Capelinhos que começara a 27 de Setembro de 1957, constituiu, conjuntamente com os terramotos de 31 de Agosto de 1926 e de 9 de Julho de 1998 as três maiores catástrofes que assolaram a terra faialense no passado século XX.
Em Maio de 1958, os abalos começaram a sentir-se em toda a ilha na tarde do dia 12 e foram aumentando de frequência e intensidade, tendo-se prolongado durante toda a noite e manhã do dia 13.
A população aflita e preocupada abandonou as suas casas e procurou jardins, ruas e praças como locais de refúgio.
Na cidade da Horta, onde me encontrava, eram sobretudo as praças da República e do Infante e toda a zona até ao cais de Santa Cruz as áreas de maior concentração de pessoas. O tremor da terra era quase constante e à medida que a situação se tornava mais crítica, as autoridades tomavam medidas de emergência, com vista a providenciar os primeiros socorros. Bombeiros, Polícia, forças militarizadas e autoridades civis foram colocados em alerta; algumas embarcações largaram do porto da Horta transportando pessoas para o Pico; os doentes do Hospital Walter Bensaúde foram colocados no Jardim Público e na sede da filarmónica Artista. Das freguesias rurais começaram a chegar notícias dramáticas, principalmente as relacionadas com as povoações do lado norte da Ilha. Em reuniões de emergência, promovidas e lideradas pelo governador civil Dr. Freitas Pimentel, foram organizadas brigadas de socorro, algumas delas enviadas para as zonas mais atingidas. Após o director de Obras Públicas, Eng.º Frederico Machado – competente geólogo e estudioso do Vulcão dos Capelinhos – haver informado o Chefe do Distrito que o epicentro dos sismos se localizava na zona do Cabeço do Fogo e que as populações de Praia do Norte e Capelo corriam perigo sério se nelas permanecessem, o Dr. Freitas Pimentel ordenou a retirada de todos os habitantes, pedindo-lhes que seguissem a pé até ao encontro das viaturas que os iriam auxiliar nessa evacuação. A terra continuava a tremer e o êxodo das pessoas lá se fez, entre lágrimas e aflições, dificultado por nevoeiro denso e chuva impertinente. Como apropriadamente escreveu um jornalista, “foi bem uma marcha sinistra, mas foi a marcha da salvação das suas vidas; uma hora depois todas as habitações desmantelavam-se num ápice.” 1 A Praia do Norte ficou totalmente arrasada, o mesmo acontecendo a muitos edifícios de Ribeira do Cabo, Capelo, Ribeira Funda Espalhafatos. Números avançados nos jornais da época, dizem-nos que o total de casas desmoronadas ou muito arruinadas era de cerca de 500. Também, em vários locais, as estradas apresentavam fendas, tendo ficado danificadas algumas pontes. As brigadas de socorro, que incluíam bombeiros, agentes policiais, trabalhadores de serviços e voluntários, foram inexcedíveis, não só no auxílio prestado às populações evacuadas, mas ainda nos trabalhos de desobstrução das vias e demolição de ruínas que ofereciam perigo. Durante todo o dia as camionetas de passageiros e de carga – que à época eram poucas – foram utilizadas no transporte de mobílias e de pessoas, as quais eram levadas para instalações provisórias, normalmente barracas de campanha, que se concentravam em Cedros (Praça e Cascalho), Castelo Branco e Feteira. Eram verdadeiros acampamentos, a que faltava quase tudo, menos a solidariedade das populações das freguesias de acolhimento que, aos poucos, lá conseguiram disponibilizar aos sinistrados, partes de suas casas, lojas e atafonas onde eles passaram a viver. Alguns assim viveram, até ao dia em que conseguiram a “carta de chamada” que os levaria para os Estados Unidos.
Naqueles dias de Maio de 1958, cerca de duas mil pessoas terão procurado refúgio na ilha do Pico; as educandas do Colégio de Santo António foram, com as respectivas professoras, para São Jorge; as crianças da Creche seguiram para as Lajes do Pico; todas as traineiras que estacionavam na Horta e que andavam na faina da pesca, regressaram ao nosso porto por ordem da autoridade marítima e abasteceram de combustível, preparando-se, assim, para qualquer emergência; um patrulha da Armada Nacional veio estacionar para a Horta e trouxe de Ponta Delgada 3.500 barracas de campanha e centenas de cobertores; o ministro das Obras Públicas, Eng.º Arantes e Oliveira, deslocou-se de imediato ao Faial e, segundo a imprensa, inteirou-se da extensão da catástrofe e tomou importantes medidas para a reconstituição económica e habitacional das zonas sinistradas da ilha.
Entretanto, o vulcão dos Capelinhos não diminuía de intensidade, mas apresentava, a partir destes abalos do mês de Maio, profundas modificações. A sua actividade passou ao tipo estromboliano, com fortes ruídos, que se ouviam em toda a ilha e grande expulsão de lava incandescente que ia a mais de 500 metros de altura, tendo, entretanto, diminuído a emissão de cinzas e escórias. Aqueles tempos de tragédia e dor ficaram bem vincados nas nossas memórias e constituem, hoje, uma página indelével da história faialense.

1 “O Telégrafo”, 1958, Maio 15, (17.541), p.4
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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