O Botequim

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Na minha infância, a grande superfície comercial que eu conhecia era o botequim do sr João Soares, marido da minha professora primária, a senhora D. Ana. Ficava mesmo na frente da residência deles, cujo térreo era uma taberna, habitualmente frequentada por indivíduos sequiosos lá da terra e onde crianças não entravam.

O senhor João Soares era um ídolo meu. Achava-o o máximo. Era alto, forte, mãos enormes, olhar brilhante de bondade. Tinha sempre uma anedota para contar, um carinho para as crianças. Para com a senhora D. Ana, ele, embora sem ser propositadamente, demonstrava um querer desmesurado. Ele era aquilo que hoje  eu  chamaria uma pessoa com conteúdo.

O botequim tinha muitas portas que, na época eu achava enormes, mas hoje (ele ainda lá está) diminuíram muito. Aliás, aquele botequim que aos olhos da menina que eu era então, minguou bastante. E hoje, olhando-o, sinto saudades daquele empório que continha um mundo de coisas atraentes.

Ali, na penumbra do botequim, havia tudo que o povo do lugar necessitava, espreitando das prateleiras meio empoeiradas, mas isso não interessa nada. Por que interessaria se, no meio de tudo havia coisas que, aos olhos de nós, crianças, formavam  um mundo de maravilhas?

Havia lápis de cores, borrachas, caderninhos de papel almaço, com linhas, quadriculados, sebentas, ardósias, caixinhas azuis de pó d´arroz, chocolates com creme e um bonequinho no envólucro de prata, eu sei lá… 

O sr. João Soares, atrás do balcão de madeira atendia os fregueses com delicadeza, contando histórias, embrulhando açúcar, farinha e tudo o mais em folhas de papel pardo. Na época não havia nada já embalado, muito menos existia um simples plástico. A  mercadoria como o açúcar, a farinha, estava em grandes sacos de serapilheira lá no chão.

O edifício, o tal empório, lá continua. Nem sei para que é utilizado hoje. Quando lá passo, olho-o mas ele não corresponde àquela velha foto em sépia, jogada num álbum amarelecido  pelo tempo.

E é bom, como é bom, meu Deus, de vez em quando recuperar o fio da meada, mergulhar de novo na penumbra da memória, relembrar o passado, o fascínio que sempre tive por aquele espaço, pelo sr João Soares, esquecendo o dia ensolarado ou chuvoso que poderá explodir lá fora. 

Em terras estrangeiras eu procuro visitar aquelas lojinhas pequenas, quais botequins, que encontro pelo caminho. Aí, tenho o condão de entediar as pessoas que me acompanham, que me fazem advertências, apavoradas por perderem tempo, enquanto eu procuro coisas estranhas, mesmo inúteis. Mas como explicar-lhes que na verdade estou procurando somente uma nesga da vida que escapou, o calendário, a caixinha de música, o chá de frutos dos bosques, a sacola bordada, o rótulo do chocolate, ninharias. Naquele momento não sou eu carregando anos. Sou a criança d´ontem olhando o botequim.

Imagino que é difícil entender, mas também não sei explicar. Sei  que é difícil para mim fugir da melancolia, quando não tenho tempo para carregar o que queria. E então fico na redoma, pensando no empório de então, na pintura da vida que não há mais.

A minha professora e o marido, amigos dos meus pais, fins de semana, escola e empório fechados, confraternizavam nas casas duns e doutros, nas quintas, nas adegas e até pelas tardes escaldantes de verão, pulando rochas e rochas para pescar. Eu morria de medo, embora sempre fosse carregada pelo Pai ou pelo sr. João.

O sr. João Soares nunca perdia as estribeiras. Nunca o vi mal disposto. Recordo um dia à saída da escola, chovia muito e ele apareceu com um chapéu de chuva para a sra. D. Ana. Eu estava ali à porta com ela, quando de repente o sr. João Soares diz : Aninhas, já está esteio. Ela olhou-o com os olhos arregalados, ar de reprimenda. Ele emendou: está estio. E ela: João… Ele não se atrapalhou, atirando: Aninhas, vamos embora que já não chove.

Certo dia na escola apanhei uma reguada. Não era hábito. Talvez a amizade com a Mãe não o permitiam, mas naquele dia à conta dum problema, ninguém acertou e zás. Foi tudo de seguida. O pior é que eu, nem lembro como, escapei e fugi para casa. A Mãe ouviu a história e mandou-me imediatamente para a escola. Lá fui chorando e de caminho entrei no botequim fazendo queixinhas ao sr João Soares. Ele acalmou-me, fez-me uma gemada com cacau (imaginem) e acompanhou-me à escola informando que eu estava com dor de cabeça.

E depois veio o dia que não houve aulas. E outro e muitos. O botequim fechou. A Mãe informou que eles tinham ido a S.Miguel, consultar médico. E eu pensei: por que não foram à consulta do Dr. Eduardo?

Naquela noite chorei muito, porque sempre pensei na morte. O meu pessimismo lactente. Desisti nessa noite do sono, porque ele, o sono, não quis ficar comigo. Recordo que no dia seguinte, todos rezámos pela saúde do nosso amigo. E os pais animaram-me dizendo que ele voltaria curado.

E voltaram. Fomos visitá-los. Ele parecia outra pessoa. Vinha muito magro e estava mais crescido. Já não ria. Falou coisas estranhas, que não entendi, mas a percepção  que a doença era grande, era. Sentei-me encostada a ele, e senti duas lágrimas muito quentes caindo sobre os meus braços.

Arrisquei um olhar para a sra. D. Ana e ela, lá estava olhando para ele com um brilho d´água ao canto do olho. Eu era muito criança para entender com quanta força ela se estava agarrando nos galhos daquele sarilho, sonhando com um milagre.

Ele faleceu rápido. Não me deixaram ir ao funeral. Mas um dia à socapa peguei na caixinha de bombons já vazia, que ele me trouxera de S. Miguel, dentro um bilhetinho dizendo que gostava muito dele e fui ao cemitério colocar lá na sepultura. Acho que ele gostou! 

 

 

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