Fazer o quê?

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Só devíamos fazer o que sabemos que fazemos bem. Quem me conhece não me imagina de saltos altos a passar modelos e no entanto, dada a ausência de celulite, rugas e afins, podia ter sido por uma vez manequim (isto é que é modéstia). Também não poderia cantar, a não ser, disfarçadamente, em playback, no meio de uma floresta de pessoas, bem lá atrás. Não obstante, por razões profissionais, já me expus algumas vezes, pedagogicamente, sendo que “esse número” não foi gravado e portanto estou salva para a posteridade.

Se eu sei de tantas coisas que não poderia fazer, não devo e nunca farei, porque raio existe tanta gente que não se toca? Para ser “light”, cantar, ser ator e/ou atriz. Bom pelo menos estas pessoas são audazes e fazem uma coisa bem feita: Chamar a atenção. Estes atos aos meus olhos, falhados, (não sou júri de coisa nenhuma), podem fazer mossa no padrão de qualidade, mas são do foro do entretenimento.

A este propósito pasmo com uma certa linha editorial que impera num programa que eu não perco. Pergunto-me o que é que a voz tem a ver com a desgraça? É que se nota mesmo o esforço para igualar a inigualável arte Americana para a exploração da ” Coitadice” emocional, que ajudada pela voz, faz com que o “desgraçado/a” renasça das cinzas, qual Fénix.

Fénix! Mas isso é um parâmetro de avaliação? Não. É um indutor de audiência. E se um tipo “estropiado” não tiver desgraças para contar? E se um tipo lindo não cantar ” quase” nada (aos meus ouvidos, claro está), mas for provido de uma confiança inabalável? Estamos no mundo da cola virtual, para que ninguém saia dos seus lugares, mesmo que a pausa dê para fazer comida para a semana toda.

O Estropiado se calhar vai ter uma carreira séria, mas, claramente o lindo vai ter uma carreira. É uma questão de medida, ou de imagem desmedida. O Estropiado é uma espécie de cantor paralímpico, logo terá menos tempo de antena, se bem que verdade seja dita, a Televisão Pública fez um trabalho excelente nesta área, por muito que alguém tenha (não consegui saber se foi boato ou afirmação assumida) classificado os Jogos Paralímpicos como um acontecimento grotesco, um número de circo.

Se foi boato, é tão ou mais deficiente emocional quem o promulgou. Se foi verdade, espera-se que a esta pessoa nada de mal lhe aconteça.

Estamos a falar de entretenimento, de desporto e nos dois casos de superação, que deveria ser uma coisa absolutamente natural. Naturalmente há outro tipo de carreiras e profissões, pejadinhas de quem sabe que não sabe fazer, mas vai fazendo, sem que ninguém faça nada. Perdão, alguém criou a lei e o livro de reclamações, e só não escreve quem não quer.

O meu problema com a incompetência tem tanto de raiva como de regozijo, sempre que vejo e elogio, sem problema algum, o que é bem feito.

Só devíamos fazer o que sabemos que fazemos bem, por pouco que seja. Por isso é que não arrisco mais que o espaço deste espaço. Armar-me aos cucos não está na minha natureza. Fazer o quê?

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