O comodismo explicado

0
10

Sempre fui entusiasta e impaciente, como quem quer acabar a tarefa antes do tiro de partida. Não sei se é defeito ou feitio, mas se é para fazer então que se faça. É como passar a vida de mangas arregaçadas, mesmo que esteja frio. O movimento aquece mas o trabalho não deve ser só para aquecer, por menos interessante que seja.
Convém é tomar nota do que se vai fazendo, para não entrar em estado “Call Center” ou “Contact Center” ou lá que nome “fashion” se dá agora. Telefonam-nos uma vez e dizemos que não estamos interessados. Telefonam segunda vez e dizemos que já dissemos que não estamos interessados, até que à terceira vez, quem liga leva por tabela, por todas as outras, pelo sistema e pela simples necessidade de cada um ter um número para cumprir. Claro que estão a fazer o seu traba-lho, mas um resultado não é só um número. É o que se pode fazer com e a partir dele.
Com a simpatia que no momento tiver à mão comunico que não estou interessada. Evito a ladaí-nha e contribuo para que quem liga ganhe tempo para telefonar a outro (que não eu).
Para quem faz o seu trabalho, invariavelmente temporário nesta área, os números contam porque no fundo alguém acha que traduzem eficácia. É uma espécie de Atletismo laboral, onde temos recordes para bater. Há que ser bom para se manter no ranking dos “indescartáveis”, como disse antes, pelo menos temporariamente.
Por outro lado, fazer depressa também é a estratégia para um comodista como eu. Que faz, que sabe porque fez e o explica, assim de um fôlego só. Não voltar a fazer o que se fez tem duas vantagens: Reforça o rating de produtividade e aproxima-nos doutra modalidade, essa sim, maravilhosa que é o “Atira-te para o sofá”.
Sabe tão bem sobretudo quando é realmente merecido. Não fazer nada é a meta final. Para isso temos de fazer tudo, sempre com as paragens para abastecimento. Eu trabalho porque tem de ser. Porque fazer o que se gosta, como diz um amigo meu, é estar de férias em permanência. Esta imagem é exagerada e às vezes até me parece uma verbalização de autoconvencimento, mas entendo-a porque é como me sinto cada vez que vos escrevo.
O comodismo é filho da organização, uma quase bênção, porque temos de fazer por ele. É manter as mangas arregaçadas, dar corda à cabeça, concentrar-se, e no fim saber que a queda macia no sofá é fruto de uma missão bem cumprida, que acrescentou valor, muito além de um pacote de horas que garante o nosso montante e um recorde de tarefas só porque sim.
O comodismo não é ócio, varrer para debaixo do tapete, ou pura e simplesmente saltar etapas. O comodismo é um prémio, um estado, um conjunto de processos que cada um inventa, pratica e gere para não fazer mais do que é preciso. Isso também não significa que se faça de menos.
É fazer tudo para depois não fazer nada e fazer nada é fazer tudo o que nos apetece num horário que só a nós diz respeito, como ficar somente no sofá, de “device” em punho para vos explicar o que é verdadeiramente o comodismo. Pelo menos para mim.

NOTA DA REDAÇÃO:
No último artigo desta nossa colaboradora, o título saíu truncado. Devia ler-se “Autoclismo novo, vida nova” e a palavra “nova” ficou suprimida. Pelo sucedido pedimos desculpa à colaboradora e aos nossos leitores.

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO