Festival de Música dos Açores 2019

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Por: Diana Ferreira

O Festival de Música dos Açores apresenta a música barroca de Bach, Biber, e outros, e a música clássica contemporânea dos compositores Alban Berg, Anton Von Webern, Barry Guy, John Blum, Georg Friedrick Haas, Beat Furrer.
O concerto na Horta na sexta-feira, dia 25 de Outubro, às 21H30, no Teatro Faialense, com CANTANDO ADMONT e ars ad hoc. Quarteto de voz e quartero de cordas e clarinete.
O programa consiste, de certo modo, na combinação de vilancetes com a música de Beat Furrer num mesmo programa, completa-se um ciclo prenunciado, por um mero acaso, em 2016.

Quando Beat Furrer concluiu o seu quinteto com clarinete, Cordula Bürgi explorava partituras do século XVI, entre as quais a villanella “intorno al bianco”, do compositor italiano Pietro Antonio Bianchi (ca 1540-1611), que havia vivido em Graz no final do cinquecento.
Ainda que a composição do seu quinteto com clarinete não tivesse com aquela vilanella qualquer relação, Beat Furrer apropriou-se do título que captou a sua atenção, vendo nele uma boa alusão à sua obra, metaforicamente voltada para a luz e respectiva transformação.
A combinação do clarinete com quarteto de cordas fora anteriormente abordada por compositores como Mozart e Brahms. Com Intorno al bianco, Beat Furrer procurou explorar novas possibilidades com a mesma formação.
Aqui o Tempo é esticado ao extremo, formando lentamente novas constelações harmónicas. Vários modelos de movimento, vibrato, ornamentações, pulsações regulares e irregulares emergem de padrões de interferência de glissandos lentos e de movimento constante.
No início, o clarinete preenche longas notas, enquanto o quarteto de cordas se enche de movimento. Nos primeiros quinze minutos há uma transformação muito lenta; o som do clarinete é como um espectro das mudanças do clarinete, enquanto o quarteto é um espectro do clarinete.
Completamente integrado no som das cordas, o clarinete liberta-se delas gradualmente, num acelerando constante, tornando-se cada vez mais um contraponto ao quarteto. A continuidade desta lenta transformação acaba por mudar. Nesta compressão do tempo, pela dissociação do som, emerge uma série de figurações de género verbal. Os sons quebram-se nas suas componentes individuais.
A estreia em território nacional do quinteto intorno al bianco teve lugar nos 2os Reencontros de Música Contemporânea (Aveiro, Março de 2019), pelo agrupamento ars ad hoc, o qual teve a oportunidade de preparar a obra em duas sessões de trabalho com o próprio compositor.
Foi por altura dessa estreia que Cordula Bürgi tomou contacto com o ars ad hoc, nascendo, então, a vontade de trabalhar conjuntamente na interpretação de novo repertório.
Sei Venuta di Marzo [2003] é a obra que proporciona o encontro desse agrupamento de instrumental português (surgido em 2018, no seio da Arte no Tempo) com o agrupamento vocal austríaco Cantando Admont, fundado e dirigido por Cordula Bürgi.
Talvez não por acaso, Sei Venuta di Marzo é mais um título italiano, também título do poema de Cesare Pavese (1908-1950) a que Beat Furrer recorreu, usando de grande liberdade na sua desconstrução e aplicação no octeto que compôs em 2003, para quarteto vocal e quarteto de cordas. Estreada em Estugarda em Setembro do seu ano de composição, a obra chega agora pela primeira vez a Portugal, no Festival de Música dos Açores, criando a oportunidade para a interpretação conjunta de repertório ibérico, preparado numa residência artística dos dois agrupamentos no arquipélago.
Precisamente porque o trabalho conjunto para a interpretação de uma obra com as características de Sei Venuta di Marzo requer algum tempo, nos três primeiros concertos escutar-se-á em sua vez o Quarteto op. 18 nº 6 de Beethoven.
Tal como Beat Furrer, também Ludwig van Beethoven (1770 – 1827) trocou a sua terra natal por Viena, onde se afirmou inequivocamente como compositor. Foi já lá que compôs a primeira série de quartetos de cordas, os seis quartetos op. 18 (conhecidos como quartetos “Lobkowitz”), entre 1798 e 1800. Há evidências de que o nº 6 tenha sido, na verdade, o penúltimo dos seis quartetos op. 18 a ser composto.
Cantando Admont é um agrupamento vocal austríaco que reúne personalidades vocais distintas, beneficiando das suas singularidades num único e expressivo corpo sonoro. Numa permanente busca de música extraordinária, muitas vezes para lá do que é mais comum ou “mainstream”, o agrupamento Cantando Admont dedica-se à síntese entre a Música Antiga e a Nova Música Vocal, descobrindo o Novo no Antigo e experimentando o Antigo num contexto actual.
Surgido em 2018, no seio da Arte no Tempo, e formado por músicos ainda jovens que, na sua maioria, depois de se terem notabilizado em Portugal, complementaram os seus estudos no estrangeiro, o ars ad hoc cumpre o sonho já antigo de criar um novo espaço para a interpretação e divulgação da grande música de câmara, com elevados padrões de exigência e um forte compromisso com a música do nosso tempo.
Na sua primeira temporada, o ars ad hoc pôs em confronto a música de dois grandes vultos do século XIX– Franz Schubert (1797-1828) e Johannes Brahms (1833-1897) – com o trabalho de um dos mais interessantes criadores do nosso tempo, o compositor suíço-austríaco Beat Furrer (Schaffhausen, 1954), que, em Março de 2019, esteve presente na segunda edição dos Reencontros de Música Contemporânea, onde supervisionou a preparação da estreia nacional do seu quinteto com clarinete intorno al bianco [2016], pelo ars ad hoc, e dirigiu a Orquestra Metropolitana de Lisboa na interpretação da sua obra para orquestra nero su nero [2018] (também em estreia nacional).
Na temporada de 2019/20, o ars ad hoc dará particular atenção à música de Ludwig van Beethoven (1770-1827) e de Luís Antunes Pena (1973), havendo ainda espaço para revisitar obras de Beat Furrer e para a interpretação de música tão extraordinária como a obra Talea [1982], de Gerard Grisey (1946-1998). Além da “temporada regular”, com os seus três programas, e da sua participação no Festival de Música dos Açores, o agrupamento marcará presença em alguns outros festivais (Viseu, Lisboa, Aveiro) e estreará obras encomendadas a compositores portugueses e estrangeiros, tendo previstas actuações em diferentes países da Europa em 2020/21.

Diana Ferreira

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