FLORENTINO QUE SE DISTINGUIU – SÍNTESE HISTÓRICA DO PADRE JOSÉ ANTÓNIO CAMÕES (II) (1777-1827) – Sacerdote perseguido, poeta e professor de elevado mérito

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(Continuação)

Do já referido escritor faialense, Ernesto Rebello, podemos ver ainda algumas referências ao Padre Camões no seu trabalho intitulado “Uma Noite de Reis na Freguesia da Fajãzinha (Ilha das Flores)”, quando descreve um interessante diálogo entre os músicos da filarmónica de Santa Cruz e o dono da casa onde os mesmos se instalaram nessa noite de 1878 (6). Nesse diálogo, para além de ser evidenciada a elevada cultura do Padre Camões, salientou-se o estado de pobreza em que o mesmo faleceu. Refira-se, a propósito, que essa filarmónica, que ia abrilhantar a festa de Reis da Fajã Grande, ficara retida na Fajãzinha em face das fortes enxurradas de água das chuvas na Ribeira Grande.

Parte da versão de Ernesto Rebello coincide com a de Pedro da Silveira (1922-2003) e de Jacob Tomaz (1922-1999), mas, para este, o Padre Camões não terá sido o autor do “Testamento de D. Burro, pai dos asnos”. Fundamenta as suas razões no facto de considerar que o autor desse trabalho tinha de ser um profundo conhecedor da vida privada das pessoas de Lajes das Flores, facto que considerava não poder acontecer com o Padre Camões, que sempre vivera nas Fajãs, Ponta Delgada e Santa Cruz (7). Considera ainda que essa sátira terá sido escrita depois do seu julgamento, bem como “Os Pecados Mortais”, opinião esta que também é perfilhada por Reis Leite. 

Porém, não são essas as opiniões dos restantes investigadores históricos que referimos, incluindo Pedro da Silveira, em alguns dos seus textos. Todavia, apesar da opinião de Jacob Tomaz poder ser contestada, este estudou profunda e apaixonadamente a vida do Padre Camões quando, em 1970, com Pedro da Silveira, comentou e publicou os “Anais do Município das Lajes das Flores”. Aí Jacob Tomaz atreve-se a pôr em causa a ligeireza com que Ferreira Drumond escreveu sobre o Padre Camões. E afirma ainda que “essa sátira não é ‘um volumoso livro de insultos’ nem é um ‘libelo infamatório’. Tem engenho, tem graça e atinge mesmo alguma beleza”. 

Contudo, Reis Leite escreve que o Padre Camões chega a confessar-se autor do “Testamento” à Capitania Geral dos Açores, quando pretendeu obter, pela segunda vez, o cargo de professor régio da cadeira de Gramática Latina de Santa Cruz das Flores. Será que Jacob Tomaz ignorou o poema do Padre Camões que Drumond publicou no Vol. III, pág. 256, dos “Anais da Ilha Terceira”, transcrito por nós em “Poemas Dispersos” na organização das suas “OBRAS”, p. 161? Aí o poeta refere que se tratou de “Uma simples, inocente alegoria”.

FAJÃ GRANDE Foi nesta freguesia, na foto, que o Padre Camões, quando criança, viveu, trabalhou e estudou as primeiras letras à luz da candeia, cuidando das vacas de um abastado lavrador. Foto do Padre José Alves Trigueiro. 

O pequeno livro o “Testamento de D. Burro, pai dos asnos”, depois de ter circulado nos Açores, nomeadamente na ilha das Flores, como manuscrito, terá sido publicado pela primeira vez em Boston, nos Estados Unidos, em 1865. Aí apareceu com alguns erros literários pouco comuns nos escritos do Padre Camões, como refere Pedro da Silveira. Em 1983, com nota introdutória de André Fernandes, essa brochura foi reeditada em Lisboa pela editora “& etc”, com produção da “Publicações Culturais Engrenagens Ld.ª”.

Voltando à vida de José, sabe-se que em 1796 “dava normas e borrões para processos na ilha”, fazendo certamente aquilo que ainda hoje ali fazem algumas das pessoas mais letradas. Refiro-me nomeadamente a requerimentos, relações de bens, preenchimento de impressos e cartas, trabalhos estes que Ângelo de Freitas Henriques, no século XX, quase toda a sua vida fez em Lajes das Flores gratuitamente. 

Essa actividade conduzi-lo-ia ao trabalho de solicitador, exercido a partir de 1797 conjuntamente com o cargo de professor particular, uma vez que “foi assessor de dois juizes pela lei e advogado na ilha das Flores”.

Mas a sua forte vocação religiosa levou-o a habilitar-se para receber as Ordens Menores Sacras, conforme despacho diocesano proferido em 1 de Setembro de 1800. Segundo Ernesto Rebello, seguira para Angra com o seu companheiro e colega de curso, Manuel Fernandes de Barcelos, cuja família o recebera na sua casa, na freguesia de Ponta Delgada, depois de ter deixado a Fajã Grande, como atrás referimos.

Todavia, atentas as dificuldades na organização processual, que no tempo exigia certo valor patrimonial para aquela habilitação eclesiástica, apenas viria a obter a ordenação sacerdotal em 20 de Outubro de 1804. 

Assim, como nada tinha de seu, contou com as doações que lhe fizeram o seu antigo tutor João António de Freitas Henriques (que atrás mencionámos) e sua mulher (em 11-9-1802), bem como Maria da Trindade (em 13-9-1802), e Isabel Maria ( em 9-11-1802), todos residentes nas Fajãs.

Mas o seu desejo e a vocação de se manter ligado ao ensino leva-o a requerer e a prestar provas necessárias para esse efeito à Capitania-Geral dos Açores. Deste modo, em Dezembro do ano de 1804, recebeu Provisão do Capitão-General, conde de São Lourenço, nomeando-o professor régio de Gramática Latina na vila de Santa Cruz das Flores. Nesse ano recebe também da Diocese de Angra as credenciais de pregador e de confessor geral.

Opta então pelo ensino, pelo que em 3 de Abril de 1805 regista, na Câmara de Santa Cruz, aquela Provisão e começa a exercer o cargo de professor régio, missão que desempenha com prestígio, com projecção nas ilhas das Flores e do Corvo, mas que se estende à ilha do Faial, recebendo dela estudantes. A sua fama, como professor de Latim, chega longe. 

Essa carreira de professor viria a ser interrompida em 27 de Julho de 1807, ao receber do Bispo de Angra, D. José Pegado de Azevedo, com quem mantinha boas relações, nomeação como vigário da paróquia de S. Pedro de Ponta Delgada das Flores, cargo que aceitou. 

Todavia, viria a continuar com o ensino particular, sabendo-se que, mesmo na isolada freguesia de Ponta Delgada, recebia estudantes das ilhas das Flores, do Corvo e do Faial, que ali se fixavam provisoriamente para o efeito.

Em 1808, é nomeado procurador da Mitra, nas Flores.

Assim, em 1810 é eleito Ouvidor Eclesiástico das ilhas das Flores e do Corvo, e, em 10 de Agosto e em 7 de Setembro desse ano, escreve ofícios ao Bispo D. José Pegado de Azevedo, que muito o agradam. 

Face ao prestígio de que gozava, é nomeado, em 1812, por ordem especial do referido Bispo, examinador dos eclesiásticos das ilhas das Flores e do Corvo.

                                                                                                                                                                            (Continua)

BIBL: “O Padre José António Camões uma Tentativa de Bibliografia – Separata do Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira”, Vol. XLV, 1987, de José Guilherme Reis Leite; “Anais do Município das Lajes das Flores”, 1970, de João Augusto da Silveira; “Arquivo dos Açores – O Padre Camões” Vol. VIII; “Anais da Ilha Terceira”, 1859, Vol. III, p. 254 a 257, de Francisco Ferreira Drumond; Jornal “Correio da Horta”, de 8-5-1984; Jornal “O Monchique”, de 30-4-2002; Jornal “As Flores” de 13-10-1994 a 29-7-2000; “OBRAS – Memórias da Ilha das Flores, Testamento de D. Burro Pai dos Asnos, Os Pecados Mortais e Poemas Dispersos”, 2006, pp. 21 a 35, do Padre José António Camões, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores. 

(6). “Arquivo dos Açores”, Vol. VIII, pp. 342 a 347 e Vol. VII, págs. 159 a 175, respectivamente.

(7). “Anais do Município das Lajes das Flores”, 1970, pp. 93 e 94, de João Augusto da Silveira.