Florentino que se distinguiu – Síntese Histórica do Padre José António Camões (IV)

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(Continuação)

Eis o resto das sínteses dos atestados dos clérigos das Flores e do Corvo sobre o Padre Camões:

– o Padre Manuel Luís da Silveira, das Fajãs: – “sempre foi recto, e exacto no cumprimento das obrigações “[…]”. Era muito benigno, muito afável e muito cortês para todos “[…]”. Dos pobres era hum pai comum”; 

– o Padre João Lourenço, na qualidade de Escrivão Eclesiástico das Flores e do Corvo: – “com a maior paciência tudo nos ensinou, e até mesmo o colocar as letras (que nem isso sabíamos) e isto em papel seu “[…]” nunca o Reverendo Suplicante por si levou custas algumas aos pobres, antes por muitas vezes nos pagava da sua algibeira tudo a fim de beneficiar a pobreza, de quem é o mais singular benfeitor”;

– o Padre João Rodrigues Duarte, na qualidade de Escrivão Eclesiástico das Flores e do Corvo escreveu: – “não pode haver indivíduo algum de tão má consciência que deixe de confessar que o dito ‘Reverendo Suplicante’ foi o Ouvidor e Juiz Eclesiástico mais recto, mais desinteressado, e que com mais igualdade administrasse a justiça nos anos em que exerceu aquele cargo nestas duas Ilhas que até hoje viram os Habitantes delas, os quais publicamente confessam o mesmo”. Apenas seis clérigos não responderam. 

Em Agosto desse ano de 1813, o Padre Camões junta à sua contestação as abonações do clero acima mencionado, – salvo de “Seis deles que emudeceram, sem que uma só palavra quisessem atestar-lhe” – na qual faz um brilhantíssima defesa às acusações que lhe são feitas. Nela destaca com o inimigo, o “Padre José Caetano Henriques, seu indigno, e mil vezes ingrato discípulo”, cura da paróquia de Nossa Senhora dos Remédios da Fajãzinha, que acusa de ter obtido esse cargo “com premissas falsas”. Refere ainda como seus inimigos, os seis clérigos que nada quiseram atestar sobre o seu comportamento, bem como João Marcelino de Mesquita e Pimentel,  residente em Santa Cruz. Eram esses os seus mais perigosos inimigos.

Esses documentos encontram-se transcritos em Anexo ao livro “OBRAS” já referido. Nesse requerimento pode-se constatar a sua cultura e a forma brilhante como manobrava as letras. Nele também se vislumbra a sua elevada imaginação e experiência na defesa das acusações de que foi alvo naquele processo. 

Desse requerimento, respigamos os seguintes excertos, cujo português actualizámos, para melhor compreensão do leitor: que «tem consistido a sua família em um criado, que o serve, ordinariamente um homem velho e já viúvo. A sua mobília consiste nos seus livros. A sua traficância no contínuo estudo, e leituras deles, e em instruir os ignorantes». «Os seus vícios, em dar de comer aos que têm fome, de beber aos que têm sede, vestir os nus, visitar os enfermos […] hospedar continuamente os peregrinos e estrangeiros, remir e socorrer os perseguidos da Justiça, livrando-os das cadeias e cárceres públicos …»; que é certo ter dado, desde os 19 anos, na ilha das Flores, onde faltavam letrados e homens instruídos, «normas e borrões para alguma coisa importante […] produções de seu infatigável estudo, isso sem o menor interesse [remuneratório], e indiferentemente a sacerdotes, a eclesiásticos, a juízes, a militares, e mesmo a reverendos ouvidores, seus meritíssimos antecessores, e aos seus escrivães etc…, mas depois que é sacerdote, protesta da palavra sacerdotal e debaixo de juramento dos Santos Evangelhos, que nunca deu norma, nem borrão algum…».

É nesse mesmo ano de 1813 que se diz ter escrito a sátira “Os Pecados Mortais”, feita em diálogo entre marido e mulher, onde são referidos os Sete Pecados Mortais, igualmente inserido no livro “OBRAS”, imputáveis em paridade aos sete clérigos que não o querem como ouvidor eclesiástico das Flores e do Corvo.

Mas as acusações dos seus inimigos não ficam por aí. Em 20 de Junho de 1814, na sequência de ter sido acusado de injuriar a Mesa Capitular da diocese “de simonia, e de subornada e peitada”, é mandado embarcar para Angra a fim de responder às acusações que lhe eram feitas, por ordem do Dr. João José da Cunha Ferraz. Francisco Ferreira Drumond escreve que “veio preso à Terceira e metido em estreita prisão” (10). Tratava-se de uma falta gravemente punida pela Inquisição. 

É nesse mesmo mês de Junho que parte do clero das Flores e do Corvo atesta o seu bom comportamento, como atrás referimos, e reclama a sua inocência. Nos meses de Agosto e de Setembro desse mesmo ano surgem no processo novos requerimentos de Ponta Delgada das Flores, com apelos ao regresso do seu pároco a essa freguesia.

Em sentença proferida em 20 de Fevereiro de 1815 é absolvido das acusações à Mesa Capitular, pelo que logo a seguir, em 22 desse mês, requer a essa instituição os seus provimentos como pároco e pregador. Não deseja voltar ao cargo de Ouvidor, como referira na sua defesa, mas acabam por deixá-lo sem colocação que lhe permita a sua sobrevivência.

Deste modo, em Março desse ano de 1815 solicita, em requerimento ao Capitão-General dos Açores, Aires Pinto de Sousa, novo provimento no cargo de professor régio de Gramática Latina da Vila de Santa Cruz das Flores. Era o cargo que já exercera antes de ser nomeado Ouvidor Eclesiástico das Flores e do Corvo e que publicamente já revelara ser agora o seu maior desejo. Conforme refere Reis Leite, esse seu pedido terá sido objecto de Despacho favorável de 26 de Agosto, depois de certa relutância da Capitania Geral, onde se terá confessado o autor do “Testamento de D. Burro, pai dos asnos”, definindo-o como “Uma simples, inocente alegoria” (11). Nesse mesmo dia ter-lhe-ão passado a respectiva provisão como professor régio. Todavia, Ferreira Drumond escreveu nos “Anais da Ilha Terceira” que “tal requerimento foi indeferido, depois de ouvido o Cabido”, que terá dado parecer desfavorável a essa nomeação (12). 

(Continua)

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BIBL: “O Padre José António Camões uma Tentativa de Bibliografia – Separata do Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira”, Vol. XLV, 1987, de José Guilherme Reis Leite; “Anais do Município das Lajes das Flores”, 1970, de João Augusto da Silveira; “Arquivo dos Açores – O Padre Camões” Vol. VIII; “Anais da Ilha Terceira”, 1859, Vol. III, p. 254 a 257, de Francisco Ferreira Drumond; Jornal “Correio da Horta”, de 8-5-1984; Jornal “O Monchique”, de 30-4-2002; Jornal “As Flores” de 13-10-1994 a 29-7-2000; “OBRAS – Memórias da Ilha das Flores, Testamento de D. Burro Pai dos Asnos, Os Pecados Mortais e Poemas Dispersos”, 2006, pp. 21 a 35, do Padre José António Camões, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores. 

(10). “Anais da Ilha Terceira”, 1859, Vol. III, p. 254, artigo de Francisco Ferreira Drumond.

(11). Obra acima mencionada, p. 1153, de José Guilherme Reis Leite e “Anais da Ilha Terceira”, Vol. III, p. 256, artigo de Francisco Ferreira Drumond.

(12). “Anais do Município das Lajes das Flores”, nota 62 à pp. 91 a 94, comentários de Jacob Tomaz   e “Anais da Ilha Terceira”, Vol. III, pp. 256 e 257, artigo de Francisco Ferreira Drumond.

(13). “Antologia de Poesia Açoriana do Século XVIII a 1975”, pp. 94 a 100, de Pedro da Silveira.

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