Retalhos da nossa história – CXIX
A subida ao poder dos progressistas, em 1 de Junho de 1879, liderados por Anselmo José Braamcamp ocasionou mudanças nas diferentes estruturas políticas e administrativas do país. Assim, não se estranha que, decorridos apenas dois dias, o ministro do Reino, José Luciano de Castro – futuro sucessor de Braamcamp na chefia do partido progressista – tenha nomeado o Dr. Manuel Francisco de Medeiros para o cargo de governador civil do distrito da Horta, uma vez que era ele o dirigente máximo daquele agrupamento político. O seu mandato durou até à queda do Ministério de Braamcamp que se deu a 25 de Março de 1881, sendo substituído, na lógica do sistema rotativista, por um governo regenerador que, de imediato, nomeou um dos seus para a primeira magistratura do distrito da Horta. Haviam de passar cinco anos para que se desse o regresso dos progressistas ao poder e, concomitantemente, voltasse o Dr. Medeiros ao cargo de governador. Foi nomeado pelo Ministério presidido por José Luciano de Castro em 25 de Fevereiro de 1886 e esteve à frente dos destinos do distrito da Horta até 16 de Fevereiro de 1890, vindo a ser também vítima do Ultimato britânico que implicou a demissão do executivo progressista.
Entre os dois períodos em que esteve à frente dos destinos do distrito, o Dr. Manuel Francisco de Medeiros foi eleito deputado em 1884 pelo círculo plurinominal da Horta, tendo prestado juramento a 26 de Janeiro de 1885. Para esse fim, saíra do Faial no vapor “Benguela” a 18 desse mês, tendo o semanário O Fayalense (mais próximo dos regeneradores) noticiado que ele fora acompanhado da família e que “ninguém melhor do que ele conhece as necessidades deste distrito, de onde é natural e que já administrou por algum tempo, e por isso muito se espera que pela sua dedicação e elevada inteligência alguma coisa faça em benefício geral do mesmo distrito”[1]. Talvez porque esteve pouco tempo na Câmara dos Deputados – já que em Fevereiro de 1886 foi nomeado governador – “teve uma discreta passagem pelo Parlamento, no qual se empenhou a representar pedidos vários sobre melhoramentos locais do seu círculo”.[2]
Entretanto, já tinha sido distinguido com a carta de conselheiro e, a par da vida profissional como médico municipal e do hospital da Santa Casa da Misericórdia, bem como delegado de Saúde, continuava mantendo intenso envolvimento na vida política, económica e social das quatro ilhas do distrito. Proprietário e director do semanário O Atlântico – verdadeiro porta-voz do partido progressista – o Conselheiro Medeiros foi presidente do Grémio Literário Faialense, da Sociedade Filantrópica Luz e Caridade (loja maçónica) e da Secção da Sociedade de Geografia na ilha do Faial.
Nascido na Horta em 1831, numa família que agregava grandes negociantes e bacharéis desde o final do Antigo Regime, era filho de Manuel Francisco de Medeiros, médico, proprietário e negociante, e de sua mulher e sobrinha Maria Lucrécia de Medeiros. Formado em Coimbra no ano de 1858, regressou à terra natal e continuou a tradição familiar que, curiosamente, transmitiria aos seus descendentes. Efectivamente, do seu casamento com Maria Alexandrina Goulart, realizado na Capela da Ordem Terceira de São Francisco a 21 de Abril de 1860, nasceram os seguintes filhos:
– Manuel Goulart de Medeiros (1861), coronel de Artilharia, deputado e senador republicano, ministro da instrução do governo de Pimenta de Castro;
– Alberto Goulart de Medeiros (1863), capitão-tenente médico e governador civil da Horta em 1918 e 1926;
– Maria Palmira Goulart de Medeiros (1867), casada com o general de Infantaria António Teixeira de Aguiar;
– Pedro Goulart de Medeiros (1869), médico;
– Jaime Goulart de Medeiros (1871), chefe de Repartição de Finanças da Horta;
– Adolfo Goulart de Medeiros (1874), funcionário de Finanças e proprietário;
– Augusto Goulart de Medeiros (1878), capitão de mar-e-guerra, governador civil da Horta (1911-1913) e do Funchal (1934-1938).
Além dos sete filhos atrás mencionados, o conselheiro e médico Dr. Manuel Francisco de Medeiros deixou imensa descendência que é impossível registar neste espaço. Fica, contudo, assinalado que foi avô do Dr. Alberto Campos Goulart de Medeiros, médico distinto como seu pai Alberto Goulart de Medeiros e destacado dirigente da Associação Faialense dos Bombeiros Voluntários de que seu tio Augusto Goulart de Medeiros foi o principal fundador em 1912.
O Conselheiro Medeiros faleceu com 63 anos de idade, em 3 de Junho de 1895, e a imprensa da época registou com palavras de muito apreço e consternação a sua morte. No então nóvel jornal O Telégrafo, o seu director padre Manuel José de Ávila, simpatizante dos regeneradores, lamenta o decesso que “cobrindo de crepes a ilustre família Medeiros, enlutou também o partido progressista do distrito” que nele “contava um chefe respeitabilíssimo e prestigioso”. E, prosseguia aquele director, “o sr. Conselheiro Medeiros [filho desta terra], dedicou-lhe sempre todos os desvelos, empregando a sua robustíssima inteligência, talento e vastíssima ilustração no serviço da sua pátria, já no exercício da clínica que professava como um sacerdócio, já prestando-lhe o concurso do seu alto valor político e da sua influência pessoal”[3].
Por sua vez O Açoriano, bem mais próximo dos progressistas, salientava que “o ilustrado finado pertencia a uma das famílias mais distintas desta cidade onde era muito estimado pelas suas excelentes qualidades de carácter honestíssimo e impoluto, sendo unânime esta apreciação, não excluindo deste juízo os seus próprios adversários.” Refere ainda o mesmo jornal que “a paixão partidária nunca lhe transviou a razão em desmandos e perseguições nem mesmo com o pessoal que lhe era subordinado”. Concluía que “entrou imaculado na política; saiu dela honrado e pelos próprios adversários venerado”[4].
A Câmara Municipal da Horta, em sessão de 8 de Junho de 1895, perpetuou o seu nome na toponímia faialense, ao deliberar que se passasse a “denominar Rua Conselheiro Medeiros a Rua de São Francisco desta cidade, em cuja casa n.º 22 durante muitos anos residiu e onde faleceu”.[5]
[1] O Fayalense, 18 Janeiro 1885, p. 3
[2] Mónica, Maria Filomena (coord.), Dicionário Biográfico Parlamentar, 1834-1910, Lisboa 2005, vol.II, p. 815
[3] O Telégrafo, 5 Junho 1895, p.1
[4] O Açoriano, 5 Junho 1895, p. 1
[5] Livro de Vereações n,º 47, fls. 116 e ss.











