Grimaneza, meu amor

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TI
TI

Grimaneza foi o primeiro grande amor da minha vida. Tinha distinção no porte e era ostensiva e bela, meiga e esquiva… Saracoteava as ancas quando caminhava. E tinha olhos risonhos de um castanho-claro, cabelo liso de um loiro suave, sobrancelhas arqueadas, sorriso aberto, dentes alvos, duas covinhas irregulares em cada lado da boca, lábios carnudos de morango, peitinho cheio, coxas roliças, pernas graciosas…
Grimaneza é a grande saudade dos meus verdes anos.
Tudo começou com a troca de bilhetinhos amorosos, à saída da escola… Depois vieram as falinhas mansas e envergonhadas… Passada a idade da inocência, aconteceram os poemas que Grimaneza me inspirava. Por ela, e só por ela, me fiz poeta.
Poeta incipiente, eu era todo desvelos e carinhos para com a minha amada. Vivia às ordens do amor, enfatuado de emoções, tocado de afectos. Escrevia-lhe versos molhadíssimos de ternura e ela retribuía-me com bolinhos quentes e chocolates americanos que o pai comprava na Base…
Depois, na idade transitiva, eu galanteava… Dizia-lhe:
“Em cada verso meu há um beijo que afaga o teu rosto”.
Grimaneza semicerrava os olhos, roía a unha do polegar direito, franzia o narizinho e respondia-me:
“Tu és o meu poeta mimoso!”
E ficávamos frente a frente, em contemplação platónica e silenciosa…
Anos antes, na Fanfarra Operária, ela estreara-se a cantar em público a canção “Marilu”. Nesse mesmo espectáculo, coube-me recitar a “Balada da Neve”, de Augusto Gil, mas enrolei-me nos versos “uma infinita tristeza/ uma funda turbação”, perante um público pouco compreensivo…
A música unia agora os nossos desejos. Pisámos palcos a bailar folclore. Grimaneza era o meu par e, pela graça dos seus requebros, tínhamos o condão de dar nas vistas. Em minha casa, para alegrar os serões, ela cantava e eu acompanhava-a ao piano. Grimaneza sonhava esperanças e eu alimentava sonhos…
No Liceu trocávamos furtivos beijos… E cabulávamos os testes e os olhos da professora de Francês… E gozávamos tardes em idílio, a estudar… Fazíamos, juntos, os trabalhos de casa, em estado de profunda exaltação amorosa!… Citando Camões eu dizia-lhe:
“Teu amor me mata e dá vida”.
Ela sorria, molhando os lábios com a linguinha viva, muito encarnada e erótica… O sangue fervia-me quando lhe adivinhava os bicos dos seios… Ela pressentia os meus pensamentos, surpreendia a minha atrapalhação e acabávamos embevecidos e dengosos, sem ligar patavina à Lei de Lavoisier…
(À noite, no calor tépido da minha cama, vinha a recordação das suas nádegas elegantes e, então, “meu coração viril velava, engrossava e crescia”, conforme havia lido em Vitorino Nemésio…).
De tanto amar Grimaneza, andava eu desconcentrado, magríssimo, melancólico e com olheiras… Alimentava-me mal, para grande arrelia de minha mãe, que me obrigava a comer papas feitas a partir da “Farinha 33”.
Entregava-me às leituras e à aventura poética para impressionar Grimaneza. Sonhava com mundos literários excitantes, à Romeu e Julieta. Possuía um especial fascínio por Conrad e Stevenson e pelos livros de viagens. Queria ser um escritor à boa maneira de Eça de Queiroz, já então meu autor de cabeceira. Imitava-o no estilo de murmúrios de beijos e frufrus de sedas… E, influenciado pela leitura de O Crime do Padre Amaro, perseguia o erotismo do arfar de seios, de ombros nus e decotes de camisa!…
Acordava e adormecia com ânsias editoriais… Assaltavam-me vagos desejos de celebridade literária e cheguei mesmo a comprar um cachimbo na Loja do Chinês, na Rua Direita.
O coração batia-me à ideia de ver o meu livro nos escaparates da Loja do Adriano, ou na Casa das Utilidades! Andava nervoso e excitado, tomado de tédio, com a alma cheia de ambições enevoadas e felicidades indefinidas.
O padre Coelho de Sousa, meu professor de Português, aconselhava-me a ter calma e a dar tempo ao tempo. Meu pai (que era amante de poesia) dizia-me:
-Ninguém nasce sénior, nem o Eusébio…
Mas aconteceu mesmo o que eu mais queria: acabei por dar à estampa “Poemas de Fogo e Mar”, o meu primeiro livro de poesia, com o financiamento generoso dos “sócios” – um grupo de bons amigos que, possuídos por um desejo corporativista, se constituíram em lobby sócio-académico avant la lettre, isto é, antes do 25 de Abril de 1974.
Eu tinha o amor de Grimaneza e o orgulho do meu primeiro livro de poesia… Sentia um gozo picante quando surpreendia alguém na rua com a minha “obra” debaixo do braço… Fazia diariamente um giro pelas livrarias de Angra. Mas nunca ficava satisfeito, pois achava que Poemas de Fogo e Mar nunca estava bastante em evidência… Chegava a casa e lia e relia o livro, para me fortalecer com a certeza do meu talento.
Depois passei por um estado de euforia, à medida que ia sabendo da razoável venda dos 500 exemplares impressos. Os lucros obtidos destinavam-se a abundantes jantaradas com os meus “sócios” no restaurante Beira Mar. E não me faltaram os escudos para ofertar a Grimaneza um anel de noivado.
Ah, as promessas que fizemos! Juras de terno e eterno amor! Casamento e flor de laranjeira! Passeios pela ilha! Festas, festejos e festividades! Banhos na Praia da Vitória e pedrinhas atiradas à beira-mar! Visões românticas do pôr-do-sol! Tardes infindáveis em casa do meu amor a comer bolachinhas Oreo, com o “Joli” (ciumento da sua dona) a enroscar-se a nossos pés…
O destino, porém, haveria de nos trocar as voltas e separar as nossas vidas. Grimaneza, aquela a quem eu tanto amei, trocou-me por um outro por ser galã audaz e ter parentela rica…

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