Há 40 anos no Distrito da Horta (7) – O primeiro comício de Soares no Faial

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No verão de 1974, Mário Soares, o fundador e secretário-geral do Partido Socialista Português, desloca-se aos Açores em missão de implantação partidária para três grandes comícios políticos nas ilhas Terceira, Faial e S. Miguel: a 31 de agosto no Liceu de Angra do Heroísmo, a 1 de setembro na esplanada do Sporting da Horta e a 2 de setembro no Coliseu Micaelense. 

Especial impacto parece ter tido a passagem de Mário Soares pela ilha do Faial. “Cerca de 3.000 pessoas assistiram ao comício realizado na esplanada do Sporting”, como titula ‘O Telégrafo’, para concluir tratar-se de “Assistência invulgar e, relativamente, das mais concorridas das realizadas em todo o País pelo Partido Socialista se tivermos em conta a população da nossa ilha”:

“Atrás da mesa do comício sentavam-se os srs. Dr. Luís Carlos Decq Motta, Alberto da Rosa, estudante Paula Martins Goulart e António Ferreira, do Partido Socialista, e José Pacheco de Almeida este em representação do Movimento Democrático da Ilha do Faial, não estando ocupada a cadeira destinada ao representante do Partido Popular Democrático. (…) Em primeiro lugar falou o dr. Manuel Serra, seguindo-se-lhe o dr. Marcelo Curto e, por fim, o dr. Mário Soares que, como sucedera à entrada, ao erguer-se para falar foi alvo de grandiosa aclamação. Os discursos que se prolongaram por cerca de três horas foram entrecortados por apoiados e aplausos.” (O Telégrafo, 3 de setembro de 1974)

Mais do que o comício da Horta, foi a conferência de imprensa depois realizada no Hotel Fayal que melhor permitiu a Mário Soares passar a sua mensagem política.

Na reportagem do encontro do líder socialista com a imprensa faialense, intitulada “Autonomia dos Açores e os custos da insularidade”, o ‘Correio da Horta’ transcreve textualmente a opinião expressa por Mário Soares, que defende a descentralização e incentiva a participação:

“M.S. – É necessário que o Povo dos Açores faça ouvir as suas reclamações, junto dos poderes centrais, através dos canais próprios que são os Governadores dos Distritos Autónomos que agora são pessoas efetivamente ao serviço do Povo dos Açores, e não, como antes, pessoas ao serviço de uma minoria de privilegiados, através dos Governadores e diretamente por meio da Imprensa, por meio de reclamações, por meio da pressão social, isso pode fazer-se, mas é preciso que os açorianos se convençam que se têm de organizar.” (Correio da Horta, 3 de setembro de 1974)

Já ‘O Telégrafo’ prefere enfatizar a naturalidade açoriana de importantes dirigentes nacionais do PS, certamente pensando em Jaime Gama, que fora evidenciada pelo próprio Mário Soares:

“Os açorianos são todos muito ciosos da sua autonomia e eles fizeram-no sentir na elaboração do nosso programa, e têm-no dito duma maneira muito intensa que é preciso que essa autonomia que foi reconhecida no papel, in illo tempore, mas que nunca foi aplicada, venha a ser uma autonomia real. Devo dizer, em nome do Partido Socialista, que o Partido Socialista é favorável a uma autonomia efetiva” (O Telégrafo, 4 de setembro de 1974).

Esta conferência de imprensa na ilha do Faial, a meio do périplo partidário de Mário Soares pelos três distritos autónomos do arquipélago dos Açores, permitiu ainda uma declaração marcante sobre a herança de Antero: “Como sabem, o socialismo português nasceu com um açoriano, que foi Antero de Quental, desenvolveu-se no século XIX, no princípio do século XX e, através da doutrinação do Grupo da Seara Nova, o socialismo criou raízes em Portugal” (Correio da Horta, 2 de setembro de 1974).

 

*Pré-publicação de excertos do livro “1974: Democracia… O 25 de Abril nos Açores”, de José Andrade, que será lançado na segunda-feira, 21 de abril, às 18 horas, na Biblioteca Pública da Horta

 

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