Por tudo e por nada se fala em “hoje em dia”. E por que não no “hoje em noite”? Até seria mais sensato uma vez que na noite mais mudanças apareceram. As pessoas esquecem-se. Ou fazem-se esquecidas. As noites de hoje são muito mais animadas e conturbadas que os dias. Pelas noites há mais mortes, assaltos, roubos, tiroteios, espancamentos, distúrbios em sítios públicos, um rol de coisas que hoje em dia acontece também, mas com mais regras. À noite é que é um regabofe.
De qualquer maneira hoje, quer dia, quer noite, tem o mundo virado do avesso. Começou devagarinho. Assim à laia de experiência. Ver se pega. E pegou. As pessoas não olham se tem sol, se tem lua. Apeteceu, fez-se. O que dantes se resolvia com uma boa briga, hoje resolve-se com um tiro nos miolos. Não se estende a mão. Assalta-se. Rende muito mais.
E tudo foi evoluindo. E nós, compactuando afirmamos “ hoje em dia é outra coisa”. Será? Claro que não. Talvez muito mais animado porque o que não mudou, nem mudará, penso, é a velha história das classes sociais: clero, nobreza e povo. O clero continua igual. Excetuando o Padre Nosso que virou Pai Nosso, as gradinhas do confissionário que desapareceram, o latim que se volatilizou, não pressinto mudanças. O povo continua povo. Também o que queriam mais? Ser povão como o brasileiro? Pois seja! A nobreza, inteligente, evoluiu “novelãs” como dizem lá na nossa capital . É a velha história dos mendigos: Hoje um, amanhã mil.
Pelo meio do vendaval surgiu uma geografia estranha. As repúblicas Tchecas, sérvias, bósnia-herzegovina. Um enredo. Falar na U.R.S.S., era o que faltava! E vou concluindo que, boa aluna em geografia, estou ficando zerada. O que mais me incomoda é o Azerbaijão. Acho uma palavra horrível. Soa a ameaça. “Se te portas mal levas um Azerbaijão”!
Com o aparecimento dos telemóveis, internetes e afins, as crianças usam e abusam. E dão lições aos crescidos. Mas, culpa disso as maternidades sofrem! Olhem só a Alfredo da Costa! Está por um fio. É que ninguém aguenta. As enfermeiras não merecem. Acontece que os bébés nascem já equipados de celular, computador,facebook , o escambau e os partos tornam-se tão complicados que o pessoal especializado não dá para os gastos da casa! Essas crianças de hoje em dia envelhecem mais cedo, culpa da informática. Felizmente nunca com sintomas de caturrice de velhos. Não, morte chic. Alzheimer.
Bom, tudo isto é uma treta comparado com algo que me põe danada da vida. O Plutão. Mataram o Plutão. Desapareceu do mapa o meu Plutãozinho de estimação. Eu, que pus todas as minhas esperanças e poupanças no sonho de visitá-lo! Não, não sonho pequeno, sonho diferente. Seria assim um sair de Nova Iorque e rumar ao Corvo. Recebida com rancho folclórico, queijo fresco e bonés. Daqueles! Plutão deve ser o máximo! Até penso ser possível permanecer lá eternamente, qual Fernando Mendes e o preço certo.
Foi hoje em dia que inventaram mais um eletrodoméstico de renome. Uma máquina de cozinha que faz tudo. Sozinha. Não acredito! Só compraria uma coisa dessas com a seguinte condição: traria o bicho para casa e pedir-lhe-ia a refeição que me desse na gana. Então a dita cuja, sairia da apatia de suas colegas, iria às compras, regressando prepará-las-ia, lavando, cortando, picando e só então as engoliria a fim de serem cozinhadas. Finalmente, trabalho concluído, teria de arrumar uma mesa bonita, sem esquecer de perguntar qual o vinho desejado. E colocar ao menos uma camélia na mesa. Aí, voltaria à cozinha, limpando a porcaria lá deixada por ela.
Não, não sou exigente. Eu ajudaria. Ligaria a ficha e de quando em vez uma olhadela para ver a fulaninha como se portava. Limpeza, asseio, horários é de suma importância.
A máquina que não sabe desempenhar o seu papel é um nojo! Como aquelas da roupa, da louça etc. Deixam ficar tudo lá dentro e nem uma ajuda. Nós que nos lixemos a pôr e tirar, arrumar. Ninguém merece!
E os frigoríficos e arcas? Alguém já teve uma porcaria duma arca que socorresse o dono aflito, dando uma mãozinha na hora em que ele procura algo que está escondido lá nas catacumbas da maquineta? Não, fica ali parada, gozando a situação! As máquinas modernas são uma mescla!
Elas, as máquinas de hoje, chegam- nos a casa com um livro de instruções, qual Lusíadas. A diferença é que este fala do passado e aquele do presente. Iguais são o número infinito de folhas para explicar uma palavra. Como as bulas dos medicamentos. Também medem quilómetros. Ou toma-se o comprimidinho ou lê- se a bula. Não, não leio mesmo. Com a montoeira de livros bons que possuo, só louca é que iria ler nome de doenças e contra doenças. É tomar e esperar pela pancada!
Bem, não fiquem com a impressão que não estou a funcionar normalmente. Penso eu de que … como diria Pinto da Costa. Mas nunca se sabe! Ele também se passa de vez em quando. Por uma bolinha sem importância! Imaginem se ele se visse rodeado de máquinas incompetentes, mal educadas, umas vadias.
Muito teria para falar sobre este assunto mas não há espaço. Atacarei novamente dia destes. Ficam prevenidos. Se se chatearem é fácil. Só virar rápido a página, sem sacrificar o jornal. Nada de confusões. Por agora fico pensando, enquanto olho a máquina: Como é que eu tive coragem de adquirir tal estafermo?
N.B. Na última crónica saíu errada a acentuação da palavra” tête”. Culpa da máquina. Ela não sabe francês!











