UM ADEUS AO SENHOR CEDROS

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O telefone tocou. Do outro lado o meu marido informa: Ficámos sem o nosso José Cedros. Lembro que fiquei petrificada, pois desliguei o telefone sem falar. Houve um lapso de tempo, em que tudo à minha volta se transformou como cacos de caleidoscópio. Depois vieram as lágrimas e com elas um pouco de alívio. Fico pensando sem coerência, sem subordinação. 

O Senhor José não era familiar meu, mas era um dos meus escolhidos, como tal. Sempre tive a clareza, como tenho hoje a plena consciência que ele era uma unanimidade que, conseguia impor-se aos outros, sem muitas palavras, sem bajulações. Simplesmente. Muito simplesmente.

O senhor José era um profissional de alta qualidade. Aquele profissional que, fazendo tudo certo, bem feito, tudo ao pormenor, não estufava o peito orgulhando-se disso, não nos maçava com explicações. Era um homem com letras maiúsculas.

Naquelas aflições de problemas elétricos, chamava por ele e era vê-lo aparecer sorrindo, humilde, cauteloso e asseado. Sim, asseado. Até nisso se esmerava. Nunca rasto de sua passagem. Tudo sempre arrumadinho como dantes.

E, neste momento estou dando graças a Deus, por lhe ter dito quase tudo isto, em vida. Na hora. Penso que ele sabia como eu confiava nele. O senhor foi a rede de proteção para mim e para muita gente, creio. Que Deus seja agora a sua. Merecia. Trabalhou para isso. Anos, meses, semanas, dias… Sempre à cata de ajudar os outros. Espero que a fatia da sua vida profissional que o senhor distribuiu por muitos sobreviva para sempre na lembrança dos corações saudáveis. 

Neste mundo conturbado em que vivemos, cheio de ódios, invejas, mentiras e falsidades, como é bom aparecer um senhor José, bom, sincero, calmo, tranquilo, em quem depositamos toda a confiança! Mas, cheguei à conclusão que a morte também sabe escolher e é os bons que ela leva primeiro.

Tudo num passe de mágica. Como num sonho. Será que  dia destes terei coragem de telefonar para a Foto Jovial, sem que a melancolia me invada e não me lembre do senhor José? Será que ficarei zanzando à cata doutro senhor José que não existe mais? 

Peço desculpa, não fui ao seu funeral. Não descaso. Não desatenção. Vontade de reter a sua imagem tal como a última vez que o vi. Subindo as escadas, sorrindo, carregando tranquilidade e sensatez. O senhor não partiu. Deixou marca para os que o conheceram de perto e o estimaram. Assim eu. Não retângulo de madeira descendo. Não flores. Não choro. Não olhos fechados. Mas aquele senhor José desempenhando o seu trabalho. Olhos bem abertos. Respeito. Consideração.

Por tudo isto, obrigada, muito obrigada. Até lá senhor José! Morreu um Homem bom!

 

 

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