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Horta, Cidade Aberta | Cuidar do Património Cultural é Avançar

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A cultura não se faz apenas de espetáculos e eventos, mas também de pedras, ruas, muros e fachadas. Cuidar do património histórico é uma forma de manter viva a identidade de um povo e uma oportunidade de projetar a cidade no futuro — com memória, carácter e singularidade. Quando falamos de cultura, falamos também do modo como construímos, preservamos e habitamos os lugares.

Nas últimas décadas, o mundo assistiu a uma renovação do interesse pelo património histórico como recurso vital para cidades mais habitáveis. Não basta conservar ruínas, é preciso integrá-las, dando-lhes uso, vida e significado. Em todo o mundo, multiplicam-se micro-intervenções bem pensadas: discretas, mas decisivas. Em Nápoles, o programa ICHMP, envolveu arquitetos, engenheiros, historiadores, autarquias, comerciantes e comunidades locais na conservação de zonas portuárias com alto valor patrimonial, com soluções que respeitam a memória dos lugares. Já em Guimarães, a reabilitação do centro histórico (classificado como Património Mundial desde 2001) teve sucesso graças à articulação entre políticas públicas, investimento europeu e envolvimento direto da população, arquitetos e historiadores.

Na Horta, temos joias do século XVII classificadas como Imóveis de Interesse Público: a Bombardeira de Porto Pim, o Forte de São Sebastião e o Reduto da Patrulha. Património com valor arquitetónico e histórico incalculável.

A legislação nacional é clara: a conservação deve respeitar as pré-existências, os valores paisagísticos e as especificidades de cada edifício. Mas o que parece estar a acontecer é uma substituição de pedra de tufo por betão. Intervenções agressivas em vez de intervenções inteligentes. E com isso, perdemos valor cultural, económico e até turístico.

Na cidade italiana de Lecce, o uso da pedra de Tufo Leccese é essencial na identidade urbana. A manutenção criteriosa desta pedra porosa permite anualmente preservar o centro histórico, e é um dos fatores determinantes para a sua inclusão na lista indicativa da UNESCO para Património Mundial. Ali, o envolvimento da universidade, municipio, escolas de restauro e associações culturais tem sido constante. Lecce percebeu cedo que a pedra não é só património cultural, é desenvolvimento.

Recuperar construções com valor patrimonial incalculável exige projetos muito bem ponderados e pensados entre variadíssimas entidades. Só com uma visão plural se conseguem soluções sustentáveis, micro-intervenções, como em Montemor-o-Velho onde bancos e rampas em madeira e pedra local foram integrados no castelo com técnicas tradicionais e mínima intrusão. Como em Matera, onde escadas metálicas de mão permitem o acesso a zonas patrimoniais sem afetar as construções originais. Como nas ruínas romanas de Milreu onde pequenos suportes metálicos consolidam estruturas sem esconder o passado. Três exemplos de intervenções simples, respeitosas e tecnicamente rigorosas.

Na Horta, é possível fazer diferente. Podemos recuperar as fortificações com projetos que respeitem o seu valor. Se quisermos uma cidade com memória, temos de cuidar das suas fundações. Não se trata apenas de manter paredes de pé, trata-se de manter histórias, atmosferas e vivências.

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