Horta – cidade mar, que futuro?

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 Parque Tecnológico

“Parque Empresarial da Ilha do Faial, mais vocacionado para as ciências do mar”, foi assim que se referiu Vasco Cordeiro, numa recente intervenção sobre os parques tecnológicos de São Miguel e Terceira.

Será que o governo não vai mesmo cumprir os compromissos que assume com o Faial?

O Faial, pelas suas caraterísticas e pela sua localização, deve começar (já o devia ter feito) a construir um parque tecnológico de referência e exclusivamente ligado às áreas do mar.

Vem aí a exploração do mar profundo! Está aí o aumento da plataforma continental, existe uma nova estratégia nacional para o mar, um Plano de Ordenamento do Espaço Marítimo. Tudo está em mudança e a reposicionar-se para apostar no mar, sendo esse o futuro e a base para velhas “conquistas”. 

O Faial, pela qualidade, pela localização, pela capacidade técnica, tem as ferramentas necessárias para construir e fazer parte deste desafio que é o Mar. Sendo esta a ilha melhor preparada e que necessita urgentemente de diversificar a sua oferta produtiva e o mar pode ser, sem dúvida, esse passo decisivo.

Realço outra promessa e ainda não cumprida pelo Governo Regional que é a aquisição de um navio oceanográfico, com a base operacional no Faial, para apoiar este movimento de redescoberta do mar. 

Fica aqui outra sugestão de dar o aproveitamento às antigas instalações da COFACO, para instalação do Parque de Desenvolvimento Tecnológico e de Investigação do Mar. 

 

Estaleiro Naval dos Açores

Muito se tem falado do bairrismo entre ilhas, daquilo que umas têm e que as outras querem, mas as verdadeiras razões para este fermento provêm, na maioria das vezes, da incompetência na análise conjuntural de cada ilha, do qual cada local tem naturalmente para oferecer o todo regional. Por isso entendo que o desenvolvimento económico dos Açores assenta na potenciação das características de cada ilha e, só desta forma, todas poderão contribuir para o desenvolvimento do todo regional. 

Naturalmente que esta visão implica desde logo colocar egos e as guerrinhas de pequenos lobbies de lado, saber recuar, abrir e colocar à discussão projetos que poderão ser válidos e que possam ser recuperados a curto prazo. Falo concretamente da necessidade dos Açores possuírem um estaleiro naval de excelência e que encontra na Horta, todos os condimentos para sua viabilidade, pois esta é a cidade:

1 – tem uma localização privilegiada no Atlântico; 

2 – na qual passam anualmente milhares de embarcações de recreio de todo o mundo; 

3 – tem a maior concentração de embarcações estrangeiras em estadia no inverno; 

4 – tem o porto mais seguro dos Açores; 

5 – tem empresas especializadas e capazes de dar apoio direto a um estaleiro;

6 – irá (esperamos) especializar técnicos para as áreas do mar através da Escola Naval; 

7 – possui o terceiro porto de pescas mais produtivo da Região; 

8 – ainda é o melhor porto de abrigo dos Açores para as frotas do atum nacionais e estrangeiras, pois é aqui que fazem pequenas reparações, descanso e abastecimento. 

Por tudo isto e com uma simples deslocalização do parque de contentores, utilizando o campo da doca, poder-se-ia encontrar soluções eficientes e com fortes resultados económicos a muito curto prazo, trazendo aos Açores uma solução duradoura, segura, eficaz e economicamente fácil de implementar. 

 

Comando Marítimo dos Açores

O maior movimento de passageiros no Arquipélago dos Açores, por via marítima, regista-se entre o Faial e o Pico. O Porto da Horta tem uma localização única no Atlântico Norte e o maior número de escalas de embarcações estrangeiras nos Açores. É sabido que o sistema de comunicações da marinha funciona mal na ilha de São Miguel e continua a emitir da Estação Radio Naval da Horta, para além de existir uma afinidade e legado histórico entre a marinha portuguesa e a ilha do Faial. 

A construção de uma estratégia para o desenvolvimento de numa economia do mar e com uma visão de futuro passa por agregar os fatores e avalia-los de forma integrada. Por este desiderato deve o Governo da República, em cooperação com o Governo Regional, repensar e sua estratégia para o Arquipélago e voltar atrás, repondo a Estação Radio Naval da Horta, aproveitando a futura Escola Naval para se integrar neste projeto e deslocalizar o Comando Naval dos Açores de São Miguel para a ilha do Faial, corporizando desta forma uma estratégia que Portugal pretende desenvolver para o Mar, onde existem as condições naturais de devemos concertar os recursos, garantindo desta forma a sustentabilidade e a rentabilização dos meios.

Instalações militares ao abandono na ilha do Faial não faltam para instalar o Comando Marítimo e sem grandes custos, apenas inerentes ao desmazelo que foram deixados, como é o caso do Quartel do Carmo. 

 

Nova sede do Clube Naval da Horta

Tarda e falha, ano após ano, o esforço por aqui não é recompensado, é totalmente ignorado! O Clube Naval da Horta é hoje o maior clube dos Açores, em todas as modalidades e é aquele que goza de maior prestígio internacional. Ora para a estratégia de conquista e exploração do Mar, torna-se essencial dar boas condições de acesso ao mar e formar gente com uma cultura marítima, sendo que este papel cabe ao Clube Naval da Horta. 

Assim, o Governo Regional tem que definitivamente dar um passo firme, urgente e em frente, para não continuar a manter aquela instituição amarrada ao Cais e a Câmara Municipal da Horta tem que deixar de olhar para quem lá está e ver se quer apostar no mar e nesta cultura marítima, devendo portanto alterar profundamente a estratégia de apoios financeiros e institucionais. 

Só trabalhando na mesma direção e juntos se poderá dar um salto qualitativo. 

 

Museu do Porto Marítimo Internacional da Horta

Agora que se lançam os concursos para o Museu do Ananás e a Casa da Autonomia, este último estranhamente em São Miguel, e se inaugura um faustoso Centro de Artes, para quando a preservação da memória do Porto, o mais importante dos Açores e com maior legado histórico. 

O Museu dos Cabos Submarinos está acomodado nos bastidores da politiquice barata, diria mesmo acantonado entre as travessuras de alguns e a vontade de outros e com isto já se passaram quatro anos. 

O Museu do Porto Marítimo Internacional da Horta passa pelos cabos submarinos, pela aviação, pela baleação, pelo comércio marítimo, pelas pescas, pela relação Faial/Pico, pelo iatismo e por tantas outras coisas que não podem ser metidas em salas e adaptações simpáticas do Museu da Horta. 

Aquilo que em outra ilha seria preservado e provavelmente candidatado a Património Mundial perde-se na desvalorização política e no abandono, que muitas vezes advém da falta de conhecimento, o que é pena, pois este seria mais um ponto forte de incremento para dar corpo à designação “Cidade Mar”. 

 

Curso de Ciências do Mar e Escola Naval

Confusos e supostamente de costas voltadas estão o Magnífico Reitor da Universidade dos Açores, o Presidente do Governo Regional e o Presidente da Câmara Municipal da Horta que não andam literalmente a conversar e a entender-se sobre uma estratégia para o mar e a sua importância para os Açores. 

A Câmara Municipal da Horta tem a obrigação de liderar um movimento cívico, encontrando os parceiros para que o Curso de Ciências do Mar seja ministrado desde o 1.º ano na Horta.

O Governo Regional tem a obrigação de contribuir para esta solução, associando o projeto da Escola do Mar à Universidade e garantindo um aumento de verbas para a tripolaridade da UA e não uma redução conforme anunciado recentemente. 

A Universidade dos Açores não pode ser irredutível, centralizadora e insensível, deve sim procurar ser parte da solução e não parte do problema, procurando na ilha do Faial a maturidade e a excelência do seu departamento de oceanografia e pescas para realizar o melhor curso desta área na Europa. As condições existem, podem faltar uns professores que estão em São Miguel mas apoio logístico e mar não nos falta e a custa incomparavelmente mais baixos que em São Miguel, onde a logística de mar está por montar. 

Para uma estratégia de dinamização de uma economia de Mar é fundamental contar com todos os parceiros a “remar” para o mesmo lado. 

 

Regatas Internacionais

Todas as cidades de vocação marítima têm regatas de nível internacional e por isso a Horta não é exceção e tem, ao longo dos anos, aberto portas a provas de elevado estatuto competitivo no panorama mundial. 

Só nos Açores é que nos permitimos ou temos atrevimento de colocar provas, como a Regata Les Sables/Horta/Les Sables e outras com o mesmo estatuto, ao lado de etapas de apuramento para provas de mundiais B na categoria do surf e do windsurf, para não falar em outras. 

Para que se perceba as etapas de surf e do windsurf que se realizam em São Miguel e na Terceira apenas servem como contributos para os apuramentos dos atletas para mundiais de categoria B ou europeus. Algo semelhante acontece com o Velejador Rui Silveira que participa em etapas de apuramento por vários países, apenas com a grande diferença que este está a tentar chegar aos Jogos Olímpicos 2016 no Brasil. 

Algo tem de mudar na política de apoios do Governo Regional, pois não se pode dar 100 mil euros para cinco provas de vela, de relevo internacional na Horta e dar 250 mil para apenas uma etapa de apuramento para um mundial na ilha Terceira.

Importa aqui deixar bem claro que os modelos competitivos e a relação com a cidade de Les Sables, por exemplo, tem uma cobertura efetiva de vários canais televisivos internacionais e o acompanhamento por mais de 4 milhões de pessoas. Mais nenhuma prova desportiva nos Açores, incluindo Rally Açores, tem esta mediatização internacional. 

Nunca vimos os diferentes governantes envolvidos nestas andanças das regatas, o que naturalmente terá a ver com as suas preferências por determinadas modalidades que não a vela, é pena. Gostaríamos aqui pela Horta de sentir o seu apoio nas conferências de imprensa mas sobretudo para refletirem os diferentes estudos publicados por Universidades Francesas que conduzem para a verificação dos reais impactos que tem uma regata internacional na economia de um lugar, tenho a certeza que se iriam surpreender e até render. 

 

Marina da Horta

A prestigiada Marina da Horta deixou de ter promoção própria, para estar englobada numa estratégia açoriana, numa decisão lamentável e com um critério sem paralelo em outras áreas. A Marina da Horta necessita de uma intervenção de fundo e aguarda pois não pode continuar a ter balneários obsoletos, com cheiro nauseabundo, sem as mínimas condições de higiene. 

Um dos maiores portos de recreio do mundo não pode continuar a ter “barraquinhas” como sede para as empresas de marítimo turística, num local sem casas de banho, num estado lamentável e deplorável. 

A Marina da Horta é hoje um dos mais eficientes “hotéis” do setor turístico dos Açores, enche sem promoção e gastos e a Câmara Municipal e o Governo Regional tem de dar outra atenção a esta infraestrutura. 

Melhores condições físicas mas também uma discriminação fiscal positiva, há semelhança do que vem acontecendo em outras ilhas, em outras áreas. Esta é também a melhor forma de ter uma visão com futuro sobre o Mar dos Açores e as suas potencialidades. 

 

Câmara Municipal da Horta

Esta edilidade criou uma Comissão de Assuntos do Mar que nunca se sabe quando reúne ou o que lá se trata efetivamente. Andam a tratar do embelezamento da nossa frente mar, antes de estar resolvido ou saber como vai ficar o ordenamento do Porto da Horta e apoia, mas não define, uma estratégia para captar o sistema produtivo do Mar. 

O Faial quer o ordenamento do trânsito da sua cidade e um mercado municipal com melhores condições. Quer a recuperação da sua cidade e dos muitos edifícios abandonados, muito antes de obras de embelezamento. 

O Faial quer saber se o Senhor Presidente da Câmara vai liderar o movimento pela colocação do Curso de Ciências do Mar no Faial e se vai pagar, se assim for necessário, as deslocações dos professores de São Miguel para ministrar as aulas no Faial, criar uma biblioteca e resolver o problema da cantina. 

O que o Faial quer saber é se o Senhor Presidente vai colocar na sua agenda política a construção de um Parque Tecnológico de excelência para as áreas do Mar, se vai apoiar financeiramente e materialmente o Clube Naval da Horta na captação das Regatas Internacionais, criando um gabinete próprio para o efeito, construindo uma estratégia bem definida, participando nos vários certames internacionais e com isto também procurar ajudar a resolver em definitivo o problema da sede deste importante clube. 

O que o Faial quer é saber se o Senhor Presidente da Câmara vai reunir com a empresa Portos dos Açores e com o Governo dos Açores e estudar a possibilidade de criar um estaleiro Naval na nossa ilha, criando emprego de uma forma direta e indireta, dando desta forma resposta às muitas empresas que trabalham nesta área e sem mínimas condições de laboração.

Compete ao Município travar a desertificação total da nossa ilha, defender-nos dos ataques constantes (nos últimos tempos tem sido uma constante), do bairrismo e das faltas de compromisso para com o Faial. Não queremos um Presidente da Câmara vigilante, queremos uma Câmara atuante, capaz de captar investimento para o Faial, reivindicativa, ativa, que faça o seu papel e que demonstre capacidade de liderança e que sobretudo tenha uma estratégia que conduza a nossa terra a não perder o que a natureza nos ofereceu – O MAR.

Vamos estar vigilantes!

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

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