HUB à vista!

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Há praticamente um ano atrás a ilha do Faial acordava sobressaltada. Em plena campanha eleitoral para as autárquicas, surgia nas redes sociais a notícia que a SATA Internacional (Azores Airlines) tinha alterado a programação de alguns voos Horta/Lisboa/Horta para o período de Inverno, os quais deixavam de ser diretos e passavam a fazer escala na ilha Terceira, começando, assim, a praticar-se nesta rota aquilo que na aviação se designa por voos redondos.
Esta alteração, feita de maneira um pouco encapotada, pôs imediatamente de sobreaviso as forças vivas da ilha, de tal modo que, segundo consta, o, na altura, candidato do Partido Socialista à Presidência do Município ligou para o ex-presidente da SATA dando-lhe conta do que se estava a passar e da urgência em corrigir o problema. Como que por arte e engenho, a programação dos voos da SATA passaram, num ápice, a ser voos diretos da Horta para Lisboa.
Apesar dos constantes contratempos registados pela SATA ao longo deste ano, sobretudo em relação aos voos para o aeroporto da Horta, o que é certo é que, desde aquela altura até à semana passada, nunca mais ninguém tinha ouvido falar da criação de um Hub nos Açores.
Só que bastou a entrada de um novo Presidente na transportadora aérea regional para o assunto voltar à ordem do dia, com este a afirmar em reunião tida com elementos do Grupo do Aeroporto da Horta que o melhor, financeiramente, para a empresa é a criação de um HUB na ilha de São Miguel.
Este Hub funcionaria, em traços muito gerais, como uma plataforma giratória para todos os voos que ligassem o continente português à cidade da Horta e vice-versa, sendo que a ligação a esse Hub, de e para a Horta, seria feita sempre em aviões muito mais pequenos.
Das informações que consegui recolher, esta intenção de retirar à ilha do Faial os voos diretos para Lisboa encontra-se relacionada com a débil situação financeira com que a empresa se depara, e assenta não só numa visão de redução de custos e economia de escala, como também numa tentativa de otimização dos recursos disponíveis.
Este modelo pensado por este gestor da “res publica”, que ainda se encontra no papel, mas que poderá ser colocado em prática, surge como mais uma acha para a fogueira de uma luta que se antevê cada vez mais difícil para os faialenses na tentativa de atenuar o centralismo que o Governo Regional está a tentar impor na Região.
Quando hoje, no continente, se fala em descentralizar serviços e competências do Estado, tendo sido, inclusive, criada para o efeito uma Comissão Independente para a Descentralização, com o objetivo de “desenvolver um programa de desconcentração da localização de entidades e serviços públicos, assegurando coerência na presença do Estado no território”, na Região Autónoma dos Açores caminha-se precisamente em sentido contrário.
Mais centralismo, mais concentração de serviços e competências, mais poder económico-financeiro para uma ilha em detrimento das restantes.
Mesmo parecendo de difícil implementação, quanto mais não seja pelo facto de estarmos a menos de dois anos das eleições legislativas regionais, não deixou de ser estranho o facto de não haver uma única voz a mostrar oposição a essa tentativa de alterar o funcionamento de uma rota que existe há muitos, muitos anos, e que poderá resultar em consequências gravosas para muitos setores económicos da ilha, a começar, desde logo, pelo turismo.
Sem dúvida que é premente repensar o modelo de transporte aéreo existente na Região, adaptando-o à realidade com que os Açores se confrontam atualmente, mas tal não pode pôr em causa a unicidade e coesão territorial que nos deve caraterizar, sob pena de, se assim não for, o HUB de São Miguel será uma realidade a curto prazo.

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