Segundo Ricardo Sousa, esta forte evolução do arrendamento resultou quer dos critérios mais apertados para concessão de crédito, que “tiram muitas famílias do acesso à habitação”, quer da “escassez de oferta de imóveis para aquisição ajustados ao poder de compra dos portugueses”, que motiva “muitas famílias a procurar uma solução temporária de habitação”.
“O grande desafio que vivemos em 2019, e para o qual já vínhamos a alertar em 2018, é este desajuste entre a oferta e a procura, ou seja, a oferta existente não está ajustada àquilo que são as necessidades e capacidades dos portuguesas e em 2019 veio a demonstrar-se essa realidade”, considerou.
Para o administrador da Century 21, impõe-se que os atores do setor imobiliário constatem “o que procuram, o que desejam e o que podem efetivamente adquirir os consumidores nacionais para se criarem soluções de habitação em linha com as expectativas e a capacidade financeira das famílias portuguesas”.
Ainda assim, diz, “há algo que mudou claramente em 2019 e cujo impacto se vai notar em 2020 e 2021”.
“Começámos a ver muitos investidores internacionais a concluírem transações para iniciarem projetos chave para a classe média e média baixa, seja dentro dos próprios centros das cidades, com projetos para Lisboa ou Porto já para este segmento, seja fora. Isto é um processo de transformação que vai obrigar a um diálogo com os vários municípios das duas principais áreas metropolitanas de Lisboa e Porto porque é preciso repensar os PDM [Planos Diretores Municipais]”, sustentou.
“O valor do arrendamento, em diversas regiões, já atingiu o limite da capacidade financeira da maioria das famílias portuguesas”
Na rede Century 21 Portugal, o valor médio de arrendamento no ano passado fixou-se nos 807 euros, recuando 1% de face aos 812 euros de 2018, tendo esta média sido superada nos distritos de Lisboa (1.014 euros), do Porto (868 euros) e de Faro (811 euros).
Para a empresa, “este indicador revela que o valor do arrendamento, em diversas regiões, já atingiu o limite da capacidade financeira da maioria das famílias portuguesas e que apenas os consumidores do segmento médio e médio alto conseguiram aceder às soluções de arrendamento que estão em oferta no mercado”.
Segundo a Century 21, as regiões onde o índice médio de arrendamento mais subiu foram Évora, Açores e Coimbra, seguidas do Porto (com uma subida de 25% nas rendas) e de Lisboa (19,2%). Em sentido inverso, destacou-se Setúbal (onde o valor médio de renda da habitação caiu mais de 32%), a Madeira (com uma quebra superior a 16%) e Braga (onde o recuo foi de 5%).
No que se refere às transações de venda, as habitações mais procuradas pelos portugueses em 2019 foram os apartamentos de tipologias T2 e T3 e o valor médio dos imóveis superou os 147,7 mil euros, mais cerca de 5% face ao valor médio de 140 mil euros de 2018, refletindo o aumento dos preços dos imóveis e o tipo de habitações em oferta no mercado.
Na rede Century 21 Portugal, o segmento nacional registou um peso de 82% no número de transações, destacando-se a Linha de Sintra – Amadora e Sintra – Linha de Cascais e margem sul como as zonas mais dinâmicas.
Viseu, Açores e Faro: as maiores subidas
Os distritos com as subidas médias de preços mais significativas foram Viseu, com um aumento médio superior a 32%, seguido dos Açores, com 25,4%, e Faro, onde o acréscimo no valor médio da habitação foi de cerca de 20%.
Já no distrito de Lisboa a subida foi de 6,39%, com o valor médio das transações a superar os 200 mil euros, enquanto o distrito do Porto registou uma subida mais acentuada, com o valor médio da habitação a subir 9,6% e os imóveis transacionados a rondarem os 136 mil euros.
No sentido inverso, os distritos onde os valores médios de transação registaram evolução negativa foram Santarém, com o preço de venda de casas a baixar mais de 11%, seguido de Braga (-10%) e dos distritos de Leiria e Aveiro (-4%).
Ricardo Sousa explicou que esta evolução dos preços médios de venda por região, com aumentos mais moderados nos distritos de Lisboa e Porto, “indica que a capacidade financeira das famílias portuguesas já não consegue acompanhar a subida de preços da habitação, sobretudo no centro das principais metrópoles do país”.
“É evidente a descentralização da procura para zonas periféricas do centro das duas principais cidades nacionais, que registaram uma forte dinâmica transacional ao longo de 2019. Por outro lado, o aumento da oferta está também a influenciar as tendências de preço nalgumas cidades – como Braga, Santarém, Leiria e Aveiro – que começam a registar uma inversão da trajetória dos valores médios da habitação”, refere o administrador.
No ano passado, o segmento internacional representou cerca de 18% do total das transações da rede Century 21 Portugal (uma quebra residual face aos 19% de 2018), apresentando “uma procura estável, mas a perder peso face ao crescimento da procura doméstica”.
No Porto, os estrangeiros que mais procuraram imóveis foram franceses, brasileiros, israelitas e chineses, assim como turcos e iranianos, preferindo apartamentos T2 entre os 100 mil e os 200 mil euros.
Em Lisboa, os clientes internacionais foram sobretudo de França, Itália, Espanha e Luxemburgo (seguida de perto pelo Brasil, China e países como Bahrain e Nepal), salientando a Century 21, “no segmento europeu, o interesse em imóveis novos e empreendimentos em planta”.
“No caso dos Golden Visas, registou-se uma mudança de paradigma. Inicialmente, a procura estava associada à aquisição de habitações, enquanto em 2019 se verificou maior preferência por lojas e escritórios, para investimento e com rentabilidade imediata, e por valores superiores a 350.000 euros”, nota a empresa.















