Sente-se uma acalmia no ar. Como se a ilha tivesse decretado um feriado editorial, uma trégua, um pequeno milagre de sossego nas páginas deste jornal. Por uns dias, as câmaras de eco políticas ficaram desligadas por aqui. Os comentadores habituais parecem ter ido todos à mesma conferência sobre gestão de silêncio em contexto insular e entraram em campo os suplentes, não vá o espaço ficar vazio.
É interessante esta mini silly season versão outonal. Uma espécie de sonho acordado em que tudo corre bem. Não há guerras, não há inflação, o trânsito flui sem ziguezagues, não há desiguladades, e um estudo prévio já é considerado uma obra concluída. Vivemos, por umas horas, num paraíso ultraperiférico onde até as gaivotas fazem yoga e os gatos dormem sem preocupações existenciais. Só que não!
Ainda assim, há beleza nesta pausa. Nos intervalos do discurso político, o quotidiano volta a ter voz. Olhamos à volta e percebemos que há um Faial inteiro a acontecer. No Mercado da Horta, entre conversas sobre o preço das uvas e o vento que “pica tudo”, na Marina da Horta, onde os velejadores continuam a pintar murais como quem escreve diários de viagem em parede alheia ou nos Capelinhos, onde os casais tiram fotografias ao pôr do sol e fingem que o mundo parou por cinco minutos
O Outono chegou firme, em modo ciclone, com cheiro a terra molhada e telhas partidas. Depois das limpezas e das arrumações há vida a acontecer e momentos para aproveitar, desde cinema e concertos no Teatro Faialense a exposições no Museu da Horta e na Casa Manuel de Arriaga. É nessas coisas simples, que passam despercebidas, que mora também o encanto desta ilha.
E, já agora, não é curioso como o Faial, mesmo pequenino, cabe sempre dentro de grandes conversas? Falamos de sustentabilidade, de igualdade, de futuro e, entre um café e outro, continuamos a discutir o tempo, esse tema que une todas as ideologias. “O tempo está mudando”, diz-se. Está sempre. E nós também andamos sempre a mudar… um bocadinho.
Hoje, porém, não se fala de projetos nem de obras prometidas. Hoje fala-se de fait divers, de pessoas, de mar e de céu. Fala-se de como seria bom se o mundo fosse sempre simples, pacífico e com tudo a funcionar direitinho.
E, mesmo sabendo que depois de amanhã as câmaras de eco voltam a ligar-se, aproveitemos esta raridade.
É que viver num lugar bonito já é meio caminho para manter o espírito leve. O outro meio é saber rir das nossas manias insulares, das promessas que se eternizam em apresentações e das certezas que se desmancham ao primeiro nevoeiro.
Que este intervalo sirva, ao menos, para nos lembrarmos de olhar à volta porque às vezes isso basta para voltarmos a ver o essencial.
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