Investimentos, sustentabilidade e o futuro do Hospital Da Horta

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1. Durante anos e de uma forma transversal na nossa organização político-administrativa, a aparente abundância de meios financeiros fez proliferar o investimento público, o bom e o mau.

Governo Regional, Câmaras Municipais, Empresas, Institutos e Organismos públicos, foram definindo muitos dos seus investimentos em função do calendário eleitoral, dos interesses e das pressões locais, dos modismos, da vaidade de alguns decisores e da permissividade aos mais variados lobbies.

E então se a fonte de financiamento era dinheiros comunitários, aí a ousadia crescia, a dimensão avolumava-se e o impacto dos investimentos acompanhava-as na proporção.

Questionei, há alguns anos, pessoalmente, um membro do Governo Regional sobre se o valor de um determinado investimento não seria excessivo para o efeito esperado e pretendido. A resposta que ele me deu foi esclarecedora: “mas isto é com 85% de verbas comunitárias e é preciso gastá-las”!

Em muitos casos, ao que tudo indica, não terá havido a imprescindível e imperiosa preocupação com a sustentabilidade do investimento, com os custos que a sua manutenção implicaria ou com os próprios encargos de funcionamento. Gastou-se sem olhar ao dia seguinte. Gastou-se numa falsa presunção de uma riqueza que não tínhamos e com o deslumbramento do novo-riquismo provinciano.

O resultado é este (e cito parte do “Editorial” do Diário Insular de 20 de Junho passado): “Agora que já passou algum tempo sobre a inauguração do novo hospital da Terceira, começa a desvanecer-se a euforia e o deslumbramento que sempre rodeia tudo o que é novo e grande e a realidade, qual nevoeiro de S. João, começa a baixar-se e a colocar-se ao quotidiano.

A ideia geral que fica é clara: parece que estamos na América! As condições de trabalho são incomparavelmente melhores, o pessoal parece mais motivado, os utentes ficam com boa impressão do atendimento. Então o porquê desta nota?

É que cada vez que lá entramos, e percorremos quilómetros de corredores e abrimos centenas de portas, e recebemos no rosto aquele ar fresquinho do ar condicionado…nos assalta a angústia de onde virá o dinheiro para pagar tudo aquilo. Nem sequer nos referimos à obra em si, que essa é para liquidar a prestações e a perder de vista, desde que não comprometa o essencial que é os cuidados de saúde. Falamos do manter o dia-a-dia de toda aquela imensidão em bom estado e a trabalhar, sem que faltem medicamentos, materiais e equipamentos.”

2. A questão que o editorialista coloca tem toda a pertinência não só numa perspetiva global, como especialmente para o caso em particular daquele investimento na área da saúde.

Como podemos acreditar que o Governo Regional será capaz de sustentar financeiramente este e outros investimentos se ele próprio neste momento já não consegue pagar atempadamente aos seus fornecedores?

Como podemos acreditar na sustentabilidade destes investimentos se todos os dias são públicas e notórias as notícias de graves constrangimentos nas unidades de saúde da nossa Região?

Falar a verdade é sempre uma virtude inquestionável! 

Falar a verdade aos Açorianos sobre a situação da Saúde na Região é um imperativo ético e moral que se exige a um Governo Regional que, infelizmente, se revela estar mais preocupado com as eleições do que com o futuro dos Açorianos.

3. Tive conhecimento de alguns números do Hospital da Horta sobre os quais importa refletir. Entre eles, este facto chamou-me a atenção: o número de médicos é de cerca de 32, dos quais quase 90% têm mais de 50 anos!

Sabendo-se o tempo de formação exigido aos médicos; conhecendo-se as dificuldades que hospitais com as características do nosso têm em atrair profissionais médicos; e conhecendo-se os números anteriores, impõe-se com urgência uma agressiva política de recrutamento de pessoal médico jovem para o nosso Hospital que o viabilize e lhe garanta a manutenção e o reforço não só das suas especialidades, mas também do papel que lhe cabe no sistema regional de saúde.

E esta preocupação não se pode resumir a ser uma preocupação do seu Conselho de Administração. Claro que deve ser deste órgão, logo em primeiro plano. Mas, exige-se que ele conte com o apoio e o enquadramento das opções políticas governamentais que facilitem e discriminem positivamente quem está mais distante e quem, por isso, é menos atrativo profissionalmente. E exige-se de toda esta nossa comunidade e das suas forças vivas, discernimento, empenho e apoio efetivo neste que me parece ser um desiderato fundamental para o futuro do nosso Hospital.

 

 

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