Laranja sem pinga de sumo

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A entrevista que a drª Berta Cabral deu ao Diário Insular é bem reveladora da sua incapacidade para liderar um projeto regional com a consistência e a lucidez que têm sido conduzidas pelo Partido Socialista. Vai ficando cada vez mais evidente a distância que separa o perfil dos dois candidatos, com nítida vantagem para o dr. Vasco Cordeiro. Dessa entrevista registo os seguintes comentários:

1 – A candidata anda obcecada com a palavra novidade, apresentando-se, logicamente, como a portadora da mudança para a região. Na sua boca, o reino da felicidade chegaria em Outubro, caso fosse eleita. Todavia, quando lemos as suas propostas o que sobressai é a falta de imaginação ou um excesso de fantasia que descamba para o surreal.  

2 – Nesta intervenção confirma-se que o dom da palavra, ou da escrita, não bafejou a entrevistada. Daí não advém qualquer mal ao mundo, mas para quem se quer abalançar a cargos mais elevados os raciocínios são pouco claros e bem reveladores da falta de preparação nas áreas mais diversas. 

3 – O discurso caracteriza-se por uma frequente falta de nexo. Há um conjunto de chavões que foram colocados numa cábula, que a candidata procura reproduzir insistentemente; essas frases feitas irão ser apregoadas nos próximos meses, para atingir o eleitorado das mais variadas camadas, mas são tão artificiais que não convencem nem transmitem qualquer confiança.

4 – Ao longo da entrevista, a candidata tem soluções para tudo, para todos e as promessas surgem a cada esquina. Parece que aprendeu bem a lição do prometório com o amigo Passos Coelho. Este, depois de ganhar as eleições, entrou num mar de contradições que já deram azo às mais variadas anedotas e o descrédito tem sido notório na imprensa, a cada dia que passa. Não duvido que os açorianos irão ter o bom senso de evitar o descalabro, rejeitando um governo regional nas mãos do PSD/A. 

5 – A grande descoberta da drª Berta Cabral foi a “invenção” do conceito de Região Económica. Para uma pessoa licenciada em económicas, é de ficar banzado com a simplicidade das suas ideias neste capítulo. É preciso ter um completo desconhecimento da nossa história e da nossa realidade no presente para avançar com propostas semelhantes. A não ser que a drª Berta Cabral queira retomar as doutrinas dirigistas de Salazar e ressuscitar os Planos de Fomento e as Comissões Reguladoras, que restringiam a margem de liberdade na produção e na comercialização. O resultado foi o que se viu: um país fechado sobre si próprio, cada vez mais pobre e enfraquecido. 

No presente, numa época de livre circulação de mercadorias, a drª Berta Cabral pretende reter a produção na região e fazê-la circular entre as ilhas, fomentando a autosubsistência. A lógica do seu pensamento assemelha-se muito à do merceeiro, com o seu lápis atrás da orelha a registar os míseros tostões que lhe caem no fundo da gaveta. E o delírio continua com a proposta dos ferries para levar produtos frescos de ilha para ilha, com ligações diárias entre todas as ilhas do Grupo Central e São Miguel.  

“Construir a região económica”, foi afirmado como sendo um novo paradigma que, por si só, representaria uma grande mudança. Disso não tenho dúvidas: uma mudança para pior, uma mudança para aumentar as desigualdades internas. Basta conhecer um pouco da nossa história económica para perceber que a prosperidade destas ilhas esteve ligada ao mercado externo, continental ou europeu, donde provêm as maiores receitas. É evidente que as trocas internas devem continuar a ser estimuladas, mas essa não é a solução ou a prioridade para a nossa economia, como toda a gente percebe.

 Em suma: com os paradigmas da drª Berta Cabral não vamos longe. Se ela chegasse ao governo, o que teríamos era um futuro de “apagada e vil tristeza”, como dizia o poeta. As ideias que expressou naquela entrevista não permitem outra conclusão. 

 

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