MANUEL DE FREITAS MARTINS TRIGUEIRO (1860-1940)Empresário, editor e jornalista na Califórnia

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Nasceu no lugar da Fazenda, que no tempo pertencia à freguesia e concelho de Lajes das Flores, em 15 de outubro de 1860. Descendente de uma das famílias mais antigas das Flores, era filho de Francisco José Trigueiro e de Maria de Freitas Trigueiro.

Teve vários irmãos, entre os quais se distinguiram: Félix de Freitas Trigueiro*, que também figura deste trabalho, considerado “o pena de ouro da Califórnia”; e José de Freitas Trigueiro*, que viveu na referida localidade da Fazenda, possuidor de excelente cultura para o meio e dotado de distinta personalidade, tendo exercido diversas funções públicas, entre as quais a de Presidente da Câmara Municipal de Lajes das Flores e de Presidente da Direção da Cooperativa de Lacticínios da Fazenda.

Manuel de Freitas Trigueiro frequentou o ensino primário da sua freguesia natal, na qual permaneceu até à idade de 16 anos, idade em que realizou o sonho dourado de todos os jovens florentinos dessa época – emigrar para os Estados Unidos da América.

Chegou à Califórnia, em 1876, para onde se dirigia a maioria da emigração florentina desse tempo, entregando-se, sem hesitar, aos trabalhos mais humildes do campo, onde então podia facilmente obter serviço remunerado.

As horas que outros jovens normalmente desperdiçam ou destinam a passatempos inúteis de qualquer ordem, empregava-as no seu aperfeiçoamento intelectual, entregando-se à aprendizagem da língua inglesa e ao estudo e à leitura de livros e jornais de língua portuguesa e inglesa. Nascera e crescera com a ânsia de aprender e de saber mais e sempre mais, ajudado por uma inteligência privilegiada que o acompanhou até ao fim da vida.

 

O seu interesse pela leitura levou-o ao comércio de livros, sobretudo de livros de língua portuguesa, que inicialmente estabeleceu no seu quarto de cama, situado nos arredores de San Francisco, para assim servir a comunidade e realizar algumas economias, constituindo-se, deste modo, como importante livreiro-amador.

Seguidamente, estabelecendo-se noutras instalações na mesma cidade e, em 1885, fundou com António Maria Vicente (outro florentino natural dos Cedros das Flores), o semanário “Progresso Califor-niense”, que viria a ter curta duração, por desinteligências entre os dois sócios.

Devido a esses desentendimentos, retirou-se da empresa e empregou-se na lavandaria “United States Laundry”, sita na Rua 16, próximo de Valencia, San Francisco.

Mas, em setembro de 1887, apoiado financeiramente por outros sócios da comunidade portuguesa, funda nessa cidade o semanário “A União Portuguesa”, sendo então o seu editor. Como a empresa estava a entrar numa situação económica difícil, em 1888, deixou a lavandaria onde trabalhava e abalançou-se com coragem e energia, sob a sua direcção e propriedade, à compra da empresa. Esta logo começou a ficar com uma situação económica estável de crescimento sustentado, apesar dos difíceis acidentes de percurso por que passou.

Em 18 de abril de 1906, dia em que ocorreu o grande sismo de San Francisco, que foi um horroroso cataclismo que destruiu por completo essa cidade, transferiu a sua residência para Oakland. Essa semana foi a única em que o jornal “A União Portuguesa”, que perdeu todo o seu material tipográfico e equipamento, não se publicou. Na semana seguinte, já então instalado na cidade do Oakland, o referido jornal foi publicado e chegou a casa de todos os seus assinantes, com a ajuda do seu prezado amigo Joaquim Menezes, natural da Terceira, proprietário e redator do antigo “Arauto”.A partir de então, o jornal “A União Portuguesa” passou a ser publicado em Oakland, onde permaneceu até à data do seu encerramento em 13 de julho de 1942, cerca de dois anos depois do seu falecimento.

Mas, tanto na redação, como nas oficinas tipográficas, as dificuldades do jornal não faltaram. Tempos houve em que o seu proprietário se viu obrigado a fazer sozinho o jornal, por não ter redatores nem tipógrafos. Nem nessa terrível situação se deixou dominar pelo desânimo, e, trabalhando dia e noite, denodadamente, com perseverança fora do comum, pôde vencer. Assim, enquanto a sua saúde o permitiu, passando por momentos muitos difíceis, conseguiu solidamente a manutenção do jornal por mais de 50 anos.

Nas vésperas das comemorações do seu “Jubileu de Ouro”, em 1937, a regularidade do jornal “A União Portuguesa” esteve novamente ameaçada, devido a um pavoroso incêndio, desta vez de origem desconhecida. E, mais uma vez, atuou a boa colaboração jornalística conferida pelo seu grande amigo, o poeta e jornalista Guilherme S. Glória, natural da ilha do Pico que, ao ter conhecimento da lamentável situação, logo pôs gratuitamente à disposição incondicional do jornal “A União Portuguesa” as suas oficinas, os respetivos materiais e equipamentos.

Vencida mais essa dificuldade, o jornal comemorou essa data com um extenso e bem elaborado número, em que colaboraram muitos dos seus amigos, historiando o essencial da sua prestigiada vida ativa junto da comunidade portuguesa, designadamente da Califórnia. Trata-se de um número que mantemos em arquivo um exemplar, gentilmente oferecido pelo meu amigo Sr. Carlos Almeida, Secre-tário Permanente da UPEC, em San Leandro, quando ali vistamos a sua Biblioteca, em 1984. 

Do artigo escrito nessa edição por outro excelente jornalista florentino, Pedro L. C. Silveira, fundador do “Jornal Português”, da Califórnia, transcreve-se o seguinte excerto: “eu quero, ao rematar este despretencioso mas sincero artigo, apresentar as minhas cordiais felicitações pelo quinquagésimo aniversário da “União Portuguesa”, fazendo ardentes votos pelas suas prosperidades e pelo completo restabelecimento do seu digno e honrado proprietário, Sr. Manuel de Freitas Martins Trigueiro”.1 Refira-se que Pedro L. C. da Silveira era tio do ilustre poeta florentino Pedro da Silveira.

Manuel de Freitas Trigueiro exerceu a edição e a administração do jornal, mantendo sempre a mais estreita e sincera amizade com todos os seus trabalhadores e demais colaboradores, sem jamais cometer um ato que o desdoirasse.

Além de possuir um coração generoso, era um bom português, pelo que se impunha ao respeito e à estima de todos os que o conheciam. Os seus serviços e a sua bolsa não se faziam esperar onde quer que fossem necessários, evidenciando sempre a nobreza de carácter e magnificência na ação.

Dos seus diversos redatores e colaboradores, salientam-se Félix Trigueiro (seu irmão), e Mário Bettencourt da Câmara. Foi precisamente este último, distinto e vigoroso jornalista, que deu maior vida e dignidade ao jornal “A União Portu-guesa”, servindo-se da sua pena potente, tornando-o bastante popular e conhecido na Califórnia.

É evidente que, durante a publicação do jornal, Manuel de Freitas Trigueiro sofreu alguns desgostos, devido à inserção de certos artigos que ofendiam suscetibilidades de várias personalidades..

No campo social foi membro de várias associações culturais, religiosas e económicas da Califórnia, tendo nelas exercido funções diretivas. Também participou em diversas comissões e reuniões onde se tratavam assuntos de interesse para a comunidade portuguesa daquele Estado.

Além de proprietário do jornal “A União Portuguesa”, Manuel de Freitas Trigueiro possuiu uma livraria na cidade de San Francisco até 1906, a qual seguidamente passou, tal como aconteceu com o jornal, para a cidade de Oakland. 

O seu falecimento ocorreu a 5 de janeiro de 1940, na cidade de Oakland. Foi casado com Louisa Silveira Trigueiro, filha de pais portugueses, naturais das Flores, cujo casamento se realizou em 25 de maio de 1895, tendo havido desse enlace quatro filhas: Ângela Trigueiro, Louise Trigueiro Traynor, Mabel Trigueiro Alford e Marie Trigueiro (filha adotiva).

Depois da sua morte, a administração das suas empresas esteve a cargo da esposa e das filhas, as quais, apesar das suas vidas particulares, contando com a ajuda do tio Félix Trigueiro, conseguiram manter a pontualidade do jornal, sem desmerecer o seu anterior conceito público.

Sempre disponível para auxiliar os emigrantes portugueses, bem como a ajudar as instituições, ele e o seu jornal contribuíram para muitíssimas subscrições e para outras ajudas de diversificadas espécies. A esse propósito, na edição comemorativa das “Bodas de Ouro” do “Jornal Português”, Mário Bettencourt da Câmara, seu jornalista durante vários anos, escreveu a seu respeito “a coleção da “União Portuguesa”, arquiva a história da obra filantrópica do sr. Manuel de Freitas Martins Trigueiro, que constitui a mais valiosa herança de seus filhos”2 Desses contributos salientam-se as ajudas para a construção de igreja, para a aquisição do instrumental do grupo coral e da Filarmónica da Fazenda.

Manuel de Freitas Trigueiro notabilizou-se, sobretudo, pela sua inteligência, pelo seu trabalho e pela sua honestidade, merecendo assim o respeito e admiração de todos os que com ele lidaram ou conheceram a sua obra. Para melhor conhecimento da sua obra e da sua personalidade, consulte-se a bibliografia à margem indicada. 

 

BIBL: “Florentinos que se distinguiram”, 2004, p. 97, ed. da C. M. de Lajes das Flores, de José Arlindo Armas Trigueiro; Jornal “A União Portuguesa”, Califórnia, edição comemorativa das suas “bodas de ouro”, 1887-1937, de 28-3-1938; “Jornal Português”, Califórnia, extensa edição comemorativa das suas “bodas de ouro” 1888-1938; Jornal “A União Portuguesa”, Califórnia, de 8 e 15-1-1940; Jornal “Correio da Horta”, 24-12-1984; Trigueiro, José Arlindo Armas, “Fazenda das Flores, Um Século de Sucesso (1900-2000)”, (2008), pp. 219, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores”.  

(1) – Jornal “A União Portuguesa”, pág. 3, edição especial de 1887-1937, de 28-3-1938.

(2) – “Jornal Português”, pág. 85, edição especial de 1888-1938. 

 

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