Eles surgem pelas madrugadas, naquele cais, tranquilos, bem dispostos como para assistir a um qualquer evento simpático. São os marinheiros do canal.
Em dias de tempo agreste, o semblante não se modifica. O mar alteroso, surge, feito um danado. Sem compaixão. Os passageiros vão chegando, carregando cada qual seus problemas, suas emoções. Sussuram previsões, queixas, temores, blasfémias, que se confundem com o silêncio daqueles homens, para quem o mar é o seu chão, o seu trabalho, o amigo que os aguarda e lhes dá segurança.
E, enquanto cada passageiro ferve num caldeirão de problemas e interrogações, eles aplicam seus métodos paliativos para os acalmar. Aprendidos na escola da vida.
Como eu admiro os marinheiros! Para mim, são uns gigantes, poderosos, corajosos, uns heróis! Os Bartolomeus do canal. Enfrentam Cabos das Tormentas, mandam sorrisos aos Adamastores, tratam os Magalhães por tu, enviam um adeus a Poseidon e aportam à outra ilha. Naturalmente. É o máximo.
E, eu que nunca me perdi de amores pelo mar, por quem tenho um medo atávico, irracional, sem ser fóbico , fico pensando nos velhos tempos de estudante. Viagens difíceis, de calhetas e espalamacas, não Madalenas, mas Calhaus, São Mateus e Praínhas, de Gilbertos e Caetanos, gritos, vómitos, rezas, enfim… Imagens pré-históricas! Em barcos pré-históricos ! E eu sofrendo como um cachorro !
Séculos passados, continuo com os meus medos. Meio encapotados. Medos e rugas não casam bem. Mas aqueles cheiros d´então quase sólidos de tão densos ainda estão vivos. E lá vou embarcando com coragem. À minha disposição um braço, uma mão, prontos a auxiliar. Num ápice me encontro dentro de um barco pintado de verde, sobre um mar pintado de azul, na calmaria, toda uma vida! Por vezes vontade de fugir com vontade de ficar. Então, fechando bem os olhos, vislumbro umas asas. Asas d´anjo. Sim, marinheiro tem asas. Todo o anjo tem asas. Sem discussões. E ao desembarcar lanço um último olhar no vagar do carinho.
A história repete-se. Agora como dantes. Por atavismo, provávelmente. E, num tempo futuro, que já não o meu, os marinheiros usarão o mesmo carinho e respeito para com o próximo e para a evolução, porque, em tese, significam a mesma coisa – amor, poesia, conquista, avanço, futuro. E, as pessoas especiais desse futuro saberão agradecer a cada nova viagem.
Quantas vezes se fica relutante em aceitar, como reais, cenas vistas naqueles cais. Parecem saídas dum filme, encenadas num mundo caótico que brinca com o real das pessoas, sem querer. Falo do transporte dos doentes, que os marinheiros fazem com a maior delicadeza, formando assim parte duma equipa que, transportando-os à outra ilha, lhes inicia o ato primeiro direcionado à possível cura ! E, em dias de mau tempo, olhando o esforço daqueles homens, fazemos deles figurantes de mais um drama, mais uma manchete, uma imagem de arquivo!
Obrigada, Marinheiros, pela entrega diária de vossas preciosas “delicadezas da vida”











