Meninas ambicionam jogar futebol profissional

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Algumas meninas não querem saber de brincar com bonecas, querem é jogar futebol a todo o custo, mesmo que tenham de jogar em equipas mistas para poder tornar o sonho de jogar futebol profissional em realidade.
É verdade que jogam todos dentro das mesmas quatro linhas, com regras iguais, com uma bola do mesmo tamanho, e com o objectivo de a meter na baliza mais vezes que o adversário, mas, quer queiramos quer não, chegando a uma certa idade as diferenças físicas entre atletas começam a ser mais visíveis e as dificuldades mais acentuadas.
Apesar do desnível, não há volta a dar, os atletas que teimam em atingir o mais alto nível de competência tem de se debater com a diferença de velocidade, força e grau de intensidade de colegas e adversários. Dentro desta realidade em que o campo pareça inclinado de forma desfavorável, há vários atletas que vão trepando pelos campos do Faial e Pico com grande naturalidade.
Daniela Santos, centrocampista de 13 anos, é capitã dos Iniciados do Prainha Futebol Clube (Pico); Juliana Matos, centrocampista de 12 anos, é considerada a pensadora dos Infantis do Futebol Clube dos Flamengos (Faial); Inês Goulart, defesa de 11 anos do Grupo Desportivo Cedrense (Faial), é mais conhecida pela sua agressividade e intensidade.
A própria Inês diz que procura entrar no jogo sempre concentrada e “se vierem aos empurrões e agarrar a camisa também vão-se dar mal”, porque está preparada para jogar de igual por igual e se “a bola passa, o jogador não”.
Como podem ver, todas elas tem características e maneiras diferentes de estar em campo, mas são todas adeptas do Sport Lisboa e Benfica e partilham o mesmo desejo de jogar futebol ao mais alto nível.
“Ela nunca gostou de brincar com bonecas e nada dessas coisas”, disse Elviro Manuel Bettencourt dos Santos, pai da Daniela. “Ela quer é jogar à bola. Gosta de desporto. Usa os dois pés. E é capaz de jogar horas contra uma parede para aperfeiçoar o pé esquerdo”.
“É uma atleta exemplar”, é assim que Paulo Pereira, treinador do Prainha FC, descreve a Daniela. “É a atleta mais completa da minha equipa. Como pessoa é exemplar. É a minha ajudante. É persistente e tem boas notas”.
Em dois jogos contra o FC dos Flamengos a Daniela executou bons passes, fez boas decisões e procurou puxar pelos colegas, levou várias caneladas, mas nunca deixou de meter o pé e disputou sempre a bola sem nunca virar a cara à luta. A Inês é a mais jovem destas meninas, mas, segundo a opinião de alguns treinadores, é a jogadora que mais vai ao choque e a mais dura na disputa da bola. No caso da Juliana, uma jogadora que se destaca por fazer passes de qualidade, pela sua boa capacidade de finta e decisiva, os treinadores realçam o seu grande desejo para aprender.
“É uma jogadora que qualquer treinador quer ter”, disse Wilson Sousa, treinador dos Infantis do FC dos Flamengos. “Está sempre pronta para aprender. Nunca reclama. E é assídua aos treinos.”
Excepto a Daniela, nenhuma destas meninas jogou com outras meninas. A Daniela joga com a Mariana Fraga ao seu lado, mas o resto do plantel é completo por meninos.
“É sempre bom partilhar o balneário com raparigas e puder ter conversas de raparigas”, adiantou a Daniela. “É sempre bom ter ideias femininas”.
A situação do Prainha é uma excepção por estes lados. No caso do FC dos Flamengos que tem duas equipas de infantis a Juliana joga numa e a Damiana Silva Ávila joga na outra. Como são poucas as meninas a jogar futebol, seria muito difícil ou quase impossível criar uma liga feminina. Todas estas meninas dizem que jogar numa liga feminina seria o ideal, mas como isso não parece ser viável nos próximos tempos, elas admitem que preferem mesmo jogar com os meninos que ficar fora dos relvados.
“Preferia jogar com raparigas”, disse Daniela. “Gostava de ter essa sensação se possível, mas antes jogar com rapazes que estar parada. O meu grande sonho é jogar noutro patamar.”
Esta ambição é partilhada por todas estas meninas, mas se subir de nível é difícil nos nossos meios, jogar para além do escalão de juvenis é impossível porque a Associação de Futebol da Horta não aceita equipas mistas por imposição de regulamentos da Federação Portuguesa de Futebol. Embora elas expressem a vontade de ir para o Continente tentar encaixar numa equipa feminina, e alguns pais estejam disponíveis para dar-lhes essa oportunidade, isso implica separarem-se da família e engatar numa equipa com condições para as alojar e supervisionar, algo muito difícil de conseguir.
O que ainda não custa nada é sonhar, e já que é gratuito, aproveitem para sonhar bem alto. E com persistência e apoio quem sabe se um dia as vemos na televisão a jogar na liga profissional.

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