Meridiano 28, de Joel Neto, ou os Açores nas rotas transatlânticas

0
18
TI

“E a Horta era o rosto ancorado da civilização!
Era a mais alegre, a maior cidade pequena do mundo”.

                                                                                                          Pedro da Silveira, Horta: quase réquiem

Cavaleiro andante por amor à literatura, caçador furtivo de memórias e escritor em trânsito por várias linguagens, Joel Neto continua a surpreender e a surpreender-nos, ele que, persistente e incansável trabalhador da palavra, habita a palavra e é por ela habitado (na perspetiva de Heidegger). Move-lhe a vontade de desocultar o passado e iluminar o presente, pois que escrever sobre o passado será sempre uma proposta de futuro.
Desta vez o seu cometimento literário tem por título Meridiano 28 (Cultura Editora, 2018), passados que foram três anos sobre o lançamento de Arquipélago (Marcador, 2015) e dois sobre a edição de A vida no Campo (Marcador, 2016).
É sabido que não há literatura sem geografia. E não é escritor aquele que escreve certas coisas, mas aquele que escolheu dizê-las de um certo modo. Com 12 títulos já publicados e encetando um diálogo permanente com o tempo, Joel Neto continua a fixar a geografia humana, física e afetiva dos Açores, projetando-os em espaços universais.
Agora, com Meridiano 28, o autor recria, através da ficção, a centralidade das ilhas São Miguel, Terceira, com especial destaque para o Faial, dada a relevância do porto da Horta, num tempo em que esta cidade era um centro de telecomunicações à escala mundial.
Utilizada como base naval durante as duas Guerras Mundiais, a Horta, cidade portuária, serviu de nó de amarração de Cabos Telegráficos Submarinos, entre 1893 e o primeiro quartel do século passado, e foi porto de acolhimento e descanso da marinhagem, local de reabastecimento de frotas, lugar de chegadas e partidas. A sua baía serviu de plataforma à realização de experiências que então visavam alcançar avanços (pioneiros) na aviação. Seguiram-se voos regulares transatlânticos numa operação que se prolongou entre 1939 e 1945, com especial relevo para a amaragem dos vistosos hidroaviões Clippers da Pan American, que asseguravam ligações regulares entre a Europa e a América do Norte e que à Horta trouxeram modernidade e cosmopolitismo. Naquele que foi o primeiro aeroporto (marítimo) internacional dos Açores, desembarcaram famosos milionários, banqueiros, homens de negócios, estadistas, industriais, aristocratas, refugiados de guerra, músicos, cantores, estrelas de cinema…
Joel Neto humaniza a Horta dessa época, dando-nos um notável e minucioso enquadramento histórico sobre a cidade, o seu quotidiano e a sua azáfama marítima, com especial enfoque para as vivências das comunidades inglesa e alemã que, apesar de inimigos da Guerra em curso (“lá longe”), coabitavam, no Faial, em inocente concórdia e estranha harmonia. E em paz se mantiveram durante mais 3 anos. Esse foi o tempo de uma Horta culta e ilustrada, que se habituou a ver centenas de navios mercantes e de guerra ancorados na sua baía, e a escutar o ronco das “fortalezas voadoras” (flying boats)… O tempo em que os telegrafistas discutiam, no Café Sport, no Internacional e no Volga, o que se passava na frente do conflito armado que pôs o mundo em convulsão. O tempo de banhistas em maillot nas praias de Santa Cruz e Porto Pim, dos piqueniques na Caldeira, dos disputados Jogos do Cabo, dos passeios ao Monte da Guia, dos garden parties e outras festas, dos bailes na Sociedade Amor da Pátria e no Fayal Sport, das notícias de “O Telégrafo”, da prática do tennis, do croquet, do bridge… Por via da influência estrangeiras, que alterou o ritmo pachorrento da comunidade faialense e animou a vida social integrando a elite local, a Horta modernizava-se, dando-se ares de jovem civilizada e cosmopolita…
A ação de Meridiano 28 desvia-se para cidades como Nova Iorque e Porto Alegre, Friburgo, Praga e Bristol. O centro da intriga deambula entre a Lisboa contemporânea e a Horta dos anos 40. A figura central do livro é o lisboeta José Filemon Marques, informático e fundador de “Palavra Profunda”, um portal de citações literárias. Na semana em que leva a cremar o seu tio, Hansi Abke, seu último familiar vivo, recebe a inesperada visita de um misterioso americano (“com aspecto de Morgan Freeman”), que pretende convencê-lo a investigar o passado do tio. Este fora um homem de errâncias pelo mundo, com um percurso que teve o seu epicentro na ilha do Faial dos anos 50, tendo crescido no ambiente da Horta acima referido. Segue-se uma demanda em torno do velho falecido, com o narrador a recorrer a sucessivas analepses, digo, cinematográficos flashbacks.
Sempre com belíssima música a ecoar em fundo, todo o romance é uma viagem por alguns dos acontecimentos mais marcantes do século XX, nomeadamente a II Guerra Mundial e o seu impacto na ilha do Faial, dando disso conta os escritos de Hansi, transcritos em forma de diário (“Relatório de Observações”).
Mais do que uma história que fala da possibilidade de um agente nazi ter-se escondido nos Açores consumada a derrota de Hitler, este é, acima de tudo, um livro sobre as relações humanas. Por exemplo, a bonita amizade que une Hansi a Roy; a grandeza que há no amor entre José Filemon e Alice; ou a bela e arrebatadora história de amor (inventada) entre Hansi e Kathryn.
Escrito em bom vernáculo e com sóbria fluidez narrativa, mergulhando fundo no imaginário açoriano, Meridiano 28 organiza-se e articula-se em polifonia narrativa, sendo atravessado por uma vastíssima galeria de personagens (incluindo o cão Winston) que Joel Neto, com penetrante argúcia, vai modelando, dando-lhes consistência e fundura psicológica. Não fosse a literatura uma procura do sentido da vida e uma interrogação do homem no mundo.
Há, na escrita deste autor, a aguda sensibilidade de uma imaginação criadora, capacidade narrativa, eficácia descritiva e uma indiscutível qualidade literária. Escritor da condição humana, solidário e fraterno, Joel é cada vez mais um escritor indispensável. 

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO