Monsenhor Leal Furtado, apóstolo e benemérito

0
18

Nasceu na freguesia de Castelo Branco, da ilha do Faial, em 5 de Junho de 1892, o Padre Augusto Leal Furtado que em terras da América do Norte se viria a revelar um clérigo ilustre, um benemérito virtuoso e um jornalista de garra.
Baptizado três dias após o nascimento, como se pode verificar no respectivo Livro de Registos daquela paróquia, ali se lê que era “filho legítimo de António Silveira Furtado, agricultor, natural da freguesia da Praia do Norte, deste mesmo concelho, e de Maria Emília Leal, de ocupação doméstica, natural, recebidos e moradores nesta freguesia no lugar do Jogo; neto paterno de João Silveira Furtado e de Maria Amélia da Silveira e materno de João Francisco Leal e de Maria Emília Leal. Foi padrinho Manuel Sabino Coelho de Magalhães Júnior, casado, negociante, e madrinha Aurora Lima, solteira, de ocupação doméstica, ambos naturais e moradores na cidade da Horta”.
Tendo-se-lhe despontado a vocação para o sacerdócio, ingressou no Seminário de Angra, onde foi aluno distinto.
Recebeu a ordenação sacerdotal a 7 de Junho de 1917, com 25 anos de idade.
Após haver sido professor no seminário diocesano, seguiria em 1921 para os Estados Unidos, a convite do Bispo Daniel Feehan, tendo servido nas igrejas de São João Baptista e da Imaculada Conceição, em New Bedford.
Em 1928, foi-lhe confiada a tarefa de estabelecer a paróquia de São João de Deus, em Somerset, próximo de Fall River. Graças ao seu fervor e tenacidade, o Padre Augusto Leal Furtado viu o novo templo ficar construído dois anos depois e ser sagrado em Setembro de 1930 pelo Bispo James Cassidy.
Nas quatro décadas seguintes ali exerceu, de forma superior o seu múnus sacerdotal, pois, como escreveu o insigne Padre Alves Correia, “ninguém mais do que ele contribuiu para que se não apagasse na América o apostolado conduzido por mãos e por almas de portugueses” .
Avultados foram também os auxílios materiais que o Padre Leal Furtado distribuiu evangelicamente por instituições católicas, sacerdotes inválidos ou doentes, seminaristas necessitados, pobres e excluídos.
Na sua ilha natal, e também entre muitos imigrantes açorianos, era familiarmente tratado por “Padre Chã”, a quem tantos recorreram quando, na sequência da tragédia do Vulcão dos Capelinhos, se viram forçados a procurar em terras da América o sustento para si e para os seus que aqui não conseguiam.
Quando, em 1965, a selecção de futebol da Horta se deslocou aos Estados Unidos, alguns dos que integravam essa comitiva tiveram o privilégio de privar com aquele distinto sacerdote e de testemunhar o bem que fazia e o apreço e gratidão que lhe tributavam. Membro dessa comitiva e já conhecido do Padre Leal Furtado aquando das suas visitas a Castelo Branco – que cultivava amizade firme com meus irmãos mais velhos – fui, a convite dele, passar um fim-de-semana na residência paroquial de Somerset. Acompanhei-o então em várias visitas a instituições existentes na sua comunidade e a algumas famílias portuguesas e americanas o que me permitiu constatar a estima e o respeito que lhe dedicavam. Vivia de tal modo o seu sonho americano que, generosamente, se dispunha a responsabilizar-se financeiramente por jovens açorianos irem estudar para os Estados Unidos. Também fui “aliciado”, mas razões de natureza estritamente pessoal e eminentes obrigações militares, impediram que aceitasse esse convite.
Em 24 de Setembro de 1964, o Papa Paulo VI distinguiu-o com a dignidade de Prelado Doméstico, passando, portanto, a usar a designação de Monsenhor.
Três anos depois, em 30 de Abril de 1967, comemorou as bodas de ouro da sua ordenação sacerdotal, com missa solene na igreja de São João de Deus, de Somerset, em que participaram muitos paroquianos, colegas, e amigos, entre os quais se destacava o Arcebispo de Goa e Patriarca das Índias Orientais, D. José Vieira Alvernaz.
Monsenhor Leal Furtado foi também jornalista, tendo alcançado “invulgar audiência” nas “Novidades” de Fall River, de que foi director, em “A União”, de Angra, no “Correio dos Açores” de Ponta Delgada, e na “Voz”, de Lisboa. Tem interesse a transcrição do sugestivo perfil que dele traçou, no “Correio dos Açores”, o jornalista Padre Dinis da Luz: “O seu nome é conhecido pelas suas crónicas jornalísticas, vibrantes, apaixonadas, onde se chama as coisas pelo seu nome. A sua figura impõe-se. Admiro a sua alegria, o seu realismo, o seu optimismo, o seu entusiasmo por tudo o que é humano e sacerdotal, o seu gosto de tratar com as pessoas, o seu afecto ao próximo, o seu espírito fulgurante. É um espírito e um coração aberto para os problemas e aspirações do nosso tempo. Lá longe, na América, acompanha a vida portuguesa, ansioso de livros – os nossos livros – atento às tendências do nosso País. E é um mestre nas questões da vida americana, sobre a qual tem ideias assentes, conhecedor das grandezas e misérias americanas, familiar com os políticos e as lutas partidárias – sempre com entusiasmo e nunca com rancor nem sequer azedume” . Culto e generoso, cheio de vitalidade e de energia, Monsenhor Leal Furtado soube dignificar na América a sua Terra e o seu País, tendo sido sempre um guia e um defensor acérrimo dos que mais necessitavam, em especial dos imigrantes portugueses.
Foi este virtuoso sacerdote, um dos mais ilustrados albicastrenses cuja vida e obra não se pode esquecer, que a morte surpreendeu em 11 de Junho de 1973, aos 81 anos de idade.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

 

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO