NO CESTO DA GÁVEA – A ASCENÇÃO DE TRUMP

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Os resultados das eleições nos Estados Unidos da América, do passado dia 8/11, geraram surpresa, estupefação e até medo, em largas faixas da população mundial.

Assistimos a uma longa campanha eleitoral, marcada por um nível comportamental e de conteúdo muito baixo, não raras vezes reles, onde os principais valores ligados à democracia e à dignidade do ser humano estiveram dramaticamente ausentes ou foram mesmo muitas vezes negados.

Donald Trump, agora Presidente Eleito do EUA, protagonizou, com as suas propostas, com o seu comportamento provocatório e agressivo, com as suas mentiras e falácias, uma campanha eleitoral completamente desclassificada e profundamente degradante. A candidata H. Clinton, tendo feito uma campanha formalmente mais correta, revelou-se sempre como uma peça fundamental de um sistema político em degradação. O lamentável espetáculo desta campanha eleitoral expressou, de forma muito clara, a degradação do sistema político dos EUA, facto inseparável da crise social e da desilusão provocada em vastos sectores populares pela presidência Obama que, tanto no plano interno como no externo, defraudou as expectativas de mudança que foram fortemente alimentadas.

Chegamos a este final do ano de 2016 sabendo que o próximo Presidente da maior potencia mundial é um cidadão muito ligado a conceitos racistas, xenófobos, sexistas e defensor do descontrole ambiental. Todos ouvimos as propostas brutais que ele foi semeando na campanha eleitoral e que vão da deportação em massa de imigrantes, à construção de muros físicos e de muros mentais que “protejam os EUA e a civilização ocidental”, passando pela denuncia de tratados ligados à recuperação ambiental do Planeta.

Vivemos numa época histórica em que o pensamento e a acção política progressista e humanista estão profunda e dramaticamente enfraquecidos, ao ponto de quase terem sido submergidos por esta chamada globalização, montada e dirigida pelo grande capital financeiro internacional, que controla os poderes dos Estados, que subverteu, num grau enorme e brutal, o conceito de democracia e que faz, cada vez mais, tábua rasa de todos os valores essenciais, ainda proclamados, mas todos os dias agredidos.

Vivemos um momento dramático, em que quem controla a economia mundial tem o poder de agredir e dominar no chamado mundo desenvolvido, sem força armada a impor e tem o domínio, quer das chamadas economias legais quer das ilegais.

Vivemos uma época feroz, em que os dominadores resolveram, em nome da democracia, agredir e quebrar os equilíbrios e os processos de desenvolvimento em vastas partes do Mundo, soltando e dando espaço a forças fanáticas e brutais.

Nesta Europa, tida como o berço e o primor da civilização, vemos que um ou dois países, representados por classes políticas medíocres e oportunistas totalmente ligadas ao grande capital financeiro internacional, estão a querer transformar a União Europeia na “máquina de invasão e domínio” sobre grande parte dos países membros, procurando destruir soberanias e identidades. Lembro que há 80 anos isso foi feito em grande parte da Europa, mas tendo como suporte os exércitos nazi-fascistas, posteriormente derrotados por uma ampla coligação democrática que incluiu as democracias ocidentais e a União Soviética.

O Imperialismo, tal como se apresenta hoje, procura escrever a história de uma forma brutal e rápida, procurando destruir todas as conquistas civilizacionais de valorização da Humanidade, que tiveram especial afirmação no Século XX, que foram atacadas pelo nazi-fascismo, mas que foram reafirmadas e aprofundadas pela vitória dos Aliados em 45.

É neste quadro, linearmente traçado, que uma personalidade como Donald Trump é eleito, mesmo sem ter a maioria dos votos populares, por cerca de metade dos americanos que foram votar. Este facto tem que dar que pensar.

Termino dizendo apenas uma coisa que me parece fundamental: Há que resistir, defendendo, mais do que nunca, a democracia, o progresso e a justiça social, recusando de forma muito firme as políticas de “terra queimada” que os dominadores estão a fazer.

O caminho só pode ser de luta ampla, aberta e inteligente!

Horta, 14 de novembro de 2016

 

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