Nós…os insigni…ficantes!

0
6

Continuando a falar em feitos heróicos dos portugueses, nossos antepassados que, cansados de espancar mouros, matar e derrotar castelhanos à toa, achar terras, limpá-las, carregar o lixo para Portugal em naus miseráveis, enfrentando fomes, febres amarelas, escorbutos, béri-béris, piratas, ainda mais piratas, para não falar na higiene ou falta dela, cansaram-se. E resolveram fazer umas fèriazitas.

Após uma assembleia, discutido o assunto, foi deliberado por unanimidade, partirem para o Algarve. Já na época era o que estava a dar. Lá foram. No primeiro avião da TAP. Aterrando, dirigiram-se para a praia. E aí, bem instalados na areia, cabeças ao sol, os neurónios entraram em pleno funcionamento. Fizeram-se ao mar, não antes de se empanturrarem com uma bela mariscada.

E, assim felizes, partiram com a mania das descobertas. Decorrido pouco tempo , olhando a paisagem, ouvem um valente palavrão atirado ao ar por Gonçalves Zarco que tropeçando em algo estranho, se magoou.

Os companheiros, condoídos, rodearam-no a fim de tratar o dói dói, quando toparam com um monstro (para eles tudo que não fosse água era monstro ou cabo) e ficaram aterrorizados, não fossem também ganhar dói dói. Mas não. Aquilo era mesmo Porto Santo e logo de seguida a Madeira. Havia muita lenha, muito mato. Era uma chatice. 

Exaustos, voltaram à praia feito malucos. Até que Tristão Teixeira para relaxar se lembrou de acender um cigarro com fósforo. Daí, um valente fogo de artifício que, eles não apreciaram. Bem que Tristão se penitenciou por não ter levado o seu cigarro eletrónico! 

E voltaram às origens, muito entediados. Mas, como o assassino sempre volta ao local do crime, eles voltaram. Como tinham ficado chateados com a história do fogo, tiveram a triste ideia de levar coelhos para povoar a ilha. Coelhos esses que se multiplicaram e agora é o que se vê.

Então, mais tranquilos, mais familiarizados com o achado, encontraram o Alberto João às voltas com o fogo, que armazenou e está usando até hoje, nas passagens de ano, atraindo turistas. Como é, sempre foi, uma pessoa simpática, ao vê-los levou-os a admirar o 45º túnel, ainda em construção. Depois, confraternizaram, comendo semelhas, bolos do caco, bananas e tomando vinho 3 F F F . Foi um pagode. 

Alberto João na Madeira plantou vinha e cana do açúcar. E assim nasceu a ilha dos Amores, que deu azo a que Camões, o tal, mais tarde escrevesse um livrinho, quebra cabeças para muitos estudantes que estão nas tintas para antiguidades. Camões dava muitos erros e agora quase todo o mundo aderiu ao novo acordo ortográfico .

E o tempo passando. Perestrelo e outros, certa noite, numa farra nas docas de Lisboa, já um pouco passados, começaram a discutir sobre a crise, os coelhos, os cavacos, enfim! Alguém, mais conciso, por perto pra pôr água na fervura, jogou-os ao mar. Eles, nadando, nadando, encontraram a primeira ilha dos Açores. Ainda meio embriagados, ajoelharam e rezaram a Nossa Senhora. E nasceu Santa Maria.

E por aí fora. As ilhas aparecendo.  Ao ver a segunda Vaz Teixeira disse: “ Não há duas sem três”. E apareceu a Terceira. Aí, eles ficaram deslumbrados com as touradas. Embasbacados, babando!

E mais ilhas surgindo. Uma que eles muito gostaram foi a do Pico. E porquê? Por causa do Grupo Folclórico da Candelária. Flores e Corvo só mais tarde. Presumo que tenha sido à conta dos  nevoeiros, porque ainda hoje a TAP os teme e até Dom Sebastião não se atreveu.

E os nossos homens voltaram a Portugal. Mais cedo que desejariam. Aquelas sopas do Espirito Santo e o caldo de peixe custaram a esquecer. Mas o culpado foi Diogo Silves que era muito mexeriqueiro e estava danado para contar ao Senhor Infante Dom Pedro, tudo. Mas teve pouca sorte. O Sr Infante ouviu a história e disse: “Estás bêbado”. Mas Diogo teimou. E o Infante exigiu provas. Quero ver as fotos no facebook. Mas como? Eles tinham ido a nado.

Diogo Silves, irritado, dirigiu-se à RTP, para os levar a fazer uma reportagem. De início recusaram, alegando que os repórteres estavam em serviço nas manifestações, frente à Assembleia. Diogo foi dizendo: Olhem lá, caso recusem eu vou à TVI ou à SIC e eles aceitam, porque é por demais sabido que as audiências vão subir em flecha. Vão superar o Zé Zé  Camarinha.

O Sr Dom Pedro, o Infante, mais tarde, ao ver a reportagem entusiasmou-se. Foi na TAP ver ao vivo e a cores. Adorou o Alberto João Jardim fantasiado no Carnaval. Adorou ouvir os coriscos de S.Miguel. As touradas da Terceira. O Pico e a montanha. O Faial e as suas imensas docas. A semana do mar. Comeu cracas na Graciosa. Comprou dois queijos em S. Jorge, pesando cem quilos. Ao voltar para Portugal enviou de oferta ao Alberto João um montão de ovelhas, compradas num saldo que Viriato fez lá nos Montes Hermínios.

É de bom tom dizer que embora Portugal tenha perdido tudo que achou, conquistou, descobriu, não se livrou ainda dos Açores e Madeira. Somos os povos insulares ( sempre tive vontade de escarrapachar a palavra insular numa crónica). Podem chamar-nos adjacentes, autónomos, quem sabe, um dia, independentes, mas, por favor insulares, deixem ficar. Cá estamos de pedra e cal. Agarrados às calças do pai. Pedindo, implorando, chorando.

De quando em vez, vociferamos. E mandamos ultimatos. “Se continua assim, saio de casa e não volto. Mas não. Não sabemos viver sem o pai. Ainda somos muito quinininhos. Gatinhamos, usamos mamadeira, chupeta, dodotes. Somos insulares! Mas o pai por vezes é tirano e manda-nos pentear macacos.

Estamos felizes. Temos os nossos anti-ciclones. Que o pai, pouco culto confunde com ciclones. Os nossos terramotos. Os nossos vulcões. A nossa SATA. Dois navios novinhos em folha enfeitando uma doca nova e linda! Ano destes talvez se desloquem. Temos coelhos. Temos cavacos à brava. Já tivemos muito cherne. Só nos falta a cicuta por isso o fulaninho lá está na universidade da Reboleira, concluindo o curso. E mais não digo. Temos o que merecemos. É bem feito! Somos os insigni-ficantes!

 

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO