A mais de cem…

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Imaginam o que é fazer uma grande viagem, sendo conduzida por alguém que adora velocidades e, pior, não consegue sustentar uma conversa na medida em que torna todo ou qualquer esqueleto de conversa num monólogo entedioso e desagradável?
Bem, acompanhando pessoa amiga e a seu convite lá arrancámos a mais de cem por terras há muito não percorridas e bem minhas conhecidas. Contrariamente ao falazar habitual, começou a reinar o silêncio e foi então que dei por mim feito uma má conversadora, falando sem ouvir. E, assim, olhando ao redor fui desbobinando histórias passadas aqui e ali, histórias de crianças, de adolescentes e adultos, de felicidades, histórias que foram surgindo e aliviando a saudade.
E não consegui segurar as rédeas ao pensamento. Fui falando, falando feito maluca. Relembrei com pormenores lugares paradisíacos. Fiz um grande embrulho com terras e pessoas que fizeram ninho no meu coração. E aí se encontraram fundidos o Brasil e seus encantos. Aquele restaurante grego na ilha de Mikonos, com aquela comida digna de ser saboreada de joelhos ao som das danças e cantares daqueles deuses gregos. Entrei numa loja egípcia onde me ofereceram uma miniatura das pirâmides, gesto muito carinhoso. Um jantar na torre Eiffel. O fogo de artifício na passagem de ano em Budapeste. Um farmacêutico em Praga que me salvou a vida, sorrindo. Veneza, Veneza, não há palavras.!
E fui falando e o milagre deu-se. Olhando a pessoa que a meu lado ia em pleno voo, encontrei-a atenta e interessada. Parou o carro e comentou: fantástico! Incrível! Embora eu pensasse merecer um elogio mais caloroso, vaidade à parte, pois tenho armazenadas lá nos confins do cérebro coisas incríveis passadas há dezenas de anos, que descrevo ao pormenor, incluindo sítios, gestos, roupas, lágrimas e risos. E, como dizia alguém, eu convenci-me que o meu cérebro é um computador infalível. Isto não é auto-elogio. Imaginem! Eu sou muito discreta. Nota-se.
Bem, continuando a conversa anterior, a pessoa que lançara ao ar aquele fantástico e incrível não se referia a mim, mas sim à paisagem e demais coisinhas em volta. Ora sebo para tais elogios! Conversa de pobre! E o meu latim ficou zerado!
Num mundo tão conturbado como o nosso, ouvir um elogio é como receber um diamante, que até se pode carregar para casa e usar em horas menos felizes ou em noites em que o sono viaja e não volta. E nós na cama, no escuro, matutando uma montoeira de insensatez, fazendo prognósticos tenebrosos, a cabeça virada metralhadora, até que amanheça e a lucidez volte. Aí, agarramos o elogio e somos felizes.
Por isso muito obrigada a quem se dirige a mim, para elogiar. Também aceito críticas construtivas. Dizem que fortalece e dá coragem. Dizem que dá força para sair da solidão. Não quero nem saber de críticas. São uma mescla. A mim não aliviam nada. Larguem- me. Prefiro aquela solidão que é invisível, sentida por dentro. Estar sozinha, não é sozinha. Alivia. Arrasta a esperança. E todo o mundo foi feito pela esperança. E se a raça humana vive sonhando, planeando, trabalhando é porque a esperança está lá. É o fluxo natural da vida. É um fim em nós.
Quantas vezes sobrevivemos porque a esperança mora perto! Tão perto quanto aquele abraço, dentro do qual nos sentimos quentes e seguros. Situações complicadas dissolvem-se dentro dum abraço. Porque lá dentro ficamos no melhor lugar do mundo!
Dia destes, daqueles dias em que o mundo caía sobre mim, aquela senhora dum restaurante que não via há muito, deu-me um grande abraço, daqueles abraços que sentimos o tic- tac dos corações unidos. E foi dentro desse abraço, sem nada para reivindicar ou agradecer, sem voz alguma dita, ficou tudo esclarecido. Obrigada, amiga, tenho uma vontade imensa de escarrapachar o seu nome aqui, mas receio não ache bem.
Guardei o seu abraço. Estou usando-o até hoje! Como estava necessitando dele! Foi um dia em que Deus me apareceu. Naquele abraço!

P.S. Esta crónica não saíu a semana passada, não culpa minha, culpa do maldito computador que resolveu engoli-la. !

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