O Golpe de estado frustrado de Botelho Moniz foi há 50 anos

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EFEMÉRIDE

1. A preparação

 O Golpe de Estado frustrado do General Botelho Moniz, então Ministro da Defesa, também conhecido por “Abrilada”, foi preparado para o dia 13 de Abril de 1961. O General, depois de fazer sugestões a Salazar e a Américo Thomaz para que aceitassem uma mudança política, sobretudo para as Colónias Portuguesas, aceitara chefiar o movimento então idealizado para os afastar do poder. Era, portanto, um “Golpe de Estado Palaciano” que contava com o apoio tácito do governo americano do Presidente Jonh F. Kennedy. Visava provocar o afastamento daqueles ditadores do poder, uma vez que estes não se dispunham a mudar de política, conforme lhes fora sugerido, enveredando pela democracia e preparando as independências das Colónias.

O General Botelho Moniz, foi um distinto oficial do Exército Português. Foto da Internet, com a devida deferência, e desculpas pela pouca qualidade da cópia.   

Portugal comprometer-se-ia a, dentro de dez anos, preparar a independência das suas Colónias e os Estados Unidos da América dariam apoio a essas políticas e ajudas financeiras para as concretizar. Seriam abertas as trocas comerciais entretanto interrompidas com Portugal desde a posse do Presidente Kennedy.

Botelho Moniz, que era um dos militares mais inteligentes do País, segundo afirmava o Marechal Costa Gomes, entendia que era tempo de Portugal mudar a sua política ditatorial e de seguir uma política adequada de descolonização (1). Júlio Botelho Moniz (1900-1970), havia ocupado altos cargos militares e fora Ministro do Interior entre 1944 e 1947 (2). Ele próprio estivera com Salazar, aconselhando-o à mudança de políticas. Houve também conversações do embaixador americano em Lisboa, Elbrick, e de outros governantes americanos com Salazar, com vista a que promovesse uma alteração à sua política. Os americanos sabiam da existência dos movimentos nacionalistas que há anos se preparavam para a guerra com Portugal e ajudavam a UPA de Hulden Robert, como referimos em artigo de Março. A situação em Angola, onde nesse mês ocorreram graves acções contra os brancos, parecia difícil de vencer pelas Forças Armadas Portuguesas. Assim, como Salazar não aceitara os vários aconselhamentos do seu Ministro da Defesa e de várias outras entidades, Botelho Moniz decidiu avançar com o Golpe de Estado.

 Este foi preparado com a colaboração de quase todas as chefias militares, com excepção do General Kaúlza de Arriaga, que era Subsecretário de Estado da Aeronáutica, em quem eles não confiavam. O mesmo acontecia com o Ministro da Marinha, o Contra-Almirante Quintanilha de Mendonça, embora ambos fossem dependentes do Ministro da Defesa. Todavia, eram poucos os comandos de unidades militares que não lhe tivessem dado o seu apoio, embora com grande receio das consequências vingativas e implacáveis de Salazar. Para o efeito, havia um avião ou dois aviões preparados para levar Salazar e Américo Thomaz para a Suíça.

2. O Fracasso do Golpe de Estado

O grupo era constituído por vários militares e civis, nomeadamente, por Ministros, Secretários de Estado e Subsecretários de Estado, como, por exemplo, Botelho Moniz (o ideólogo e chefe), Almeida Fernandes, Viana de Lemos e Costa Gomes: para Presidente da República, os revoltosos contavam com o Marechal Craveiro Lopes (que havia sido corrido da Presidência da República por Salazar e se opunha à sua política). Para Primeiro-Ministro, contavam com Marcelo Caetano, Pinto Barbosa ou Adriano Moreira, que terá chegado a ser sondado na preparação do Golpe. Alguns ainda não haviam sido contactados e outros foram apenas sondados, sem convites formais.

A reunião final do grupo revoltoso, onde estavam presentes os elementos mais importantes do Golpe, incluindo Craveiro Lopes, estava a realizar-se entre as 15 e as 17 horas do dia 13 de Abril, no Ministério da Defesa. Contudo, por intermédio do ajudante de campo, que estava a ouvir a rádio, cerca das 15:30 horas souberam que todos tinham sido demitidos e substituídos por outros militares. Até os carros oficiais lhes foram tirados e todos os ex-governantes tiveram de regressar a casa em carros de amigos (3). O Marechal Craveiro Lopes, que havia ido no seu carro, tinha a farda militar de gala dentro do porta-bagagens.

Quem terá sido o traidor ou conselheiro de Salazar? Para Costa Gomes, terá sido Kaulza de Arriaga (4). Parece que, depois de Américo Thomaz ter sabido do Golpe, informado certamente por Kaulza de Arriaga, foi logo avisar Salazar que não perdeu tempo. O Presidente da República, por sua vez, procurou logo desmobilizar vários comandos de unidades militares. Kaulza de Arriaga, Secretário de Estado da Força Aérea, deverá ter tido conhecimento do Golpe de Estado por intermédio de Adriano Moreira, face à amizade que existia entre ambos. De resto, na remodelação que Salazar fez, Adriano Moreira foi presenteado com o lugar de Ministro do Ultramar, em vez do cargo de Subsecretário de Estado que vinha exercendo, recebendo então muitos elogios. Acabaria por ser afastado do Ministério no ano seguinte.   

Alguns dos oficiais golpistas foram passados à reserva, enquanto que outros, os mais novos, foram transferidos. Por exemplo, Costa Gomes, depois de passar por Beja onde esteve “na prateleira” cerca de um ano, foi colocado em Elvas como comandante de uma unidade, nela recebendo louvores e aí permanecendo mais de um ano (4). Popularmente, passava “de cavalo para burro”, como, com o devido respeito, se diz.    

 Questionado sob quem teria sido o conselheiro ou “mexeriqueiro” de Salazar ou de Américo Thomaz, Costa Gomes afirmou não ter dúvidas de que teria sido Kaúlza de Arriaga (5). Sabe-se que terá funcionado aí a sua amizade com o professor Adriano Moreira, seu amigo capaz de sustentar adequada “conspiração” contra Botelho Moniz.  

Com algumas excepções, os revoltosos estavam contando com a maioria das unidades militares, situação que foi conhecida pelo Presidente da República quando Botelho Moniz ingenuamente o informou de parte dos seus projectos.

Na sequência do falhanço daquele Golpe de Estado, Salazar, que havia assumido o Ministério da Defesa Nacional, afirmaria, relativamente à política ultramarina e aos acontecimentos verificados em Angola no mês de Março: “Vamos dar caça aos terroristas por todo o lado… Não temos alternativa senão o extermínio”.      Essa remodelação governamental, para além de ter envolvido os militares revoltosos, promoveu Adriano Moreira de Subsecretário de Estado a Ministro do Ultramar, como referimos.

Para Kaúlza de Arriaga a promoção de Adriano Moreira terá sido a forma de Salazar o compensar pel“o grande serviço que lhe tinha prestado” e que, como atrás referimos, teria sido o possível “traidor” do Golpe de Estado frustrado.

 Após aquela remodelação ficou célebre no primeiro discurso de Salazar a justificação do seu novo Ministério da Defesa: …“numa palavra, e essa é Angola… Andar rapidamente e em força é o objectivo que vai pôr a nossa capacidade”… (6). Efectivamente, a partir daí intensificou-se o envio de tropas para Angola e para outras colónias portuguesas. Por outro lado, “abriu-se as portas” à emigração portuguesa para esses territórios. A política de Salazar foi “desembocar” numa extensa e dispendiosa guerra de Portugal contra as guerrilhas africanas, na independência das colónias, e noutra guerra civil entre os próprios povos descolonizados.

Foram treze anos de guerra, perdidos em milhares de mortes e de gastos totalmente inúteis para Portugal e para as respectivas colónias. É por isso que alguns homens da “Revolução do 25 de Abril” de 1974 pretendiam julgar Salazar e o regime, mesmo depois de ele ter falecido em 1970.

 Estamos convictos que se o Golpe de Estado de Botelho Moniz tivesse resultado, ter-se-ia certamente evitado a grande mortandade que as diversas guerras provocaram e poupava-se o elevado esforço financeiro que o País foi forçado a fazer. Por outro lado, poder-se-ia ter evitado o regresso dos portugueses estabelecidos naqueles territórios, alguns deles já lá nascidos.  

Bibl: Cruzeiro, Maria Manuela (entrevista), “Costa Gomes – O último Marechal”, (1998), p.p. 89-107, edição do Círculo de Leitores; Antunes, José Freire “Kennedy e Salazar – o leão e a raposa”, (1992), pp. 207 e 229,  edição Círculo de Leitores. 

(1). Cruzeiro, Maria Manuela (entrevista), “Costa Gomes – O último Marechal”, (1998), p. 98, edição do Círculo de Leitores; 

(2). “Quem é Quem – Portugueses Célebres” (2008), p. 367, edição do Círculo de Leitores;

(3). Cruzeiro, Maria Manuela (entrevista), “Costa Gomes – O último Marechal”, (1998), pp. 96 e 97, edição do Círculo de Leitores; 

(4). Cruzeiro, Maria Manuela (entrevista), “Costa Gomes – O último Marechal”, (1998), pp.  96 e 106, edição do Círculo de Leitores; 

(5). Cruzeiro, Maria Manuela (entrevista), “Costa Gomes – O último Marechal”, (1998), pp. 96 e 97, edição do Círculo de Leitores. 

(6). Antunes, José Freire “Kennedy e Salazar – o leão e a raposa”, (1992), pp. 226  e 227, edição do Círculo de Leitores. 

 

 

 

 

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