O Polivalente do Largo D.Luís e o seu Apêndice (Torre do Relógio)

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A ilha do Faial é conhecida pelas suas belas paisagens mas também pelo seu património edificado e ambos devem ser devidamente cuidados e preservados. É certo que nem sempre é fácil de agradar quando se realizam obras de requalificação, pois gostos não se discutem, mas há aspetos que têm de ser tidos em conta, principalmente quando as mesmas se realizam em locais históricos de referência.
Refiro-me concretamente à recente construção de um Polivalente no Largo D. Luís, anexo à Torre do Relógio, que tem dado que falar e não pelas melhores razões. Efetivamente, são vários os motivos do falatório, mas os principais prendem-se com o valor histórico desse monumento e com o facto de o Polivalente não se enquadrar no ambiente envolvente.
Só faltava mesmo os mostradores do relógio passarem a ser digitais, para combinarem com as modernas instalações agora ali colocadas, a não ser que as doze badaladas tenham o poder de desfazer o feitiço e o antigo Largo do Relógio volte à sua velha indumentária, tal Gata Borralheira.
Mas, como na realidade nem sempre há finais felizes, o célebre Polivalente acabou mesmo a ser inaugurado por estes dias com toda a pompa e circunstância.
Sem querer discutir a forma como este processo foi conduzido, das polémicas e confusões que se criaram entre a Junta de Freguesia da Matriz e a Câmara Municipal da Horta, e que levaram a uma declaração da Presidente Alice Menezes e da tesoureira Paula Decq Mota, e na qual nos apercebemos que a requalificação foi iniciada, desenvolvida e concretizada à revelia deste órgão executivo da freguesia, esta obra, na qual se vislumbra pouco interesse, poderá constituir o calcanhar de Aquiles da atual Presidência da Câmara Municipal e aquela que, provavelmente, lhe trará mais dissabores e críticas na luta autárquica que se aproxima.
Um erro que naturalmente custará admitir.
Será que a Torre do Relógio acompanhada pelo polivalente engaiolado continuará a cativar algum turista? E os residentes habituados ao relvado o que sentem em relação ao cimento que lhe tomou lugar?
Podem dizer que os locais históricos não deverão ser apenas espaços de contemplação e que esta obra tem como objetivo servir a população local, de forma a substituir a relva onde se passeavam cães para defecar, para serem também novos espaços de convívio e interação.
Mas os faialenses não parecem convencidos, enfatizando que os espaços de desporto e lazer têm o seu local próprio para serem implantados, e não é certamente junto a monumentos históricos que os mesmos se constroem, a não ser que tenham como finalidade preservar os tesouros subterrados, que debaixo de camadas de cimento manter-se-ão inalterados. Conclusões retiradas do parecer cheio de humor da Direção Regional da Cultura, que leva a crer que mais vale rir do que chorar perante o leite derramado.
Este é um exemplo claro que mostra que a população deverá ser ouvida e que este tipo de obras a realizar deverá otimizar os espaços públicos, mas garantindo sempre a sua preservação patrimonial e arqueológica, assim como, o sentimento de identidade da vivência do mesmo.
E porque não apostar em novas obras que, pela sua arquitetura, pelo seu design, se diferenciem do que já existe no mundo, de modo a seduzir, a atrair o turista à ilha para apreciar essas obras únicas. A este respeito refiro o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, que comemorou há poucos dias o seu 9.º aniversário e que já recebeu diferentes prémios e distinções, nomeadamente pela sua obra arquitetónica. Um exemplo a seguir!
Precisamos de olhar muito mais além, olhar para o desenvolvimento estrutural da ilha do Faial, o que obrigará a um planeamento rigoroso, metódico e cuidado das obras que se pretendem e não efetuar as mesmas de forma apressada, muitas vezes ao sabor do tic tac dos interesses eleitorais. Desta forma todos ficaremos a ganhar!