O que querem os políticos fazer dos e com os professores?

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1. Gostava que soubessem que sinto uma pena enorme por continuar a assistir hoje, no Continente, nos Açores, e mesmo aqui, na Ilha do Faial, a uma enorme desconsideração pelos professores. No entanto, quem convive de perto com eles, sabe que têm uma profissão exigente e desgastante. Exigente, porque constitui um desafio permanente de aperfeiçoamento pessoal e técnico; um desafio comunicacional e relacional, exigindo níveis elevados de autoconhecimento, autorregulação e resiliência, pois trabalha arduamente sem esperar reconhecimento, devendo assumir o compromisso ético de respeito por cada um dos seus alunos, independentemente dos comportamentos dos indivíduos e das situações, algumas vezes constrangedoras, outras frustrantes. É um desafio à gestão do tempo, porque têm cada vez menos para dedicar à família. É um desafio à humildade, na medida em que obriga ao reconhecimento da “douta ignorância”, à aceitação de que nada se sabe, face à universalidade do saber. Sabendo, todavia, mais do que julga saber. É ainda um desafio à inteligência adaptativa, na medida em que tem de se adaptar permanentemente às mudanças, mesmo quando o sentido das mesmas é vago e os fins não estão claramente definidos. É, por essa razão, um criador de sentidos.
2. Nos últimos anos assistimos ao aparecimento de um tipo de retórica sobre criatividade, inovação e empreendedorismo, nos discursos políticos sobre Educação. Mas a criatividade exige espaços de liberdade crítica e de criação e, por essa razão, a criatividade e os criativos morrem à nascença nas escolas, aprisionados em currículos rígidos, em modelos de avaliação unívocos, em burocracia árida. Há que dizer que o facto de os docentes terem estado “congelados” anos e anos, criou uma espécie de esclerose no sistema. Sem um horizonte de valorização pessoal, mal pagos, sem qualquer reconhecimento pelo mérito, envelhecidos num nomadismo conformado, sobrevivem. E é disso que falamos: sobrevivência e normalização.
3. Sinto pena em ser professora, hoje, pois gostaria de estar a celebrar a grande experiência do conhecimento e da partilha do saber. Ajudar a escancarar a secreta porta do deslumbramento – o mais belo dialecto inventado pelo homem para transmitir os mistérios do mundo. Escutar as vozes intactas e o pensamento de humanistas, poetas, cientistas, filósofos, inventores, pedagogos, escultores, pintores, músicos. Aprofundar a magia dos textos e das obras de arte que enraízam na nossa própria história. E sinto que em tempos idos, o fiz. No Clube de Poética “Um pouco mais de azul”, alunos e professores liam textos de dramaturgos e dos poetas, criavam-se músicas e textos originais. Mas onde é que a visão de uma Escola Cultural já vai?… Amarrados a normativos, tornamo-nos funcionários cansados, apagados e acríticos.
4. O que querem os políticos fazer dos e com os professores? Há uma coisa que é necessário saber antes de mais. Um professor é uma pessoa com expetativas, aspirações e um projeto de vida, como qualquer outra. Poderá estar desmotivado, por não ver o seu esforço reconhecido há décadas. Talvez ande cansado, animicamente esgotado. Mas está focado na educação e na justeza de uma luta que vem travando há semanas para denunciar a insensibilidade dos governantes face a legítimas aspirações de progressão na carreira e a legítimos projetos de vida.
Ainda assim, há que tornar claro o seguinte: um professor deverá ser permanentemente exigente consigo próprio. Não poderá ser nunca um tecnocrata, um burocrata, ou um “trolha” da educação. Um professor é um artista porque a Educação é a mais excelente forma de arte. É arte viva, que opera sobre a matéria viva e inteligente do Ser, através de instrumentos de excelência, como a palavra. A relação pedagógica é uma porta que dá acesso ao Ser. Por essa razão, tenho em Agostinho da Silva (um sonhador e um visionário), o modelo do professor.

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