O Triunfo dos Porcos

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Assinalamos, este ano, os 100 anos da Revolução Russa. Mas a cronologia da História Mundial assinala, com letras douradas, uma outra e não menos importante revolução, ocorrida também no mês de novembro: a “Revolução Socialista Açoriana de 1996”.

Tendo em conta as dramáticas circunstâncias narrativas que tenho de enfrentar, socorri-me de uma obra intemporal, que ilustra bem todas e cada uma das temáticas em causa. Trata-se do livro “O triunfo dos Porcos”, de George Orwell.
O livro é uma sátira poderosa e intemporal, que retrata a derrota dos idealismos e a transformação gradual dos revolucionários “libertadores” nos novos privilegiados e opressores. A obra, publicada pela primeira vez em 1945, retrata a progressiva transformação do idealismo revolucionário russo, inicialmente igualitário, numa terrível ditadura. Mas serve também para zurzir noutros sistemas de hegemonia política longa, só aparentemente mais benévolos.
George Orwell conta a História dos animais de uma quintaque se revoltam contra o homem que os tiranizava. Os animais são liderados por dois porcos, Bola de Neve e Napoleão, que os conduzem à vitória revolucionária. Os animais vitoriosos criam, então, um sistema doutrinário, o Animalismo, cujos princípios sintetizam em sete mandamentos.
Os porcos e os cães aprendem sem dificuldade os sete mandamentos, mas os carneiros e outros animais evidenciam mais dificuldades. Para os animais com mais dificuldades de aprendizagem, os ideólogos animalistas elaboraram a seguinte síntese doutrinária: quatro pernas bom, duas pernas mau!
Os porcos, líderes da revolta, transformaram-se rapidamente na nova elite dirigente. Com o tempo, alguns mandamentos sofreram alterações. Por exemplo, o sétimo passa a estabelecer que todos os animais são iguais, mas – alteração importante – uns são mais iguais que os outros.
As reuniões plenárias dos animais da quinta, no início inteiramente livres, passam a deliberar apenas sobre as ideias e projetos dos líderes. Qualquer discordância passou a ser imediatamente abortada pelo rebanho de carneiros que abafava qualquer discordância com balidos repetidos até à exaustão: quatro pernas bom, duas pernas mau! Quatro pernas bom, duas pernas mau! Enfim, uma berraria infernal.
A meio da história, o porco Napoleão afastou o rival Bola de Neve e acumulou todo o poder. Surgiram então novas máximas: “Longa vida ao camarada Napoleão” e “o camarada Napoleão tem sempre razão”.
No final, os animais constatam que permanecem tão explorados como antes e que o domínio dos porcos é em tudo semelhante ao dos homens. Nada os distingue.
Apenas mais uma informação. A história da Revolução Socialista Açoriana de 1996 e a descrição do novo ciclo orçamental – contextualizadas na lógica narrativa do livro de George Orwell -tem dois narradores: eu e o Deputado André Bradford, a quem agradeço, desde já, o facto de se ter voluntariado para este trabalho.
A Revolução Socialista de 1996 iniciou-se com um discurso memorável de Napoleão. Ainda recordo a retórica sublime: “Vinte anos em qualquer parte do mundo é demais. Criam-se clientelas e favoritismos. É tempo de mudar [a Quinta] dos Açores”.
De forma enfática, empurrado pela emoção do momento, prosseguiu: “Não quero ver mais ninguém de lágrimas nos olhos a dizer que tiveram de filiar-se [nos laranjas] para ter apoios para a habitação degradada ou para ter emprego na administração pública regional”.
Já na altura, numa crónica datada de 12 de setembro de 1996, o outro narrador desta história, André Bradford, notava que “o [Napoleão] dos últimos meses pouco ou nada tem a ver com o [Napoleão] de toda a vida. Convenientemente polido, empenhado em não deixar transparecer vinte anos de desilusões, rancores e frustrações, o líder [rosa] fez a operação cosmética que o seu rival mais direto precisava. O pior, dizem, será quando o verniz começar a estalar”.
A Bastilha laranja caiu efetivamente em 1996 e o povo deu todo o poder a Napoleão e aos seus lugares-tenentes rosas. Aprovou-se então um Programa de Governo. Entre outras coisas, o Programa consagrava a igualdade entre todos os açorianos. Tal como em anteriores ocasiões, foi preciso simplificar a ideologia para alguns dos cidadãos da quinta dos Açores. Estabeleceu-se então a seguinte síntese programática: rosa bom, laranja mau!
A partir daqui, ou seja logo no início da Revolução Socialista de 1996, as coisas começaram a correr mal. Vejam bem, caros leitores, o que escreveu o segundo narrador desta história, André Bradford, que, naquela época, estava junto do local: “Como certamente sabe, caro leitor, a grande preocupação do PS/Açores neste momento é o facto da administração regional não estar infestada de verdadeiros socialistas. […] Então e os rapazes que levaram os últimos vinte anos a colar cartazes e a fazer comícios em tudo o que é freguesia, sem terem qualquer tipo de recompensa, não merecem um cargozito [sic],Sr. presidente?”
A partir dessa data, a Revolução morreu. Os rosas adquiriram todos os vícios dos laranjas. No dia 27 de dezembro de 1997, o narrador André Bradford atribuiu o que designou como “Prémios sem nome”. Para Napoleão reservou um prémio, com a seguinte designação: “aprendi num ano o que os outros levaram vinte a perceber”.
Tinha razão André Bradford. Napoleão aprendeu rapidamente tudo o que não interessava. Entraram então na moda – e no modo de sobrevivência daquele pequeno e perigoso mundo autocrático – as frases que consagraramo poder absoluto de Napoleão na Quinta dos Açores: “Longa vida ao camarada Napoleão” e “o camarada Napoleão tem sempre razão”.
A partir de 2003 deixa de ser possível continuar a contar com o segundo narrador, André Bradford. Ainda tentei retomar o contacto, mas a resposta foi um esclarecedor “rosa bom, laranja mau! Rosa bom, laranja mau!” E assim sucessivamente.
A partir daqui estou, inteiramente, por minha conta.
Entretanto, na quinta autocrática do partido rosa, Napoleão e o partido rosa continuaram, ao longo dos anos, a acumular todo o poder e a gastar todo o dinheiro, espremendo de forma brutal o povo da quinta.
Na primavera de 2012, Napoleão transferiu-se para a promissora quinta de Lisboa, mantendo, no entanto, a suserania total na quinta açoriana. Nomeou para seu sucessor o jovem Gengiscão, um antigo e espigado presidente da juventude do partido rosa.
Nos últimos cinco anos, Gengiscão prosseguiu e aprofundou, em muitos aspetos, a política autocrática de Napoleão. O seu propósito é conquistar os derradeiros oásis de liberdade que ainda subsistem na Quinta dos Açores e manietar todos os que, no terreno económico, não dependem das benesses do poder do partido rosa.
Os ratos são os últimos grandes sobreviventes da Quinta, mas até esses já têm um encontro marcado com o último destino. O Secretário da improdução agrícola mandou realizar um estudo em Inglaterra para acabar com estes últimos paladinos da luta pela liberdade.
Os ratos ainda tentaram objetar que os 7 mandamentos lhes garantiam uma certa proeminência na Quinta dos Açores, uma vez que têm comprovadamente quatro patas. Mais uma vez, os carneiros acabaram com qualquer discussão berrando repetidamente, “Rosa bom, laranja mau! Rosa bom, laranja mau! Finalmente, os cães gritaram “Gengiscão tem sempre razão, Gengiscão tem sempre razão”! E assim terminou a discussão a respeito da questão de vida ou de morte que os ratos enfrentavam.
A grande obra do regime era, no “Triunfo dos Porcos” original, um moinho. Na Quinta dos Açores, o Orçamento do novo ciclo prevê a conclusão da Casa da Autonomia. Uma obra destinada a imortalizar o regime e a acolher os sarcófagos da elite da Revolução Socialista Açoriana de 1996. Só por si, esta decisão orçamental define tudo o resto.
Resta-nos esperar a aurora de uma nova revolução. Arrancaremos então todos os bustos e todos os símbolos do regime vencido. Nascerão novos heróis e um mundo radioso de oportunidades surgirá à frente dos que o regime esqueceu e maltratou. Serão impressas resmas de cartões partidários com novas cores e, se ainda for vivo e gozar de saúde, o segundo narrador regressará com a sua pluma poderosa e irrepetível. 

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