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O violento temporal de 1952

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Na madrugada de 28 de Fevereiro de 1952 – completam-se agora 64 anos – a ilha do Faial voltou a ser fortemente fustigada por uma violenta tempestade. Ventos ciclónicos e vagas alterosas tiveram efeitos devastadores na parte mais baixa da cidade da Horta, sobretudo na zona que não estava protegida pelo molhe da doca, mais precisamente a que vai desde o Canto de D. Joana até à foz da ribeira da Conceição.
A velha e desconjuntada muralha de defesa da cidade – que “há dezenas de anos implora um olhar de misericórdia dos poderes públicos” 1 – não resistiu à impetuosidade do mar que, sem oposição, inundou ruas e casas numa fúria devastadora atingindo nalguns pontos mais de um metro de altura, trazendo consigo grandes pedras e muito areia o que tornou extremamente difícil as operações de salvamento dos habitantes da marginal da cidade que viveram horas de profunda angústia.
Toda a rua Conselheiro Miguel da Silveira ficou arruinada e a maior parte dos residentes teve de fugir pelas janelas ou pelas traseiras das casas, pois as portas ficaram bloqueadas por grandes pedregulhos. Inundadas e intransitáveis ficaram também as ruas Serpa Pinto, Almeida Garrett e Bom Jesus, os Largos do Bispo e da República, as travessas da Boa Viagem, da Misericórdia, do Poiso Novo e do Monturo que as brigadas de socorros – formadas por bombeiros, militares da BIDC1, agentes da PSP, trabalhadores municipais e de outras corporações, além de muitos particulares, todos alertados pelos sinos das igrejas da Matriz e da Conceição – tiveram de meter-se na água durante o temporal, percorrendo as casas atingidas e delas transportando idosos, mulheres e crianças para lugar seguro, tendo sido necessário utilizar, em alguns locais, pequenas embarcações, já que os salvamentos não podiam ser feitos de outro modo. Este abnegado e árduo trabalho, ainda mais dificultado pela escuridão já que desaparecera a iluminação pública, evitou que a tormenta não tivesse registado grandes desastres pessoais. Os sinistrados receberam os primeiros socorros e ficaram instalados em casas de familiares e no Asilo da Mendicidade, nas Escolas de Aplicação, no Teatro Faialense e no Hospital da Santa Casa da Misericórdia.
Socorros idênticos foram prestados no Hospital do Isolamento de Tuberculosos – situado no Pasteleiro, sendo os pacientes transferidos para o Hospital Militar dos Flamengos – e na freguesia da Feteira, cuja zona litoral foi devastada, tendo a estrada desaparecido em vários pontos e ficadas arrasadas ou inabitáveis 14 moradias, além de outras três edificações, entre os quais o posto de desnatação. Os pobres moradores das casas destruídas – na sua maioria homens do mar – perderam também roupas e mobiliário, pelo que eles e seus familiares, num total de 70 pessoas, tiveram de ser socorridos com alimentos e agasalhos fornecidos pela Casa dos Pescadores, com a cooperação do Comando da Bataria de Artilharia e das autoridades municipais e sanitárias. A força do mar arremessou para terra alguns barcos de pesca que ficaram inutilizados, arrombou as portas do lado sul da igreja, lançando pedras e destroços de madeiras no interior do templo. Também o “pequeno cemitério da freguesia, frente à igreja, ficou em mau estado”, pelo que “um novo cemitério, noutro lugar, impõe-se”2.
Situadas na Rua do Além, estas casas seriam provavelmente as sucedâneas das que o ciclone de 1893 havia destruído, deixando então 85 pessoas sem-abrigo e à mercê da caridade pública. Nessa altura – e segundo recordava um diário faialense – “os lares desfeitos pela fúria dos elementos foram reconstituídos devido à generosidade do Governo de então, o que estamos certos sucederá mais uma vez”3 .
Aos prejuízos materiais nos prédios e estabelecimentos comerciais das zonas baixas da cidade e da freguesia da Feteira, juntaram-se as muralhas arrasadas, os barcos e os pequenos portos destruídos – Porto Pim, Alcaide, Feteira, Castelo Branco, Varadouro, Ribeirinha, Pedro Miguel e Praia do Almoxarife – as culturas agrícolas danificadas e ainda mais “o sofrimento e aflições por que passaram [os sinistrados] até serem levados para lugar seguro”.
Os danos causados nas ilhas do Faial e Pico por este temporal de 1952 tiveram paralelo com os de 1946 e com outros de maior intensidade, nomeadamente os do devastador ciclone de 1893, todos aqui tratados sucintamente em edições anteriores deste semanário.
E esses prejuízos eram tanto maiores quanto se encontravam desprotegidas as zonas baixas das localidades destas duas ilhas irmãs. Um dos exemplos mais flagrantes é o da cidade da Horta. Antes da construção do molhe da doca – que só começou a funcionar em pleno nos começos do século XX – as ondas alterosas varriam toda a área da baía da capital faialense. Depois, e até 1961 quando foi inaugurada a avenida marginal, a fúria do mar de sudeste lambia a velha muralha de defesa, precisamente desde o Canto de D. Joana até à Alagoa, e transformava essa área numa caudalosa ribeira que tudo levava à frente. Reclamava-se então – e ainda com maior razão – que o Estado efectivasse “o problema número um da Horta, há anos prometido e sempre protelado”, esperando-se “que o Governo de Salazar decrete medidas imediatas que atenuem tanta desgraça e, sem delongas, se iniciem as obras da construção da muralha”, resolvendo-se, finalmente, “um problema que não é de luxo, mas sim uma necessidade para salvaguardar as vidas e haveres de muitos bons portugueses”4 .
A instância do governador civil do distrito da Horta, Eng.º Mascarenhas Gaivão, o ministro das Obras Públicas, Eng.º José Frederico Ulrich, tomou imediatas providências, destacando-se a que determinava a ida imediata para as ilhas do Faial e do Pico de uma missão constituída pelos engenheiros Silveira Ramos, Costa Valente e Corbal Hernandez a fim de estudar e propor as medidas indispensáveis para que as zonas periodicamente afectadas pelos temporais ficassem definitivamente salvaguardadas. Uma das principais recomendações desta missão terá sido a construção de uma nova muralha de defesa da cidade de Horta, que na realidade se iniciou em Setembro de 1956 e ficou concluída em 30 de Julho de 1961.
É ela a Avenida Marginal, inaugurada pelo ministro das Obras Públicas, Eng.º Eduardo Arantes e Oliveira, sendo chefe do distrito o Dr. António de Freitas Pimentel. Este, no discurso de inauguração daquela magnífica obra e do descerramento de um busto daquele governante, manifestou-lhe a gratidão de todos os que “nos dias tristes e amargos da semana trágica dos abalos sísmicos e do terramotos do mês de Maio de 1958”, contaram com a presença solidária do Eng.º Arantes e Oliveira, e de justiça “por esta homenagem estar a ser prestada na Avenida que nasceu da muralha de defesa da cidade, que trouxe à Horta um singular embelezamento e à sua população uma tranquilidade que já não será perturbada pelos temporais do quadrante leste e que tantos prejuízos causaram no decorrer de muitas dezenas de anos”. Aquela obra tomou a designação de “Avenida Arantes e Oliveira” e acreditava-se em 30 de Julho de 1961 que a efígie daquele governante ficaria “vivendo eternamente connosco, esculpida em medalhão de bronze” . Afinal, não eram passados 14 anos, e a injusta damnatio memoriae que assolou o país nos conturbados meses imediatos à Revolução do 25 de Abril de 1974, tudo destruiu. Do medalhão com a efígie não há notícia e a Avenida Marginal, tendo perdido a designação de “Arantes e Oliveira” para a oficial “Avenida 25 de Abril”, ali permanece defendendo a cidade do furor das tempestades e emprestando-lhe extraordinária beleza.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

1 O Telégrafo, 29 Fevereiro 1952
2 Idem, 5 Março 1952
3 Correio da Horta, 29 Fevereiro 1952
4 O Telégrafo, 1 Março 1952
5 Correio da Horta, 31 Julho 1961

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