A história das ilhas açorianas está marcada por uma série de calamidades naturais que têm influenciado decisivamente o modo de viver do seu Povo e que explicam muitas das suas crenças e festividades.
Periodicamente, a pacatez das gentes e as temperaturas amenas, são profundamente alteradas por manifestações da natureza, com destaque para as crises sísmicas e para as violentas tempestades. Como estão situadas a meio do Atlântico, na junção dos ventos dominantes, as ilhas foram, desde o povoamento, local de escala, porto de abrigo e cemitério de inúmeros navios que sulcavam estes mares.
Dos muitos temporais que regularmente têm assolado o Faial, o de 1858 ficou memorável. Foi há precisamente 157 anos que, em 17 e 18 de Janeiro, um enorme vendaval destroçou completamente as produções agrícolas e provocou o naufrágio de nove navios que se encontravam na baía da Horta, ela que ainda não tinha a doca – cuja construção só começou em 1876 – nem a Avenida Marginal, apenas inaugurada em 1961.
Os barcos que não resistiram à fúria das ondas e se desfizeram contra os rochedos e as frágeis muralhas citadinas foram:
1 – A logra americana Pathfinder, com 11 pessoas a bordo e que transportava 500 barris de resina e grandes vigas de pinho resinoso para construções navais; naufragou entre “o canto de D. Joana e o da alfândega” (actual edifício das Finanças) e o seu valor “calculava-se em 24.000.000 reis”1 ;
2- O iate português Júpiter, “bateu perto da alfândega e como não tinha carga a bordo ficou muito fora de água, tendo-se retirado a tripulação [nove pessoas] sem dificuldade” 2;
3- A escuna portuguesa Nereida, com quatro homens a bordo, “deu à costa na ‘pedra dos frades’, sendo “dificílima a salvação das suas gentes”; “o casco do navio, todo o seu aparelho e sobressalentes valeriam 7.000.000 reis” 3
4- A escuna inglesa Lady Ann, naufragou no mesmo sítio da Pathfinder e desfez-se completamente em pouco mais de 10 minutos; os oito homens que tinha a bordo salvaram-se porque, na situação de desespero em que se encontravam, conseguiram saltar para a popa daquela logra americana;
5- O brigue francês Allah Kerim deu à costa na ‘pedra dos frades’ e perderam a vida quatro dos seus dez tripulantes; estava seguro em 16 mil francos, ou seja, 3.200.000 reis;
6- O brigue português Margarida Leonor, naufragou junto à logra Pathfinder, salvando-se os seus 13 tripulantes; tinha a bordo 51 pipas de vinho e 10 sacas de café;
7- A escuna inglesa King Alfred, desfez-se contra as rochas no chamado ‘Couce da Alagoa’, salvando-se os sete tripulantes que haviam sido previamente recolhidos pelo vapor S. George; carregava 135 toneladas de carvão que se perderam totalmente;
8- A barca americana North Sea, naufragou defronte do Poiso Novo, tinha 17 pessoas a bordo, incluindo os dois guardas da alfândega. Sendo um grande navio – avaliado em 30 mil dólares (36.000.000 reis) – estava fundeado a maior distância da terra, o que dificultou o lançamento dos cabos para a salvação da respectiva tripulação; transportava cerca de 10.000 alqueires de trigo, 50 toneladas de campeche e cerca de 5 mil aduelas de barril;
9- A escuna inglesa William Morgan Davies, veio à costa defronte da ermida de Nossa Senhora da Boa Viagem. Faleceu um dos seus quatro tripulantes, cujo corpo nunca mais apareceu.
O historiador Silveira Macedo – testemunha desta enorme tragédia, tal como o redactor de O Fayalense – confirma a perda de cinco vidas (quatro franceses e um inglês) e diz-nos que “pouco se salvou dum tão grande naufrágio, porque o mar quase tudo desfez e arrojou muita madeira contra a lagoa”, havendo faialenses que nessa catástrofe “praticaram actos de caridade e abnegação para com os míseros náufragos” 4 .
Um dos que mais se destacou foi o marítimo José Inácio Bandola, natural e morador na freguesia da Conceição da cidade da Horta que seria premiado pela Real Sociedade Humanitária com a medalha de 2.ª classe e homenageado pelo governador civil António José Vieira Santa Rita e pela Câmara Municipal, em vereação de 27 de Julho de 1859, que contou ainda com a presença de “todas as mais autoridades, cônsules de diversas nações e pessoas distintas desta ilha que, para esse efeito haviam sido convidados”. Na ocasião, o governador Santa Rita leu o alvará em que aquela Sociedade deliberou “que o temerário e humano comportamento de José Inácio Bandola, metendo-se algumas braças pelo mar dentro sem que nenhum cabo o segurasse, expondo a sua vida, não só à fúria daquele elemento como também à destruição pelos fragmentos dos navios naufragados durante o medonho temporal que reinou na ilha do Faial de 17 para 18 de Janeiro último, conseguindo salvar um francês e um guarda da alfândega que de todo se julgavam perdidos (…) o tornou digno da medalha de mérito de 2.ª classe, com que premeia os actos de abnegação e generosidade praticados para salvação do próximo”. O chefe do distrito colocou a medalha ao pescoço do homenageado e entregou-lhe quatro meias doblas, por parte do governo português, em remuneração da sua intrepidez e do brioso acto de humanidade que praticara, após o que “foi por todos cumprimentado e acompanhado até à sua pobre residência”5 .
Foram sete os navios que estando ancorados na baía da Horta puderam resistir àquele temporal de Janeiro de 1858: os patachos portugueses “Pomona” e “Sousa &Companhia”, o iate português “Terceirense”, o vapor inglês “S. George”, a galera americana “Martha Witmore”, a barca francesa “Laure” e a galera brasileira “Josefina”.
Esta violenta tempestade – com um terrível saldo de nove navios naufragados, de cinco mortes registadas e de uma gravíssima crise alimentícia – veio reforçar a premente necessidade da construção de um porto de abrigo, facto assim salientado pelo então jovem semanário “O Fayalense” no relato daquela tragédia: “hoje faremos também um apelo aos sentimentos nobres do coração, hoje também levantaremos um brado a prol da humanidade, hoje diremos a todos, a pobres e a ricos, a governantes e a governados – Uma doca para a Horta, custe o que custar”. 6
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)
1 O Fayalense, 20 Janeiro 1858
2 Dabney, Roxana – Anais da Família Dabney no Faial, vol.2, p.381
3 O Fayalense, 20 Janeiro 1858
4 Macedo, A. L. Silveira – História das Quatro Ilhas, II vol. p.245
5 Acta da Vereação da CMH de 27 Julho 1859
6 O Fayalense, 20 Janeiro 1858












