Os “Faz-Tudo” de ontem…, e os de hoje!

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 Motivado pela colocação profissional de meu pai, vivi até aos 2 anos na ilha das Flores, e até aos 8 anos na ilha do Pico.

Voltei às Flores por diversas vezes, e dela recordo as pessoas e as suas paisagens maravilhosas, à qual se chamou, e bem, a “Suíça Açoriana”, pela profusão do verde, pelo relevo acidentado e pela enorme quantidade de água que brota em fartas quedas, reunidas em bonitas lagoas.
Do Pico recordo muito bem aqueles anos 60, em que vivi a minha meninice, bem assim a sua evolução, rumo ao futuro, numa ilha de grande dimensão e potencial, onde a escala é apetecível, e a montanha e a pedra escondem um filão que o homem vai revelando, pouco a pouco, desde o Património da Humanidade a uma das Sete Maravilhas de Portugal.
Recordo várias figuras carismáticas da vizinha Vila da Madalena, desde o saudoso Gilberto das Lanchas até ao… “Faz-Tudo”.
O Armando “Faz-Tudo” era uma figura franzina, baixo e delgado, engenhoso e bem disposto, pai do “Piriquito”, meu colega de escola.
Em todas as regiões, cidades e vilas, existem os “Faz-Tudo”, habilidosos com as mãos, nas mais diversas áreas, desde as ferragens às latoarias, dos caixões aos piões, dos adivinhos aos endireitas…
Há 40 anos, nesse tempo perdido, estas paragens não seriam a mesma coisa, se não fossem os “Faz-Tudo” que traziam alguma magia à vida das populações, para grande entusiasmo das crianças, que ficavam atónitas perante a arte de consertar todo o tipo de objectos.
Ainda me lembro de algumas dessas figuras notáveis, desde o Eduardo “Manafão” (electricista) ao Luís Ferreira (ferreiro), do Chico “Sujeito” (latoeiro) ao Pedro “Faz Tudo” (máquinas de costura), e ainda mais recentemente o Sr. Andrade “Beirada” – um artista que fabricava qualquer peça que fosse necessária… A todos eles, ficámos a dever grandes favores!
A minha homenagem, aos verdadeiros “Faz-Tudo”.

HOJE, vivemos num mundo global, tecnológico, de alta competição, onde cada vez mais a especialização comanda a vida económica, e onde não há lugar para amadorismos.
O Bacharel há muito que foi banalizado pelas Escolas Profissionais.
As Licenciaturas já não são suficientes, passando-se às Pós-Graduações, aos Mestrados, aos Doutoramentos, aos Professores Doutores, e por aí acima… na ânsia de atingir o grau mais alto de especialização, no mais pequeno detalhe do corpo humano, na mais longínqua galáxia ou no mar mais profundo…
Como todo o “génio”, estas mentes superiores são, de um modo geral, de difícil trato, absortos que estão no seu universo restrito, pelo que a vida social, o cão e o gato, as couves e as alfaces, os filhos e os cônjuges, são “perdas de tempo” e meros empecilhos ao seu estatuto de “eleito / alta competição” da humanidade.
Para contornar a objectividade desta produção, os políticos deitaram mão dos seus homens de confiança que, de um modo geral, sem formação própria, funcionam como peças avançadas num tabuleiro de xadrez, onde cada peça é comandada à distância.
Nas empresas de construção civil, o dono da empresa, mais conhecido por “pato bravo” confia mais no seu encarregado geral do que no jovem engenheiro, imposto pela lei nos quadros da empresa, para que o Alvará seja renovado.
Nos Governos, os presidentes escudam-se num círculo fechado de cadeiras, que vão jogando e trocando à sua bela vontade, numa fortaleza de “Yes Man/Woman”, que cresce, dia a dia.
Nas Secretarias ouvem-se mais os Delegados do que os Directores de Serviço e Chefes de Divisão que só complicam a vida dos simpatizantes, com a sua obsessão pelo rigor.
Nas Direcções Regionais, alguns directores regionais mais não são do que “caixas de correio” dos secretários, figurantes do poder na ilha…, para tapar os olhos aos mais reivindicativos.
Nas Delegações, os técnicos são ignorados em benefício dos presidentes de junta do partido do poder, que moldam os objectivos aos seus interesses eleitorais.
Não é com rigor, que se ganham as eleições, pá!… Ganham-se eleições com agrados, com favores, com cunhas e jeitos, promessas de emprego em concursos controlados pelo critério subjectivo das entrevistas de conveniência.
Estes são os “Faz-Tudo” de hoje, polivalentes, que saltitam da Agricultura para as Obras Públicas, das Obras Públicas para o Ambiente, do Ambiente para a Educação, da Educação para a Saúde…e siga o baile!
Hoje, estes novos “Faz-Tudo” são muito procurados, porque continuam a desenrascar situações, porque dão jeitos e, acima de tudo, porque são de grande confiança, por mais difícil que seja a previsão eleitoral.
Estes “Faz-Tudo” não são técnicos, e não carecem de qualquer formação superior, média ou inferior… podem até nem ter a 4ª classe, desde que jurem obediência e fidelidade à bandeira do partido, dê por onde der, aconteça o que acontecer.
Estes “Faz-Tudo” são os verdadeiros responsáveis pelo impasse que vivemos, onde a competência deu lugar ao compadrio e à cunha, onde o desenvolvimento deu lugar ao retrocesso e à lei da rolha.
Hoje, o Faial poderia ser completamente diferente, se não estivéssemos na mão destas réplicas de “Faz-Tudo”, que mais não são do que um sub-produto de péssima qualidade, de uma geração que em vez de governar-nos e desenrascar-nos, nos enrascam, governando-se a eles próprios… muito bem.
A eles, o meu protesto!

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