Alentejo sempre…

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Esquecendo notícias tristes e sem graça, vou debruçar-me sobre coisas bonitas que me trazem alegria, relembrando capítulos importantes da minha vida.

Imagino que, quem me conhece bem, já acertou. Lá vem ela com o Alentejo! Pois é! Por muito que fale nele, esse muito é sempre tão pouco, penso, não haveria papel, tempo, capacidade literária que me levasse a dizer tudo que sei e sinto pelo Alentejo, pelos alentejanos.

Foi uma escolha. Terminei o curso com a ideia pré-concebida: Alentejo. Não me perguntem porquê. E lá fui. Não avião. Barco. Uma semana de mar. Comboio. Barreiro, Pinhal Novo, Vendas Novas, Torre da Gadanha, Casa Branca, Beja. Eu, mala de cartão, feito a outra, feliz, ansiosa. Uma aventura e peras. Para quem sai da ilha, aquilo foi um abrir de olhos e pasmar. No entanto recordo a delícia que foi percorrer lugares que a geografia me ensinara. Um sonho!

Chegada que fui a Beja, logo recebida por um director escolar que, meio estupefacto com a minha coragem, me tratou como uma princesa. Sentindo de momento a minha ansiedade, entrelaçou as suas mãos nas minhas e transferiu essa ânsia e esse medo que se haviam acolhido no meu peito, para dentro do coração dele. Soube-o logo, vislumbrando uma ternura imensa nos seus olhos e, a partir daí, contei com a sua amizade e compreensão para sempre. O primeiro alentejano que conheci. Manuel Joaquim Delgado. Para si mais uma vez o meu obrigado do coração.

De auto–motora, segui  para Mértola onde comecei a lidar com alentejanos retraídos, envergonhados, que iam aparecendo com os filhos para as matrículas. Entendi logo que esperavam tudo de mim sem suporem que eu esperava tudo deles. Assim começou a nascer o entendimento. Eles e eu. Eu que não faço amizades  facilmente,  eu que nunca ganharia a faixa de miss simpatia no meio de desconhecidos, tomei conhecimento que era a primeira vez que tal me sucedia. Assim entrei na família alentejana sem esforço. Não uma família imposta mas escolhida por mim. Passei a ser a professora, amiga, a confidente. Quase me carregavam ao colo. Os filhos faziam fila fora da minha porta, manhãs geladas ,para me acompanharem à escola. E o mar açoreano desapareceu. Então a campina alentejana .

E, mais e mais, crescendo sempre a amizade, o carinho, a compreensão que só o alentejano sabe dar sem exigir troca. Comecei a  aprender a linguagem deles, reflexo da índole e ocupações dominantes. Como povo agrícola de planície, eles apresentavam um processo evolutivo variado, quer do ponto de vista fonético, quer semântico. E, daí, adágios de sabor arcaico, provérbios, modelos perfeitos de vernaculidade e pureza idiomática, ditados exprimindo ensinamentos dirigidos aos trabalhos quotidianos. Foram dias e noites ouvindo adágios, rifões (integrando alegorias ou metáforas). O que eu aprendi! À noite, à lareira, os enchidos, os doces, o amor, o carinho, a confiança, a tranquilidade. Estava em casa!

Ao partir daquele Alentejo, penso que deixei muitos ensinamentos nas cabecinhas daquelas crianças mas trouxe uma bagagem de conhecimentos maior que o mundo. E touxe amizades que ainda hoje perduram. Como eles me amaram, eu amei-os.

E penso neste momento no “ animismo”. Quanta imaginação ! As benzeduras, os endireitas, as curas do cobrão, os maus  olhados e ensalmos aplicados, fantasmas, agoiros, feitiços, etc. etc. Não ignorância. Aceitação da herança dos antepassados e muita religiosidade.

E não me venham dizer que os alentejanos são preguiçosos. Vi homens e mulheres do campo que, trabalhando de sol a sol e tendo como alimento pão com azeitonas, eram felizes.  E o trabalho era árduo!

Nem todos tem o privilégio que eu tive. E eu nem falei nas pescarias à margem do Guadiana. Nada que conviesse muito, porque pelo meio algo esquisito havia. Nós conseguíamos apanhar o peixe, mas ninguém o sabia matar. Usávamos então um meio à la “ pedra lascada”. Um horror! Até que surgiu um aluno que nos deu uma bela lição, passando a ser o nosso matador oficial de peixe.

Não me alongo mais. Até gostaria. Mas a emoção está no ar. Voltei lá. É o que penso no momento. E tudo se mistura. Alegria e tristeza. Cantares alentejanos soam por aí. Perdi o jeito de terminar. Portanto, ponto final!

 

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