
1.Uma nota prévia impõe-se para que esta minha crónica não seja mal interpretada. Sempre defendi e defendo que a SATA-Air Açores, enquanto empresa pública regional, deve ser considerada estratégica e preparada para garantir as ligações aéreas inter-ilhas, assumindo-se como instrumento do desenvolvimento integrado de todas as nossas nove parcelas. Do mesmo modo, a SATA Internacional deve ter como primeira e prioritária preocupação ser o garante de qualidade nas ligações da Região ao exterior, designadamente ao Continente e Madeira e às regiões de maior concentração da nossa diáspora, garantindo igualdade de oportunidades de acesso a todos os Açorianos, independentemente da ilha onde residam.
Para cumprir esta vocação regional de desenvolvimento de todas as ilhas não pode faltar à empresa o financiamento público que a viabilize e a torne exequível.
2.Infelizmente, nem sempre os governos e as administrações da SATA têm tratado com justiça e equidade as várias ilhas dos Açores, avolumando-se os exemplos de horários mal concebidos e incompreensíveis, de rotas ruinosas (escolhidas ao arrepio daquela que deve ser a missão primeira da empresa) e de práticas discriminatórias que penalizam os Açorianos em função da ilha em que residem.
3.Um dos mais recentes exemplos tem a ver com o que a SATA publicita como o “Overnight”. Este produto, de acordo com o que foi anunciado, possibilita ao passageiro que não consegue ligação no próprio dia entre os Estados Unidos/Canadá e a Europa/Canárias pernoitar nos Açores sem pagar o alojamento.
Até sou capaz de reconhecer nesta oferta comercial da SATA algum interesse, oportunidade e sentido.
O problema é que a mesma SATA que tem esta simpatia para com os passageiros que vêm do estrangeiro, trata os Açorianos de seis ilhas de forma diferente. Por exemplo, um Açoriano do Corvo, das Flores, do Faial, do Pico, de S. Jorge e da Graciosa se quiser viajar para o Funchal, nos horários agora em vigor, é sempre obrigado a uma pernoita em Ponta Delgada na ida e, conforme os dias do regresso, a nova pernoita.
Para estes Açorianos, que sustentam a SATA com os seus impostos, não há “Overnight”.
E se se levanta o problema dos horários, como o fiz no Parlamento em 2010, a resposta que se obtém do Governo, cheia de cinismo e reveladora da forma como encara as populações desta ilha, é a seguinte: “Da Horta para o Funchal não há ligações, sem pernoita, via Ponta Delgada. No entanto, é possível viajar para o Funchal e vice-versa, via Lisboa, sem pernoita (…) nos voos operados pela SATA Internacional.”
Faltava dizer nesta brilhante resposta governativa, o custo de tal alternativa.
Como faltava explicar porque é que no site da SATA e no sistema de reservas online se se pede um Horta-Funchal-Horta as hipóteses que nos são dadas são sempre via Ponta Delgada com pernoita.
Mas isso de nada conta: até alguns já não hesitam em dizer, à boca pequena, que nos falta “massa crítica”! O drama é que, infelizmente, muitos, de entre nós, continuam sempre dispostos a tal aceitar, resignadamente, quase como se isso fosse uma fatalidade da nossa dimensão.
3.Este é apenas mais um exemplo da forma como paulatinamente se vai esvaziando o sentido de Região e de equidade entre as várias ilhas dos Açores, chegando-se ao cúmulo de uma empresa pública oferecer a estadia aos estrangeiros que pernoitam em S. Miguel, enquanto os Açorianos, que são obrigados a lá pernoitarem nas suas deslocações, são aconselhados a ir tratar da sua vida por Lisboa, pagando e calando!
É esta a SATA de que os Açores precisam?
Não acredito!
Foi para uns Açores assim que se criou a nossa Autonomia?
Não quero crer!
E não aceito!












