Para além do óbvio

0
18
DR/TI
DR/TI

TI

Na maioria das vezes não somos sensatos o suficiente para vislumbrar o que está para além do óbvio. O tempo mediático da informação, onde os media sociais e a sua interação dominam a atualidade informativa, pouco tempo deixa para a reflexão, o que porventura adensa a necessidade para conclusões imediatistas.
Cingimo-nos a dois acontecimentos mediáticos recentes, de onde proliferaram títulos, partilhas e comentários incisivos.
1. O Presidente da República decidiu fazer um telefonema na estreia de um programa de televisão da mais famosa (e bem paga) apresentadora da TV portuguesa, com o objetivo aparente de desejar-lhe boa sorte. Um tema apetecível para os media sedentos de visualizações que obviamente “viralizou”.
O ato é sem dúvida de um populismo sem precedentes, mas arrisco a dizer que porventura até é necessário (para o País e obviamente para o próprio) ou não fosse Marcelo Rebelo Sousa uma mente que respira estratégia em cada passo que dá.
Ao canalizar o populismo em Portugal para si, impede que o mesmo divague para outras correntes problemáticas, como se tem verificado em vários pontos do Mundo Ocidental.
Acresce que marca pontos com o eleitorado dos programas da manhã, que são dos que mais votam e também dos mais influenciados por correntes populistas. Acentua, no entanto, a crítica na corrente mais à direita, aquela que já estava entristecida com o facto de o mesmo dar (até agora) mais importância ao País que ao partido, no constante apoio à solução governativa atual.
Um Presidente devia evitar este tipo de exageros? Sim, mas vivemos uma nova e assustadora realidade e só quem anda muito distraído é que pode considerar que a palavra “exagero” existe na corrente populista da direita nacionalista e radical que prolifera no Mundo hoje em dia. Basta ver a estratégia e o discurso do que se passou nos EUA, Brasil, Itália, Hungria, Turquia, Polónia, etc.
Sim, o nosso Presidente utiliza um estilo que se assemelha aos populistas que critica, mas sem a carga da ideologia assustadoramente problemática. É aquilo a que se pode apelidar de um populismo benigno dos afetos.
Tenho a certeza que a maioria dos portugueses prefere o populismo benigno de Marcelo ao perigoso do Trump, Bolsonaro, Erdogan, Orbán, Salvini e restantes amigos.
No Verão passado o Miguel Sousa Tavares disse uma frase que para mim faz todo o sentido “O Presidente da República desarmou o populismo (em Portugal), andando à frente do populismo”.
2. Um outro tema que proliferou na agenda mediática foi a candidatura de Luís Montenegro à liderança do PSD. O ex- líder parlamentar do PSD na governação de Passos Coelho, justifica a sua decisão para evitar uma “derrota humilhante” do partido. Isto quando há poucos meses referira que “Nunca farei a Rui Rio o que António Costa fez a Seguro” e que “O País fica em muito melhores mãos com Rui Rio do que com António Costa”. É caso para dizer… bem prega Frei Tomás.
O que o terá levado a mudar drasticamente de opinião, abrindo o flanco para ataques de falta de coerência e de timing suícida?
Na minha opinião foi empurrado a fazer esse papel de troca-tintas pela turba dos Passistas, que daqui a poucos meses seria excluída das listas de Rui Rio.
Se Rui Rio não tem hipótese nas próximas legislativas, o PSD com Montenegro menos hipóteses tem, como tal, estamos a falar de pura sobrevivência ao “tacho” e da manutenção de uma corrente de poder bem viva no interior do partido.
As consequências deste estado de guerra (ideológica) interna é que podem ser perigosas, não só para o partido, mas sobretudo para o País, nomeadamente com o descrédito de um partido de centro-direita, que é fundamental para a nossa democracia e que tem, de certa forma, impedido uma deriva mais radical de algum eleitorado de direita. Algo que infelizmente parece estar em voga em muitos pontos do globo.

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO