POSTAL DA TERRA – Mostrar os Dentes I

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Mostrar os Dentes, sempre foi um sinal de boa educação e simpatia, na tradição da arte de bem receber, e pela qual a cidade da Horta é conhecida nas mais diversas rotas.

Mostrar os Dentes, também já foi uma obrigação para quem quisesse comprar um bom escravo, robusto e trabalhador – um investimento em carne humana para render na roça do cacau ou da cana.

Mostrar os Dentes, ainda hoje é uma forma de avaliar a idade e ajuizar o bem estar e valor animal, de qualquer cabeça de gado bovino, equino, ovino ou caprino que se queira comprar em qualquer feira de gado que por essa região acontece, num esforço de melhoramento do efetivo animal, em qualquer boa exploração que se preze e orgulhe de ter a melhor linhagem.

Mostrar os Dentes também será um item obrigatório em qualquer concurso de beleza…, não só na pecuária, como nos canídeos e felídeos, que tanta animação provoca entre os donos que disputam a taça do mais puro, belo e elegante.

Mostrar os Dentes também é obrigatório se os queremos tratar, e manter a nossa saúde oral em condições, escolhendo, num Estado e Região de direito, aquele profissional – estomatologista ou médico dentista da nossa confiança, para mexer naquilo que temos de mais íntimo: a boca.

E se o queremos em tempo útil, a tempo e a horas de não ficarmos com a boca “podre”, o Serviço Regional de Saúde sempre nos habituou, sempre nos empurrou para a privada… sim, porque da pública, só se tivermos a habilidade e o condão de prever uma cárie daqui a alguns anos… tal é a lista de espera. Também ir à dita “Urgência”, não vale a pena, pois tendo o vulgar abscesso / infecção com dor, não pode ser tratado, e mandam-nos para casa com um anti-inflamatório, e o percurso via médico de família é longo… e penoso, enquanto quem está pago para estar de prevenção, raramente é incomodado!

O que não estávamos habituados era a ter que Mostrar os Dentes, quando vamos à USIF  (Unidade de Saúde da Ilha do Faial, ex-Centro de Saúde da Horta) solicitar o reembolso da consulta privada a que temos direito, reembolso esse com valores completamente desajustados da realidade – basta dizer que numa consulta da especialidade de 60 ou 80€ recebemos pouco mais de um euro…

O que está mal… mas que não interessa corrigir, é que um beneficiário da ADSE tem um reembolso generoso, enquanto que os da Segurança Social, vulgo ex-Caixa de Previdência vêem-no por um canudo…, inferindo-se desde logo que há doentes do estado de primeira e da privada de segunda categoria… Porquê?… Não percebo, até porque, geralmente, no atendimento público mostram muito menos os dentes do que no atendimento privado.

E depois não querem que a ADSE seja equiparada / integrada / refundada com a Segurança Social da privada… Ai, quero, quero… Quero eu!!!…

Se a Região não quer ou não pode reembolsar os utentes da privada, que o assuma.

Se a Região desconfia de “maroscas” no sistema de reembolsos, que o investigue e inspecione.

O que não pode é colocar o utente, o doente, o cliente no meio dessa guerra de Golias e lobbies, abusando do elo mais fraco, o paciente que a tudo se submete para receber aquele pouco que ainda tem, ou tinha… direito, recorrendo a uma aparente “junta médica” de apenas dois médicos, cujo objectivo é confirmar ao vivo e a cores o trabalho prestado por colegas da privada.

Ao que chegámos, ao que nos prestamos, ao que damos o nosso corpo, apenas e só, para cumprir e fazer cumprir o “manifesto” de alguém que já não sabe o que fazer para sobreviver no imenso buraco da Saúde, que… sem meios, pretende “tapar o sol com a peneira”, e sair airosamente deste processo em… pré-falência!

Francamente!…

A História é farta em exemplos de quem executa leis, ordens ou procedimentos ignóbeis de déspotas, ditadores ou loucos, desde os que, a mando do Rei Herodes mataram todos os inocentes até 2 anos na ânsia de eliminarem Jesus Cristo, aos que a mando de Hitler mataram milhões nas Câmaras de Gás em Auschwitz no intuito do apuramento da raça ariana…, aos massacres na ex-Jugoslávia / “limpeza étnica” na Guerra da Bósnia… Uns foram julgados, outros nunca o foram, outros ainda o serão, mas certamente todos eles um dia ajustarão contas, ou pela mão do Homem, ou pela mão de Divina.

Não tenho nada contra Ações Inspectivas, pois neste país e nesta Região, estamos bem precisados dessa limpeza que urge fazer, num país cada vez mais desigual, em que são sempre os mesmos a pagar e a suportar o desperdício e o abuso de uma mão cheia de privilegiados, e que são fáceis de identificar: são os que mais ganham, os que mais reclamam, os que mais greves fazem, os que têm medo de “baixarem de nível” e integrarem um sistema único de retribuição, de saúde, de educação, de reforma, de… igualdade social, quer nos direitos, quer nos deveres.

O que não posso aceitar é que se envolta o utente nessa “caça às bruxas”.

Será que é só na estomatologia? E porque não na oncologia, na ginecologia ou na urologia? Será que, qualquer dia, também teremos que ir mostrar o… ou a… ao sr dr inspector, para tirar o “retrato”?

A cada dia que passa, quando parece que mais nada nos irá surpreender, pela negativa, lá vem mais uma… e pumba, descemos mais um degrau!

Como é possível?

Como pode ser possível que seja o/a médico/a a pedir ao utente para, sentado numa cadeira normal, abrir a sua boca e a arredar a bochecha com o dedo, sem facultar qualquer método de desinfecção ou o uso de luvas? Certamente, para poupar nas poucas “luvas” disponíveis…

Como pode o/a médico/a aproximar-se da boca do utente, espreitando lá para dentro sem o uso de qualquer tipo de proteção ou máscara? Será que desconhecem que há kits próprios para essas inspeções? Ou será que o utente é que terá de os comprar na farmácia?

Mais ridículo ainda é o/a médico/a da USIF desculpar-se e descartar-se deste serviço de duvidosa ética dizendo ser muito chato… (Chatos na boca? Não conheço, mas talvez existam…), enquanto o/a colega vai introduzindo no computador o veredicto do exame a “olho nu”: “confere” / “não confere”.

Sendo um dos objectivo da estomatologia o tratamento e alindamento da boca, em que se procura “esconder” o serviço feito, graças às mais avançadas técnicas da estética nesta especialidade, como pode um/a médico/a averiguar esse serviço, se nem coloca as luvas e/ou a máscara, não usa a cadeira da especialidade nem os meios adequados de diagnóstico (RX) nem os utensílios adequados? À distância, só se tiver uma “bola de cristal”…

Que política de Saúde é esta que propõe, com uma mão encerrar as especialidades de Oncologia, Urologia e ainda a Unidade de Cuidados Intensivos no Hospital da Horta, e com a outra mão duplicar a Estomatologia no Faial, fazendo passar de 2 para 4 o número de médicos nesta área?

Para quê?

Para nos rirmos de nós próprios?

Porque é importante rir, saudavelmente, na campanha eleitoral que se aproxima?

Veremos!

Cantando e rindo…, e acima de tudo, sorrindo, cada vez mais, de quem nos (des)governa!…

(continua)

 

Contributos, para po.acp@mail.telepac.pt

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