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Professor Goulart de Vargas, fundador da “Lira e Progresso Feteirense”

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José de Faria Goulart de Vargas nasceu na freguesia da Feteira, ilha do Faial, a 9 de Agosto de 1898, filho do professor Manuel Dutra Goulart de Vargas e de Ana Austília de Faria Goulart.
Após a frequência do Liceu, matriculou-se na Escola Normal da Horta, onde, em Julho de 1916, concluiu o curso de professor primário com a classificação máxima de 20 valores. Perdido que está todo o acervo daquele estabelecimento de ensino, o seu diploma de curso – preservado pela família e que o seu bisneto Fernando Rodrigo Goulart Guerra amavelmente me disponibilizou – aqui vai transcrito, por ser documento único e inédito:
“Instrução Pública
Escola de Habilitação para o Magistério Primário da Horta
Simão de Roches da Cunha Brum (Barão de Roches), Director da Escola para o Magistério Primário da Horta,
Faço saber que José de Faria Goulart de Vargas, abaixo assinado, filho de Manuel Dutra Goulart de Vargas, natural da freguesia da Feteira, concelho da Horta, distrito da Horta, tendo frequentado com aproveitamento o curso desta Escola, foi examinado com as formalidades legais em todas as disciplinas que constituem o curso da mesma Escola e o júri de exame, terminado em 18 de Julho de 1916, classificou-o com a nota de vinte (20) valores, que corresponde a ‘Muito Bom’, como consta do livro respectivo a folhas 23 verso. Pelo que, e em conformidade com a lei, mando passar o presente diploma, selado com o selo desta Escola, e declaro José Faria Goulart de Vargas habilitado para exercer o magistério primário e gozar [?!] das vantagens e prerrogativas que legalmente lhe competirem, pedindo às autoridades e corporações que o reconheçam como tal. Eu, Jaime Maria Soares de Melo, secretário da escola, o subscrevi.
Escola de Habilitação para o Magistério Primário da Horta, em 21 de Julho de 1916.
(ass.) O Aluno, José de Faria Goulart de Vargas / (ass.) O Director, Simão de Roches da Cunha Brum (Barão de Roches) / (ass.) O Secretário, Jaime Maria Soares de Melo”.
Precedendo concurso, foi provido na escola masculina das Grotas, lugar da sua terra natal, em Outubro de 1917, tendo casado a 30 de Dezembro com a conterrânea Maria Amélia Goulart de Vargas, ambos solteiros, ele de 19 e ela de 18 anos de idade.
O professor José de Faria Goulart de Vargas dedicou-se, desde cedo à aprendizagem da arte musical com o padre João Goulart Cardoso e no próprio curso na Escola Normal, cujo plano de estudos compreendia “noções de música e execução de coros”.
Com real apetência pela arte dos sons, em que revelaria indiscutível saber, foi o principal impulsionador da fundação, em 1 de Outubro de 1921, da filarmónica “Lira e Progresso Feteirense”, hoje quase centenária. Na ausência de documentação oficial, (os estatutos mais antigos desta banda musical datam de 15 de Março de 1935) o professor Goulart de Vargas terá sido acompanhado nessa tarefa fundacional por outros conterrâneos, designadamente António Pereira da Silva, Manuel Tomás, António Pimentel, José Silveira Caldeira, Alberto José Luís Naia, Joaquim Inácio da Fonte, José da Rosa Martins, Francisco Silveira Caldeira e Francisco Pereira Contente .
Organizada em fins de 1921, já em Agosto de 1922 a “Lira e Progresso Feteirense” “abrilhantou os festejos do Império da Laginha” tendo como regente o professor Goulart de Vargas que, durante vários anos, desempenhou essas funções que acumulava com as de presidente da direcção. Encontramos, nos jornais daquela década, pequenas notícias que provam estes factos. Dois exemplos apenas: o primeiro, no dia 9 de Agosto de 1925, onde se diz que “a filarmónica Lira e Progresso Feteirense cumprimentou o seu regente sr. José de Faria Goulart de Vargas pelo seu aniversário natalício, tendo o sr. Vargas oferecido um ‘copo de água’ aos tocadores” ; o segundo, divulgando que a direcção daquela filarmónica eleita em Janeiro de 1926 era formada pelo professor Goulart de Vargas, vigário Manuel Moniz Madruga e Francisco Silveira Caldeira .
Decorridos poucos meses e por razões não confirmadas – mas que se podem relacionar com a crise sísmica de 1926 (começada em 5 de Abril) e com uma valiosa herança recebida de um seu parente – o jovem professor Vargas, acompanhado da esposa, seguiu, em 27 de Maio, para a Califórnia viajando no vapor francês ‘Braga’. Ali esteve quase um ano, vendeu os bens herdados e em 17 de Maio de 1928 chegava ao Faial, sendo homenageado, nesse dia, pela “Lira e Progresso Feteirense”. O jornal A Democracia relata que na sede desta filarmónica foi “inaugurado o retrato do sr. Goulart Vargas, seu regente, sendo por essa ocasião executado um hino dedicado ao homenageado e composto pelo maestro sr. Francisco Xavier Simaria. Em seguida foi servido um copo de água, trocando-se muitos brindes” . Mesmo ausente na Califórnia, o professor Goulart de Vargas manteve a titularidade da direcção musical e administrativa daquela filarmónica. Com efeito, em Janeiro de 1928, foi eleita uma nova direcção que ficou assim constituída: presidente José de Faria Goulart de Vargas; vice-presidente António Pimentel do Amaral; secretário Padre Manuel Moniz Madruga, vice-secretário José da Rosa Martins, tesoureiro Joaquim Inácio da Ponte e vice-tesoureiro António Pereira da Silva. Foi ainda no ano de 1928 que a “Lira e Progresso Feteirense”, representada pelo “seu actual director, o professor de instrução primária José de Faria Goulart de Vargas”, comprou “um prédio de seiscentos e vinte miliares de campo, no sítio dos Quinhões, Feteira, pelo preço de trezentos e noventa e oitos escudos fortes (quatrocentos noventa e sete escudos e cinquenta centavos insulanos)” , para, naturalmente, iniciar a construção daquela que é, ainda hoje, a sua sede social.
A avaliar apenas pelas compras que encontramos registadas notarialmente nos dois últimos anos da década de 20, ficamos cientes que o professor José de Faria Goulart de Vargas se tornou um abastado proprietário rural com terras lavradias situadas no Pedregulho, no Algar, nos Quinhões e no Farrobim do Sul.
Apesar de se manter ligado à escola e à filarmónica da sua terra natal, sabemos que em Janeiro de 1930 já vivia, com a família, nas Angústias, talvez na Rua Conde de Ávila na casa de morada (com 25 ares e quarenta e um centiares de terreno) que seus pais haviam comprado, no ano anterior, a Luísa Garcia Goulart da Silva.
Em Junho de 1935, no âmbito das “Festas escolares de encerramento do ano lectivo”, promovidas em todos os estabelecimentos de ensino do distrito da Horta, as crianças e os professores da Feteira realizaram a sua festa, presidida pelo Inspector Escolar e nela “as crianças das escolas, acompanhadas por um grupo musical da freguesia, executaram sob a hábil regência do professor sr. Goulart de Vargas a ‘Portuguesa’ e depois o Hino Escolar”. Discursando na ocasião, o professor Henrique Saldanha salientou o valor e as finalidades das Festas Escolares, enalteceu “a acção do professor primário, principalmente nos meios rurais”, a qual não se devia “limitar ao ensino propriamente dito” mas ser também factor de desenvolvimento cultural, dando como exemplo a “filarmónica local cuja fundação é devida ao professor Goulart de Vargas”. E esta – concluiu Henrique Saldanha ao reivindicar dos poderes públicos a construção de um edifício escolar para a freguesia – “já possui o seu edifício próprio” demonstrativo da “dedicação dos feteirenses pela sua Terra”
Residindo desde 1930 na cidade da Horta, o professor Goulart de Vargas passou a exercer o magistério na freguesia das Angústias, aí mantendo a sua própria escola de música e sendo, durante vários anos, mestre da Capela da paróquia da Matriz. Os dados disponíveis indicam que só em 1942 terá deixado a direcção da Lira Feteirense sendo substituído pelo jovem músico Eduino Bulcão Ávila.
Vitimado por “hipertensão com doença do coração” faleceu a 26 de Fevereiro de 1961, aos 62 anos, na sua casa “sita na rua das Angústias, Horta” . “Pessoa muito estimada no nosso meio” , foi “não só professor dos mais competentes mas também distinto amador musical, gozando de muita consideração no meio faialense”.
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

1 Informações colhidas na brochura da Lira e Progresso Feteirense, da autoria de Jandira Zeferino e Alexandre Fraga, editada pela CMH em 1989
2 A Democracia, 11 Agosto 1925
3 Ibidem, 12 Janeiro 1926
4 Idem, 19 Maio 1927
5 Livro n.º482, 4.º ofício CNHRT, fls. 89 e 89-v
6 Correio da Horta, 2 Julho 1935
7 Livro de Óbitos n.º 51 da C. Registo Civil da Horta, fl.25
8 O Telégrafo, 23 Fevereiro 1961
9 Correio da Horta, 23 Fevereiro 1961

 

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