Início Artigos de opinião Fernando Faria Retalhos da nossa história – CCLXXVII – Ouvidor Francisco Garcia da Rosa

Retalhos da nossa história – CCLXXVII – Ouvidor Francisco Garcia da Rosa

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Nomeado em Julho de 1922 pároco da Matriz e ouvidor do Faial poucos dias após o falecimento em Lisboa do seu antecessor, o padre Dr. Francisco Garcia da Rosa já se encontrava na Horta quando a 13 daquele mês presidiu às cerimónias fúnebres do malogrado sacerdote Manuel Augusto Xavier transladado da capital portuguesa e sepultado no cemitério do Carmo.
Tendo nascido em 17 de Novembro de 1893 na freguesia de São João, ilha do Pico, Francisco Garcia da Rosa foi o 9.º dos 11 filhos registados pelo casal D. Maria Úrsula e António Garcia da Rosa.
Depois do curso do seminário de Angra, onde ingressara em 1907, foi mandado pela Diocese para o Colégio Português em Roma, a fim de cursar Filosofia, Teologia e Música-Sacra, o que fez com distinção na Universidade Gregoriana.
Completada a sua formação superior, regressou aos Açores, sendo nomeado pároco da Matriz e ouvidor da Horta, havendo feito a sua apresentação na igreja-mãe do Faial em 17 de Julho de 1922. Jovem e cheio de vida, possuidor de vasta cultura teológica, filosófica, artística e literária, o Dr. Francisco Garcia da Rosa logo se destacou no meio faialense pelo seu fervor religioso, aprumo moral e consideração social.
A ele se ficou devendo a dinamização da festa de Santa Cecília na ilha do Faial – continuada até hoje pelos párocos que se lhe seguiram – a que imprimiu o máximo esplendor porque foi calorosamente acolhida pelos nossos músicos. O que foi, em Novembro de 1922 a primeira celebração dessa festividade da padroeira dos músicos, relata O Telégrafo que “sob a culta direcção do Ouvidor do Concelho e seu Vigário teve ontem lugar na Matriz [domingo, 26 Novembro] uma deslumbrante festa que nada deixou a desejar mesmo aos mais exigentes”, sendo “uma comemoração digna de qualquer catedral”, pois “tanto o trabalho vocal como instrumental debaixo da regência do reverendo Dr. Francisco Garcia da Rosa faria a honra de qualquer capela”1.
Decorrido quase um século, essa festa ainda hoje movimenta os coros paroquiais e as filarmónicas de toda a ilha celebrando em conjunto na Matriz a padroeira da Música. Apesar de se viver em plena Primeira República e de provavelmente ainda se fazerem sentir as sequelas provocadas pela Lei de Separação da Igreja do Estado, esta circunstância não impediu que o Dr. Garcia da Rosa participasse em manifestações profanas. Exemplo disso foi ter sido director do Coro Misto do Sporting Club da Horta que actuou no sarau músico-literário que esta agremiação promoveu em 16 de Fevereiro de 1924 a favor do Hospital Walter Bensaúde.
Aliás, aquela jovem agremiação desportiva (fundada em 28 Maio de 1923) preocupada em manter o justo equilíbrio entre o corpo e o espírito irá recorrer mais uma vez aos préstimos do ouvidor Garcia da Rosa. Foi na composição dos corpos eleitos em 1925, onde a par dos cargos directivos alinhavam sete comissões técnicas, sendo a de “Ciências, Letras e Arte” preenchida por estas destacadas personalidades: D. Silvina Furtado, Dr. Francisco Garcia da Rosa, Dr. Joaquim Gualberto da Cunha Melo, Dr. Manuel Francisco das Neves Júnior e Marcelino Lima.
Terá sido também em 1925 que o novo e egrégio Bispo de Angra, D. António Augusto de Castro Meireles – que poucos anos depois seria Bispo do Porto – ficou a conhecer a pessoa e o valor do ouvidor Dr. Garcia da Rosa quando, em visita pastoral às ilhas do Corvo e das Flores, esteve de passagem na Horta.
Um ano depois e logo após o devastador terramoto de 31 de Agosto, D. António Meireles que, tendo regressado dos Estados Unidos onde participara no Congresso Eucarístico de Chicago estava no Continente, logo se apressou em vir ao Faial patentear aos sinistrados quanto partilhava do seu infortúnio e daqui dirigir um apelo aos seus colegas no Episcopado para diligenciarem peditórios nas suas dioceses que ajudassem a minorar tantas necessidades. Foi nessa ocasião que, no convívio diário com o Dr. Garcia da Rosa, mais se terá apercebido da sua vasta cultura e de quanto seria valioso o seu contributo como professor do Seminário Diocesano. Estará aqui a explicação da transferência, em 1926, para Angra do Heroísmo, sendo nomeado vigário de Santa Luzia em 1927, cargo que exerceu até 1928, ano em que passou a pároco da Conceição, onde se manteve até falecer. Simultaneamente foi nomeado docente do Seminário, onde em anos sucessivos leccionou as cadeiras de Dogma, Moral, Liturgia, Arte Sacra, Canto Gregoriano e Música.
Músico notável, foi exímio organista na Sé Catedral e pároco competente como o provam o brilho e a apoteose das suas festas de Santa Cecília, na Horta, e do Santíssimo Sacramento e da Imaculada Conceição, em Angra. Organizou, ensaiou e dirigiu grupos musicais, desde o Coro Misto do Sporting da Horta, até ao celebrado Orfeão do Seminário durante a ausência nos Estados Unidos do respectivo director artístico, o padre José Silveira de Ávila, também ele natural da ilha do Pico.
O Dr. Garcia da Rosa foi um dos fundadores do Instituto Histórico da Ilha Terceira e do Instituto Açoriano de Cultura. Proferiu várias conferências, e publicou diversos trabalhos, nomeadamente “A restauração artística de uma igreja notável” (1937), “Uma velha igreja gótica” (1938), “Origem, decadência e restauração da polifonia sacra” (1939) “Maria Santíssima e as Belas Artes” (1943).
Foi nomeado Cónego da Sé de Angra em 1956.
Faleceu a 14 de Novembro de 1958 e, na ocasião, um dos seus alunos no Seminário, confessava que “ficámos privados de um dos nossos professores mias competentes e mais amigos”, ele que havia sido “um dos párocos miais fervorosos e exemplares da nossa Diocese, um dos professores mais ilustres do nosso seminário, o melhor organista do arquipélago e um dos filhos mais nobres do distrito da Horta”2

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

1 O Telégrafo, 27 Novembro 1922
2 Manuel Raimundo, in Correio da Horta, 27 Novembro 1958

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