Formado na Escola Normal da Horta em 1919 com a alta classificação de 19 valores, o professor João Xavier Ramos foi figura de destaque na sociedade faialense, nomeadamente no magistério, na música e na vida política e desportiva. É ainda hoje recordado pelos alunos que o tiveram como professor no Liceu Nacional e na Escola do Magistério Primário da Horta e pelos filarmónicos que tocaram sob a sua competente direção musical.
Filho de “Francisco Augusto Ramos da Silveira, escrivão da Fazenda e de D. Maria Evelina Xavier da Silveira, empregada no governo doméstico”1, nasceu em São Roque do Pico a 27 de fevereiro de 1901. Aos 15 anos veio residir para o Faial e foi nesta ilha que estudou no Liceu e na Escola Normal, que constituiu família, que exerceu a sua profissão e que desenvolveu uma intensa e frutuosa ação artística e cívica.
João Xavier Ramos foi um dos 36 alunos (oito homens e 28 mulheres) que concluíram o curso da Escola Normal, por sinal o mais numeroso que saiu daquele estabelecimento de ensino nos 26 anos da sua existência. As classificações, quando comparadas com as que bastante tempo depois seriam atribuídas pela Escola do Magistério Primário da Horta (1945-1989), eram deveras elevadas. Assim, naquele ano, houve dois professores com 20 valores, nove com 19, oito com 18, doze com 17, dois com 16, um com 15, outro com 14 e ainda outro com 13. A título de curiosidade assinala-se que a nota máxima foi atribuída a Tomás Garcia Duarte e a D. Ema da Conceição Noia de Medeiros. Alguns dos docentes não seguiram a carreira do ensino, optando por outras profissões como aconteceu inicialmente com o professor João Ramos que, segundo lembra Júlio Andrade, “talvez por que se não quisesse afastar dos seus colocou-se na Companhia Inglesa, detentora ao tempo de alguns cabos submarinos e ali permaneceu por muitos anos”. Mas, na década de 30, devido “à superabundância de pessoal deixou aquele lugar com indemnização e reforma, transferindo-se para professor primário e, pouco tempo depois, para professor de Didáctica” na Escola do Magistério da Horta, “e aí permaneceu até à aposentação”2.
Entretanto, constituíra família, casando, em 27 de novembro de 1926, com a professora D. Maria Carmen Ávila (nascida em Castelo Branco e diplomada com 20 valores em 1921) e, a par da sua vida profissional, dava largas ao seu gosto artístico, “tocando qualquer instrumento de cordas ou metal além do piano, compondo passo-dobles, marchas graves e rapsódias que instrumentava, além de música para canções”3, integrando agrupamentos musicais, sendo organista na igreja Matriz ou dirigindo filarmónicas.
Efetivamente, em 1925, contando apenas 24 anos, assumiu a regência da Nova Artista Flamenguense e lá se manteve até 1941, tendo regressado em 1951. Neste interregno de 10 anos esteve à frente da citadina União Faialense transformando-a numa banda de excelente nível4. Em fins de 1963, por indicação médica, devido ao seu estado de saúde, teve de deixar a regência da Nova Artista Flamenguense, sendo substituído por Manuel Correia Gaudêncio, outro destacado musicólogo. Com passagens fugazes e esporádicas pela regência da Euterpe, da freguesia de sua esposa e onde tinham casa de veraneio, o professor João Ramos foi, durante 40 anos, diretor de filarmónicas, acumulando com a participação em agrupamentos musicais, designadamente “Orquestra Symaria” e “Sem Rei Nem Roque”. Esta orquestra, nascida no Fayal Sport para abrilhantar as “Festas de Verão” integrava-se na secção de Arte e Cultura do clube da Alagoa que muitos espetáculos organizou e que tanto ficou a dever aos professores Júlio Andrade, Constan-tino Amaral Júnior e João Xavier Ramos, cuja dedicação e entusiasmo se alargou até à assunção de cargos diretivos. Ele foi, em diversas ocasiões, um entusiasta dirigente do Fayal Sport, sendo 1.º secretário da Direção aquando das Bodas de Prata (1934), vice-presidente da Direção na transferência do campo de futebol do Relvão da Doca para a Alagoa (1940), vice-presidente no início da construção do Estádio da Alagoa (1951) e presidente da Direção em 1935, 1936, 1938, 1939 e 1946.
Não obstante ser um dos mais distintos amadores musicais e um prestante dirigente desportivo, João Ramos deu igualmente o seu generoso contributo a instituições de solidariedade social e não se eximiu à participação política como membro da Câmara Municipal ou da Junta Geral do Distrito.
Mas, acima de tudo, estava a vida familiar e profissional. E foi com a criação da Escola do Magistério Primário da Horta, em dezembro de 1945, que uma profunda mudança se operou na sua carreira académica, já que passou a ser professor de Didática Especial e de Legislação e Administração Escolares. Além dele, compunham o primeiro corpo docente da novel Escola os seguintes elementos: Dr. Joaquim José Gomes Belo, diretor e professor de Pedagogia e Didática Geral; Dr. Bernardo Vidigal, professor de Psicologia; Dr. Agostinho da Silva, professor de Organização Política e Administrativa da Nação; Dr. Manuel Alexandre Madruga, professor de Desenho e Trabalhos Manuais; Manuel Maria de Melo, professor de Música e Canto Coral; Marcolino Martins da Costa, professor de Educação Física; D. Maria Lacerda Goulart da Silva Gonçalves, professora de Educação Feminina; Dr. António da Terra, professor de Higiene Escolar e Padre José Pereira da Silva, professor de Educação Moral e Cívica. Uns anos mais tarde, precisamente a 19 de Julho de 1951, João Xavier Ramos acumularia a cadeira de Didáctica Especial com a de Música e Canto Coral – disciplina que também passou a lecionar no Liceu da Horta – mantendo-se no exercício delas até à aposentação em 1968.
Professor compreensivo e dedicado, músico competente e distinto, o professor João Ramos foi um bom e generoso amigo que tantos de nós, que fomos seus alunos no Liceu ou na Escola do Magistério, sabíamos afetuosamente respeitar e que recordamos com estima, gratidão e saudade.
A atestar esta opinião pessoal, transcrevo do “Eco do Vale”, página do jornal Correio da Horta, estas palavras alusivas ao professor João Xavier Ramos:
“(…) Há 43 anos, bastante novo ainda, foi convidado a assumir a direcção artística da nossa Filarmónica, na qual permaneceu mais de 30 anos, com excepção de alguns, poucos, em que esteve na das Angústias. Dotado de vastos conhecimentos musicais e pondo em jogo a sua boa vontade e enorme esforço, conseguiu, em pouco tempo, valorizar a nossa Flamenguense, elevando-a a um nível bastante apreciável. Possuía qualidades de bondade que sempre lhe foram timbre, tornando-o com o andar do tempo, num grande amigo, não só dos componentes da ‘Nova Artista Flamenguense’, como de toda a restante população da freguesia. A todos respeitou e de todos era querido (…) Talvez não seja do conhecimento de muitos, mormente daqueles que não são cá do Vale, a obra realizada em prol dos menos protegidos da sorte, a começar pelos tocadores da Filarmónica. Dispondo de grande influência em determinados sectores do nosso meio, conseguiu trabalho vitalício para muitas famílias que assim viram assegurado o seu pão. Mas a bondade do prof. João Ramos foi mais além e fez esmolas avultadas a muitos, a outros prestou provas de grande valia, para muitos teve sempre uma palavra amiga e um oportuno conselho. Viveu connosco as nossas horas altas e baixas durante três décadas e todos cá do Vale lhe quiseram bem (…) É que o prof. João Ramos nunca deixou de ser autenticamente Professor. Era-o sempre, tanto nos ensaios, como nas conversas ou no convívio (…)”5.
Após doença prolongada, faleceu a 19 de dezembro de 1971. Contava 70 anos, era casado com a professora D. Maria Carmen Ávila Ramos, e pai do engenheiro Eugénio Ávila Ramos casado com D. Maria dos Anjos Mesquita Ávila Ramos, da professora D. Beatriz Ávila Ramos Leal casada com o Prof. Doutor Renato Silva Leal, e da Dr.ª D. Maria Evelina Ávila Ramos Lopes da Silva casada com o médico Dr. António Francisco Lopes da Silva. O seu funeral constituiu uma eloquente manifestação de pesar, nele se incorporando uma delegação da Irmandade da Coroa Nova de Castelo Branco, as filarmónicas “Euterpe” e “Nova Artista Flamenguense” e muito povo, indo o ataúde coberto com a bandeira do Fayal Sport Club.













