Na edição de 25 de Março último deste semanário o artigo “Nos 100 anos da reconstrução do Teatro Faialense”, ao pretender dar um ligeiro contributo para registar e enaltecer o que tem sido aquela vetusta casa de espectáculos, contém um erro de que me penitencio e que me apresso a relevar.
Efectivamente, após uma síntese da sua longa e bonita história, escrevi no último parágrafo, e apenas “como curiosidade, que esteve prevista, em 16 de Setembro de 1956, a comemoração do centenário do Teatro Faialense”. E acrescentei que “circunstâncias várias impediram que o programa pensado – cujo ponto alto seria a estreia de uma peça da dramaturga Olga Alves Guerra, a faialense que viu trabalhos seus representados no Teatro Nacional D. Maria II – fosse realizado”. Tomei, então, como fidedigna a informação de Marcelino Lima (1868-1961), consagrado escritor e investigador histórico, que na sua obra “O Teatro na Ilha do Faial” publicado em 1957 diz que se pretendeu “há pouco comemorar o centenário do Teatro Faialense”, o que “era um dever” e “um saldar de contas em aberto na consciência pública; mas o programa a cumprir – que muito havia a cumprir – apesar, da representação, em estreia, duma peça da ilustre patrícia, D. Olga Alves Guerra, não chegou sequer a meia missa (…) Até o dia 16 de Setembro de 1956, genuíno dia do centenário, decorreu banal, em silêncio, nulo, sem uma manifestação solene, um acto de recordação, ou uma filarmónica, um foguete festivo, qualquer cousa de simpático que assinalasse na ribalta os cem anos de história celebrados!” 1
Aceitei sem hesitar a informação de Marcelino Lima e, não fosse uma delicada chamada de atenção de D. Maria Isabel Cerqueira de Bettencourt e Ávila – filha do último proprietário do Teatro Faialense, João de Bettencourt Vasconcelos Correia e Ávila (1909-1993) – o meu involuntário lapso passaria incólume. Mas, para que tal não aconteça, aqui se insere um aditamento respeitante à comemoração do I Centenário do Teatro Faialense que, de acordo com a imprensa da época, decorreu de 16 de Abril a 22 de Junho de 1956.
A sessão inaugural revestiu-se de grande solenidade pois teve a presidi-la o Subsecretário de Estado da Educação Nacional, Dr. Baltazar Rebelo de Sousa, que se encontrava na Horta em visita oficial e que, por singular coincidência, completava 35 anos de idade nesse dia 16 de Abril. Foi uma “luzida sessão solene”, em que participaram as principais autoridades, encontrando-se o Teatro engalanado com flores e colgaduras. Discursou o proprietário do Teatro que agradeceu a honrosa presença daquele membro do Governo, do governador do distrito, demais entidades, convidados e a colaboração do Núcleo Cultural da Horta, pedindo no fim à assistência uma salva de palmas ao ilustre visitante pelo aniversário natalício, a quem presenteou com dois trabalhos regionais em osso de baleia. Depois, o Padre Júlio da Rosa, vice-presidente do Núcleo Cultural da Horta, proferiu uma conferência subordinada ao tema “Evolução e Missão no Teatro” e, por fim, o Dr. Rebelo de Sousa, em breve improviso, “associando-se vivamente aos aplausos qua haviam sublinhado o trabalho do conferente, agradecendo as gentilezas do proprietário e de toda a assistência, fez algumas considerações a propósito da missão educativa do teatro e formulando votos para que aquela casa de espectáculos continuasse as suas tradições pois o teatro é verdadeiramente uma Escola da Educação”2 A parte restante do programa da sessão completou-se com um recital de poesia e a apresentação do Orfeão de alunos do Liceu e da Escola do Magistério Primário da Horta sob a regência do professor João Xavier Ramos. Foram recitados poemas de Gil Vicente, Correia Garção, Almeida Garrett, Marcelino Mesquita, Júlio Dantas, António Baptista e José Régio, interpretadas, respectivamente, por Maria Eduarda Goulart, Maria Clementina Medeiros, Maria Liliana Azevedo Lima, Maria do Rosário Luz Camilo, Lídia Maria Goulart e Mário Frayão. Os intervalos foram preenchidos por uma Orquestra de Salão dirigida pelo maestro Ricardo Ventura.
Integrado nas festas comemorativas do I Centenário do Teatro Faialense, realizou-se outro espectáculo no dia 24 de Maio de 1856 que constou de uma sessão de homenagem à escritora e dramaturga Olga Alves Guerra, com palestra sobre a sua personalidade e obra literária proferida pelo Dr. Tomás da Rosa, professor do Liceu e membro do Núcleo Cultural da Horta. Seguiu-se-lhe a estreia de “A Rapariga do Bar” peça inédita, em três actos, propositadamente escrita para aquelas comemorações, encenada por mestre Joaquim Viana e interpretada pelos experimentados amadores António Simões Pinto, Carlos Ramos Júnior e Mário Frayão e pelas jovens estreantes Maria do Rosário Camilo, Maria de Lourdes Cabral e Maria Eduarda Goulart.
A 3 de Junho realizou-se o terceiro e último espectáculo das festas comemorativas do I Centenário do Teatro Faialense preenchido com uma apreciada audição de piano pelos alunos do professor José Jacinto de Carvalho e uma palestra sobre Música proferida pelo Dr. Victor Aguiar Meyreles. A audição compreendeu um extenso programa em que 24 alunos de ambos os sexos interpretaram composições dos mais variados autores desde Brahms a Durand, e de Beethoven a Paderewski e Schumann.
As comemorações do centenário do Teatro Faialense culminaram, no dia 22 de Junho de 1956, com a celebração de uma missa, na igreja Matriz, por alma do fundador daquela casa de espectáculos e seus descendentes e por todo o pessoal que lá havia trabalhado.
Fundado em 16 de Setembro de 1856, o Teatro Faialense sofreu ao longo dos tempos várias e profundas obras, sendo a maior de todas a completa reconstrução que ditou a sua inauguração a 6 de Abril de 1916. Esta a data escolhida pela Câmara Municipal da Horta – desde 1995 sua actual proprietária que, depois de profunda transformação, o “devolveu” ao público em 2003 – para agora, a 6 de Abril de 2016, assinalar o centenário daquele respeitável centro de recreio e cultura.
Horta 3.04.2016
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)
1 Lima, Marcelino – O Teatro na Ilha do Faial, Lisboa 1957, pp. 40-41
2 O Telégrafo 20 Abril 1956











