Espírito culto e apaixonado da museologia e da etnografia, o professor Manuel Dionísio foi, como vários dos seus colegas, um dos alunos formados na Escola Normal da Horta (1900-1926) que teve notória participação na vida cultural e científica das comunidades em que trabalhou, em especial na ilha do Faial.
Nasceu na actual freguesia da Ribeirinha, concelho das Lajes do Pico a 23 de Agosto de 1886, sendo filho de Manuel Quaresma Pimentel e de Maria de Jesus. Concluiu o curso de habilitação para o magistério primário em 1909 com a elevada classificação de 19 valores. Jovem docente, começou o exercício da profissão no distante concelho de Nordeste, ilha de São Miguel, transferindo-se depois – e sucessivamente – para escolas das freguesias faialenses de Cedros, Flamengos e Conceição da cidade da Horta. Escreveu muito, sendo colaborador de vários jornais, especialmente do “Correio da Horta” e de “O Telégrafo” abordando, nos seus inúmeros artigos, assuntos de relevante interesse para as gentes das ilhas do Faial e Pico, neles sobressaindo os de carácter etnográfico e de história natural.
O professor Manuel Dionísio – no testemunho de quem o conheceu – por ser “muito dado ao estudo e perito em trabalhos de taxidermia”, cedo se ocupou “na organização de um Museu Escolar com finalidade pedagógica”1 que rapidamente ampliou imprimindo-lhe uma feição regional.
Ele era, de facto, um autodidacta, que dando largas à sua natural curiosidade conseguiu reunir exemplares de história natural, recordações históricas, e, porque dotado de rara habilidade manual manifestada tanto na preparação de animais para o museu, como na feitura de modelos de vestuário, alfaias agrícolas, barcos e modelos de instrumentos, viu reconhecido o seu trabalho pelas entidades oficiais que lhe compraram as principais coleções da história natural e etnográfica, as quais viriam a constituir o Museu Municipal da Horta.
Localizado num acanhado 1.º andar de um edifício situado na rua D. Pedro IV, abriria oficialmente ao público em 11 de Agosto de 1943 e teria como responsável o seu criador, ou seja o professor Manuel Dionísio que, entretanto, havia sido “colocado na situação de inactividade em 3 de Março de 1940, sendo contados para a sua aposentação 22 anos de serviço” 2. Apesar da exiguidade das instalações e da escassez de recursos financeiros, aquele espaço que se anunciava sob a designação comum de “museu de história natural, etnográfica e folclore”, era devidamente apreciado por quem lá se deslocava, a avaliar pelos testemunhos exarados no respectivo “Livro de Visitantes”.
Recorrendo ao conceituado jornalista Raul Xavier- que as publicou na edição de “O Telégrafo” de 28 de Setembro de 1954 – aqui se reproduzem as apreciações de dois ilustres açorianos, o cardeal D. José da Costa Nunes e o professor doutor Vitorino Nemésio. Escreveu o eminente purpurado: “Levo desta visita uma óptima impressão. Com tão poucos recursos, conseguiu o Sr. Professor Dionísio reunir no seu Museu uma interessante colecção de artigos regionais e aparelhos científicos, que revelam uma grande força de vontade digna de nota (…) Aqui deixo consignada a minha admiração pelo esforço, tenacidade e competência do organizador desta obra de cultura regional”.
Por sua vez, o celebrado autor de “Mau Tempo no Canal” deixou o seguinte registo: “Este Museu é um mundo abreviado. Quem o fez, se não possui completamente os métodos de antropologia e de etnografia (apreciação que excede a minha competência), tem sem dúvida a profunda intuição das formas da vida humana na sua génese e evolução, e, sobretudo um raro talento para relacionar toda a extensão da morfologia da terra e do homem, a par de uma forte vocação para pôr o seu amplo e rico saber ao serviço da pedagogia e da vulgarização. Esta breve visita encantou-me”.
A par do desvelo com que se entregava ao seu Museu, Manuel Dionísio foi, como se disse, assíduo articulista da imprensa faialense e autor do livro “Costumes Açorianos”, editado em 1937. Prefaciada pelo escritor Florêncio Terra, esta obra, é na opinião deste grande contista, “a descrição viva, minuciosa e fiel, de costumes, práticas, usanças, cancioneiro e danças populares destas ilhas, realçado o descritivo por algumas páginas entusiásticas referentes à nossa admirável história e pelo apuro e relevo literário que soube imprimir-lhe o autor, que junta, deste modo, qualidades distintas de escritor aos seus méritos já comprovados como preparador e sabedor de assuntos de História Natural, o que o seu ‘Museu’, notável sem dúvida, devidamente atesta”.
O director do Museu da Horta, Dr. Luís Menezes, numa das várias comunicações apresentadas no 1.º Encontro das Instituições Museológicas dos Açores realizado na cidade de Ponta Delgada em 1994 – e de que foi editado livro em 1996 – historiou detalhadamente a evolução do património museológico faialense. Com natural conhecimento do assunto, o Dr. Luís Menezes, na sua interessante e longa comunicação, não deixou de referir o contributo pioneiro de dois museus particulares que, na década de 40 do século XIX, existiram na ilha do Faial devidos à iniciativa e ao saber de “dois curiosos, um sargento da guarda-fiscal, Caetano Augusto Moniz, e um professor de instrução primária, Manuel Dionísio” informando que “as principais colecções de história natural e etnográfica do Museu Manuel Dionísio” estão guardadas no Museu da Horta. As primeiras são “essencialmente constituídas por espécies endémicas dos Açores, incluindo conchas, flora marinha, parte de esqueletos de animais terrestres e marinhos, répteis, aves, ovos, fetos e má formações de diversos animais”, ao passo que as etnográficas são “colecções de moedas, armas, artesanato, diversos utensílios domésticos, modelos de embarcações e apetrechos de pesca artesanal, em grande número de réplicas e na maior parte miniaturas, no que diz respeito às tecnologias tradicionais do linho, lã e agrícola, e caixas ou tabuleiros construídos com mecanismos de relojoaria ligados a bonecos que expressavam pela vestimenta e movimento o folclore regional”.
O Museu Municipal da Horta, com Manuel Dionísio a desempenhar o papel de “conservador”, apesar de se definir como elemento de cultura e factor de turismo, jamais conseguiu ter a vitalidade desejada pelo seu criador, acabando por encerrar definitivamente as suas instalações em finais da década de sessenta 3.
Entretanto, o professor Manuel Dionísio já não assistiu ao desaparecimento do “seu” museu, pois falecera a 28 de Agosto de 1954 na sua casa do lugar das Fontainhas, Flamengos, vitimado por uma “miocardite reumatismal”. Tinha 68 anos e era casado com D.ª Maria Pinheiro Dionísio. 4
1 O Telégrafo, 28 Setembro 1954
2 Ibidem, 16 Maio 1940
3 Vd. Menezes, Luís, 1.º Encontro das Instituições Museológicas dos Açores, P. Delgada 1994, pp. 40 a 48
4 Livro de Óbitos n.º 44, ano de 1954 concelho da Horta.











